Este livro recorda uma Lisboa em parte desaparecida, que iniciou um movimento de cosmopolização no final dos anos 80. É a Lisboa das tascas e casas de pasto, do fecho dos cinemas históricos, do arranque da vida nocturna no Bairro Alto, da liberdade no mítico Frágil, das bandas rock portuguesas, dos encontros e desencontros na era das cabines telefónicas, do grande incêndio no Chiado, dos últimos alfaiates, das primeiras reconstruções urbanas preservando cirurgicamente as fachadas. Daniel Blaufuks regista aqui uma Lisboa poética, que manteve sempre na mira da sua câmara.
«O pavimento molhado reflectia as luzes urbanas e dava‑lhe mesmo, na nossa mente cinematográfica, uma aura de Nova Iorque tirada de um filme de detectives, em que nós éramos simultaneamente o detective e o criminoso.» — D.B.
Daniel Blaufuks nasceu em Lisboa em 1963, numa família de refugiados judeus alemães. A sua formação dividiu-se entre a AR.CO, Lisboa, o Royal College of Arts, Londres, e a Watermill Foundation, Nova Iorque. Desde "My Tangier" (1991), em que colaborou com o escritor Paul Bowles, que o seu trabalho se tem centrado na relação entre fotografia e literatura. Mais recentemente, em "Collected short stories" (2003), apresentou vários dípticos fotográficos numa espécie de "prosa de instantâneos", um discurso baseado em fragmentos visuais que insinuam histórias privadas a caminho de se tornarem públicas. A relação entre o público e o privado tem sido uma das constantes interrogações no seu trabalho, assim como a ligação entre a recordação pessoal e a memória colectiva. Utilizando principalmente fotografia e vídeo, é autor de livros, instalações, filmes e diários fac-similados, como "London diaries" (1994) e "Uma viagem a São Petersburgo" (1998). Depois de "Sob céus estranhos" (2002), realizou "Um pouco mais pequeno do que o Indiana" (2006), um ensaio sobre paisagem e memória colectiva em Portugal. O seu trabalho encontra-se representado em várias colecções, entre as quais a da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), a Colecção Berardo (Lisboa), o Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela), o Palazzo delle Papesse (Siena), a Sagamore Collection (Miami), e The Progressive Collection (Ohio). Foi o vencedor do Prémio BES Photo 2006, o mais importante prémio nacional de fotografia.
"Havia e há tardes em que Lisboa carrega uma névoa de melancolia que se nos entranha pelo corpo adentro, que confundimos com a também latente humidade vinda do Tejo mas que é diferente e que, por vezes, nos apanha mesmo num dia quente de verão. Trata-se de uma melancolia leve, que não chega ainda a ser doença mas pode durar vários dias, e que nos impede de pensar ou ver para além do nevoeiro, que não é um nevoeiro meteorológico mas é como se fosse, apesar de estar dentro de nós. A sua densidade mede-se na alma e não no barómetro, e, por vezes, tentamos emitir sons, como um barco em alto-mar, para que alguém nos guie para fora dessa melancolia, para que alguém nos consiga levar para um porto seguro, o que não é tarefa fácil para ninguém nesses dias complexos. Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios, escreveu o nosso Pessoa, poeta-rei da melancolia lisboeta, e não haverá descrição melhor destes dias em Lisboa."
"Fotógrafo dos jornais Blitz e Independente no final dos anos 80 e em meados dos anos 90, Daniel Blaufuks trazia sempre a máquina fotográfica consigo. Durante a pandemia, decidiu revisitar os negativos dessa época – e assim surgiu o livro Lisboa Clichê, lançado em setembro pela Tinta-da-China (já na segunda edição), memórias escritas a partir de imagens, aquilo que Blaufuks considera 'um livro de texto' – porque nele trata as imagens como texto –, e não de fotografia."
As fotografias remetem-nos para espaços familiares na cidade, habitualmente frequentados pelo fotógrafo e pelo seu círculo de amigos e conhecidos, como o Frágil, o Éden, o Odeon, o British Bar, a Cinemateca, a Versailles, a Photomaton, a Feira Popular e o Hotel Sheraton. Encontramos ainda fotos do trágico incêndio do Chiado, da noite lisboeta, do nevoeiro, dos cartazes espalhados pela cidade, dos marinheiros a correr pelo Cais do Sodré e dos trabalhadores anónimos como o jovem engraxador João.
Num tempo de grandes mutações e antes da internet, Lisboa era diferente ("pequena, desmazelado e pobre") e é esse olhar que encontramos neste livro tão especial e bonito, especialmente para quem gosta de fotografia e conhece bem a cidade. Encontramos tabacarias, mercearias, tabernas e tascas, bares, cabines telefónicas, reclamos luminosos e cinemas já desaparecidos, ilustres anónimos lado a lado com figuras do meio cultural lisboeta, sendo que todos escreveram a história de uma cidade que já não existe tal e qual como nos é apresentada nestas fotografias a preto e branco. Encontrei aqui a Lisboa da minha infância e gostei muito dos textos e poemas espalhados pelo livro. Recomendo sem reservas.
"É a partir do espaço íntimo entre a falibilidade da memória, o acaso do erro, e a beleza que pode surgir do encontro entre ambos, que se constrói este Lisboa Cliché. Um livro que retrata uma Lisboa que já não o é, porque desde que foram capturadas as fotografias que compõem este livro volveram cerca de quarenta anos, mas também uma Lisboa que já não o é porque o próprio autor já não é quem foi. Nele, grandes acontecimentos históricos, como o incêndio de 1988, servem apenas de cenário às inutilidades de cada dia - às madrugadas desperdiçadas a observar a neblina levantar-se das águas do rio Tejo, depois de noites “esbanjadas” em paixões intensas, por pessoas, histórias, lugares, poemas e coisas belas. Porque, afinal, “o que é a vida senão uma bela sucessão de dias inúteis” (Daniel Blaufuks in Lisboa Cliché)?"
não sei se são as fotografias de uma lisboa de outrora, se são os textos escritos pelo Blaufuks, ou se é a combinação de ambos. este livro é simplesmente lindo fez-me ter saudades de tempos que nunca vivi e deu-me vontade de registar aquilo que conheço hoje
Deu-me um agudo sentimento de nostalgia por algo que nunca vivi, cristalizado na incomparável simplicidade (e plenitude) silenciosa da fotografia a preto e branco.
E frases como estas, díspares mas no entanto unidas por extraírem tão bem o particular do universal:
'(...) o chofer de táxi contou-me que discutira com um asno e lhe dissera: "...V. que nesse tempo ainda andava a fugir de colhão para colhão do seu pai a ver se escapava a ser filho da puta..." E é isto: andam de colhão para colhão a ver se escapam - e muitos não escapam. E os outros não escapam aos que não escaparam' -Jorge de Sena, Lisboa 1971
'Pela madrugada, eu caminhava lentamente para casa, subia a Avenida, às vezes, se estava demasiado cansado, apanhava um autocarro ou mesmo um táxi, mais um dia perdido, mas tanta vida ganha' -do próprio Daniel Blaufuks
Uma brisa de ler/ver que quero guardar e proteger. Um fim de tarde aparentemente comum, mas que acaba por ser de alguma forma inimitável. Fotografias como resquícios fugazes pouco nítidos, a lembrar o lusco-fusco na raridade de um Verão de S. Martinho. Coisas que pertencem à memória. Beleza pessoal e (in)transmissível.
Um retrato fantástico de Lisboa, de um tempo anterior ao meu mas que parece que vivo enquanto leio este livro. As memórias apresentadas nas fotografias são contadas de uma forma rica e nítida pelo autor, que se nota que aproveitou muito bem a sua juventude em Lisboa. Um must read para quem adora esta cidade!
Óptimo do início ao fim. Pela escolha das fotografias quer pelas histórias que Blaufuks nos conta, mas principalmente pelas histórias que conseguimos imaginar directamente das fotografias. Talvez mais ainda quando nos lembramos também daqueles tempos da nossa Lisboa.
This is an absolutely lovely book of short essays and lovely photographs depicting life in Lisbon between about 1980-2000 with commentary on things that happened before and since. For anyone who loves Lisbon.
I absolutely fell in love with this book. The photography is breath-takingly beautiful and the memories, reflections and tributes to people gone, to a life gone, are moving.
4,7⭐️ Intensamente nostálgico, saudosista qb, repleto de registos de uma Lisboa que o foi, que não o é nunca mais. Um livro que se lê como um regresso a casa, feito de partidas e chegadas e de tempo capturado, preso, sem nunca o estar realmente.