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Mas em que mundo tu vive?

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Aqueles que se empolgaram com a narrativa de os supridores vão encontrar nas crônicas reunidas neste volume uma ampliação do universo do autor. Publicados originalmente na revista digital parêntese, os textos revisitam o gênero que é uma das tradições literárias brasileiras, mas trazem a contribuição única de seu autor: falam do cotidiano com lirismo e o olhar atilado de um observador da vida ao sul do país. Um retrato sem retoques da vida de trabalhadores da periferia.
Misturam ensaio e ficção, memorialismo e crítica ácida, para oferecer ao leitor um retrato sem retoques de jovens em busca de um rumo na vida.

300 pages, Kindle Edition

First published October 6, 2021

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About the author

José Falero

9 books56 followers

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3 (1%)
1 star
4 (1%)
Displaying 1 - 30 of 44 reviews
Profile Image for Gabriele.
175 reviews
January 13, 2022
É arriscado fazer a afirmação que vou fazer, mas existe uma possibilidade de eu ter gostado mais desse livro do que de Os Supridores. Arriscado porque "Os Supridores" é um grande livro. E "Mas em que mundo tu vive?" também é. Diferentemente do outro livro que eu li do autor, esse consiste em crônicas e, portanto, não-ficção. Sinto que aqui José Falero consegue abordar de forma mais direta questões que são trazidas no "Os Supridores" de forma mais literária, envoltas em uma narrativa. Aqui seguimos com discussões extremamente necessárias sobre a periferia, o papel da literatura, os movimentos sociais, desigualdade social, classe, raça, gênero e muitos outros temas. É um prazer ler José Falero e é um lembrete sempre do poder que a literatura carrega. E que esse poder deve ser cada vez mais acessível a todos e que as histórias de todos devem ser escritas, contadas e lidas.

As crônicas versam bastante sobre o cotidiano, mas é um cotidiano que raramente aparece na literatura. E que deveria tanto aparecer mais. É o retrato de um Brasil desigual, violento e real. E é nesse retrato da realidade como ela é que esse livro ganha poder. As críticas sociais, como descritas na orelha do livro, são ácidas e colocadas de forma cirúrgica. É uma leitura que fluí, mas que não atravessa o leitor sem deixar algo para trás. Algo para ser pensado. E é isso que torna esse livro tão incrível, é o fato de que ele não se encerra ao fechar a última página. Ele segue reverberando.
Profile Image for Lula.
21 reviews5 followers
December 27, 2022
Não canso de dizer o quão genial é José Falero. Devorei no começo do ano Os Supridores, no meio do ano Vila Sapo e agora no final do ano tive o prazer imenso de ouvi-lo narrar o audiolivro do Mas em que mundo tu vive. Nesta sequência, sinto que comecei com uma ficção bem conectada com a realidade, partindo pra contos que podem ou não ser fictícios para finalmente chegar, neste terceiro livro, à realidade nua e crua.

A leitura do Zé sobre a vida não deixa a perder para a leitura que faz seu ídolo, o melhor poeta do Brasil, Mano Brown. Qualquer pessoa que, como eu, cresceu com samba, futebol de várzea, periferia, Rap Nacional e umas pitadas de depressão e mente confusa vai provavelmente conseguir digerir bem essa obra. Obviamente passando por momentos de choro, momentos de reflexão e momentos de riso, mas em todos eles sentindo que cada palavra vem diretamente do coração e da mente do José Falero.

Literatura periférica marginal da melhor qualidade. No topo tal qual Ferrez, Eduardo Taddeo e Mano Brown. Você é foda, Zé.

Sempre que possível vou presentear pessoas queridas com sua "trilogia".

Obs: um dia quero ver o Zé jogando bola e depois tocando Fundo de Quintal no banjo numa roda de samba.
Profile Image for Gabriela Di Diego.
16 reviews1 follower
May 18, 2024
meu primeiro audiobook!!! começou superando todas as expectativas pois, alem de ser um livro foda pra caralho, que consegue equilibrar os tantos momentos tragicos com outros tantos engraçados, tem a narraçao do proprio falero. parecia q eu tava do lado dele tomando um latao enquanto ouvia as historias.
Profile Image for Felipe Beirigo.
216 reviews19 followers
October 30, 2021
é lokinho, tem altos e baixos. a melhor parte é que serve como engov de qualquer ressaca literária.
Profile Image for Luciana.
518 reviews163 followers
August 19, 2023
Composto por crônicas acerca do cotidiano da periferia, Falero escreve e transcreve para o papel uma realidade que já havia iniciado a nos contar em Os Supridores acerca do subemprego e as diversas explorações que muitos trabalhadores estão sujeitos, só que, diferentemente do romance citado, aqui há maior liberdade ao escritor para abordar uma gama maior de temas que sempre estiveram em sua vida, de maneira que com grande riqueza, aborda as temáticas ligadas à desigualdade social, a consciência de classe, a desesperança, a pobreza, a fome, os movimentos rociais e as questões de raça e gênero, todas elas vivenciadas em maior ou menor grau pelo escritor.

Trazendo a literatura periférica para um espectro maior, onde também é o seu local, dando luz à temas e a um povo marginalizado, Falero, tal qual Giovanni Martins narra sua vida, compondo, assim, histórias terrivelmente engraçadas como em 'Leite Derramado', outras sensíveis como em 'Quarentena', outras bonitas como em 'Linha de risco' e tantas outras reais como em 'Fome, Um país dividido em dois e A Faxineira'. Talvez, o melhor livro do escritor que li até o momento.
Profile Image for Suellen Rubira.
956 reviews89 followers
June 22, 2025
por trabalhar no local onde falero se criou, reconheço os trajetos que ele descreve e muito da vibe do pinheiro que ele descreve. de fato, é uma outra vida, outra cidade. as crônicas escancaram as desigualdades que muitas pessoas nas periferias enfrentam diariamente e o quão pouco a gente resolve o problema usando nossa ecobag e indo na feira do bom fim ou dizendo fuck nazis como se isso fosse realmente entender os problemas estruturais. uma crônica do livro toca nesse ponto e obviamente as palavras do falero traduziram muito esse sentimento.
Profile Image for Vanessa Flores.
12 reviews1 follower
September 1, 2025
Aqui ele trouxe canetada atrás de canetada! Gênio! Inteligente! Especial! Tive muitas vezes vontade de chorar pensando que poderíamos não ter a chance de ter conhecido José Faleiro se não fosse o esforço árduo dele em publicar seus textos no Facebook e ter acreditado no seu trabalho com tantas adversidades. Zé é um escritor cheio de revolta, mas de extrema bondade.
Profile Image for Bea.
27 reviews1 follower
September 13, 2024
foi bem gostosinho de ler
perspectiva da periferia de porto alegre 🫡
Profile Image for Raphael Donaire.
Author 2 books37 followers
September 7, 2025
A literatura é uma forma de acessarmos outros mundos por meio das palavras. Em "Mas em que mundo tu vive?", José Falero nos transporta para uma realidade que, muitas vezes ignorada pelas narrativas dominantes, é na prática o verdadeiro centro do Brasil: a periferia.

Com uma sensibilidade que só quem pisa o chão da quebrada pode ter, Falero transforma cada crônica em um colírio para os nossos olhos muitas vezes condicionados a enxergar o mundo a partir do privilégio. Sua escrita é profundamente humana e nos obriga a pausar, escutar e repensar o que tomamos como certo.

Ler esse livro é mergulhar, de forma concreta, nas camadas mais profundas dos nossos problemas estruturais. É um chamado para silenciar os discursos superficiais do tipo “o sol nasceu para todos” e reconhecer que há quem viva sob sombra o tempo todo, com a desesperança sendo alimentada por um sistema que insiste em apagar, calar, excluir.

Zé, obrigado por abrir a porta da tua vida e mostrar que literatura é, antes de tudo, aquilo que toca, que transforma. A tua escrita, assim como a de tanta(o)s artistas que nascem da rua e não do privilégio intelectual-social, nos convida a manter o olhar, o coração e a mente atentos para o presente, com coragem de encarar o mundo como ele realmente é e a lutar para que as pessoas possam ser além da fome.
Profile Image for Eduardo Peretto Scapini.
202 reviews4 followers
January 16, 2024
Cada vez mais apaixonado pela literatura de José Falero. É com raridade que a gente encontra livros que nos fazem questionar cada ação que temos ou como o nosso lugar é privilegiado MESMO! Não quero fazer o papel de alguém que “uau está descobrindo a desigualdade”, mas bate muito diferente quando tu reconhece os caminhos e os lugares que o autor tá apresentando, e pensa sobre cada pessoa que já cruzou em um ônibus ou embaixo do viaduto da borges e se dá conta que pode ser mais um José. Poder ter essa perspectiva realista sobre Porto Alegre é algo que eu gosto demais, pois quando leio sobre São Paulo ou o Rio, tudo parece tão distante, violento, megalomaníaco, que voltar para onde caminho sempre vai ser mais recompensador, pois os dilemas daqui são os dilemas daqui. Desse modo, na minha outra incursão parecida, que tinha sido com o livro da Bensimon, sinto que ela parte de um lugar muito parecido com o meu, de pessoa branca com alguma grana numa capital marcada pelo racismo e pela segregação, não é bobagem quando me entendo naquele personagem que José critica“o branquelo da cidade baixa” pois é literalmente quem eu sou. Enfim, no que se refere a ambientação esse livro é gabaritadíssimo, e eu só tenho vontade de empurrá-lo pra todo branquelo da região central que eu conheço, a gente realmente não enxerga essas barreiras físicas e sociais que são tão evidentes pro pessoal que não goza de tanto privilégios quando os nossos.

Além disso, existe uma verdade na voz de Falero, uma verossimilhança na sua escrita que me transportam diretamente a situação, conseguindo imaginar tudo como se fosse um filme, e isso é uma qualidade que já via nos Supridores e aqui parece ainda mais exacerbada, pois ele está falando da própria vida (suponho logicamente). Dessa forma, a apresentação de seu cotidiano alternando entre diferentes pontos da capital foi tão imersivo que eu não conseguia largar ele toda vez que pegava pra ler (acabava sempre sendo interrompido infelizmente), mas se qualquer modo é um livro que tem uma capacidade de fixação superior ainda a Tudo é Rio pra mim (que tava estalando de tão fitado que eu tava no livro). De mesma maneira, eu achei absurda como José sabe meter a faca onde mais dói, com sua apresentação de contrastes com aquelas pessoas que vivem nas regiões centrais e tem tudo do bem, exibindo as inacessibilidades que estiveram em toda sua vida, as quais nos fazem parecer um milagre que mesmo após tanto infortúnio ele tenha conseguido galgar o lugar em que está, e dessa forma, pensar sobre todos aqueles que ficaram no caminho, e não puderam ter o prazer de ler o próprio amigo.

Enfim, sob meu ponto de vista, acho que em conjunto com Tenório, Carvalho e Bensimon, Faleiro é um dos melhores autores que a literatura gaúcha teve o prazer de me apresentar, e já estou SECO pra poder ler o Vila Sapo (sei na minha cabeça que vai ser um 5 desde já). Leiam, leiam e leiam.
Profile Image for Cadu Brancher.
10 reviews
December 30, 2024
"Levei muito tempo, precisei experimentar bastante coisa, pra descobrir que o que eu queria fazer da vida era realmente escrever. E, de fato, o mundo parece que entrou numa espécie de tentativa fanática pra me fazer desistir. Era como se a razão de ser de cada grão de areia do universo, de cada canto de pássaro, de cada nuvem no céu, de cada dente de cada boca, era como se a razão de ser de tudo isso e de todas as outras coisas fosse unicamente me fazer desistir e me adequar ao modelo de 'gente normal". Conciliar os subempregos com a escrita foi um inferno. Aturar os amigos, familiares me ridicularizando pelas costas pelas frentes foi e ainda pior. Mas pior mesmo, pior de tudo, tava dentro de mim. Eram os meus demônios. Eu olhava pra frente e não via perspectiva alguma de ser chamado de "escritor" por alguém,
muito menos de publicar qualquer coisa um dia. Isso era terrível. Isso me levava a beira da loucura. As madrugadas sabem o quanto derramei de lagrimas pensando nisso. Pra mim, essa coisa que chamam "vida" só fazia sentido se eu pudesse escrever. Do meu ponto de vista, a vida servia era pra isso: pra poder escrever. Era a serventia da vida. Tem coisas que a gente faz
pra poder viver, mas a gente também precisa viver por algum motivo e não apenas pelo medo da morte. E eu, pra viver, vestía uniformes amarrota dos e empunhava pás, mas, se vivia, era
unica e exclusivamente pela esperança de um dia poder ficar nu e empunhar a caneta. Eu precisava dessa esperança. E nas vezes em que duvidei, nas vezes em que não confiei em mim mesmo, nas vezes em que a fome me torturou, nas vezes em que senti esperança minguar, nas vezes em que me senti culpado tive ódio de mim mesmo por desejar o impossível, ninguém sabe que sofri, e ninguém nunca vai saber. Nenhum
outro sofrimento foi tào brutal e devastador."
Profile Image for Marcus Gasques.
Author 9 books15 followers
March 4, 2025
Como no romance "A cidade e a cidade", de China Mieville, não apenas em São Paulo, em Porto Alegre e em outras cidades, mas no Brasil inteiro, coexistem cenários, mundos, até universos e culturas diferentes. Isso é muito bom, é diversidade. O problema é o abismo social que também divide esses mundos. Muito pior — de novo citando o autor inglês — é o fato de a parte mais bem provida da população "desver" os que, ao longo de gerações, lutam para romper uma condição historicamente injusta.
José Falero, furou essa bolha através da literatura. Essas 62 crônicas, aqui narradas pela voz do próprio autor gaúcho, fazem um retrato da condição de vida (ou sobrevivência?) na periferia da capital do Rio Grande do Sul. O cotidiano de quem muitas vezes não tem o dinheiro para pagar o bonde (ônibus), caminha no fio da navalha configurado no terror de ser abordado pela polícia (violenta como regra) ou confundido com outra pessoa e sumariamente executado por criminosos.
É uma realidade que apenas um José Falero, um Geovani Martins, o slam das periferias ou um Oswaldo de Camargo revelam. E que deliciosa supresa ouvir o nome do poeta amigo citado em uma das crônicas.
Só tristeza? Não, Falero descreve também como se apaixonou pela literatura, dá-nos uma aula sobre lançamentos em profundidade, empenha-se em salvar um rato que se afoga ou alimentar um cão faminto e faz rir muito em alguns episódios.
Já havia gostado muito de "Os Supridores", e recomendo muito a leitura — ou audição — de "Mas em que mundo tu vive?"
Profile Image for claraaa.
33 reviews
May 10, 2024
Não que eu esteja alheia à pobreza e à invisibilidade social existe na minha cidade, mas ouvir os relatos do cotidiano do autor presentes nesse livro foi uma patada no estômago. Não irei desenvolver, tem que ler.

Gostei muito desse livro pois é ambientado na minha cidade por um conterrâneo e, em muitos momentos, certos lugares que eu passo ou já passei foram mencionados. Não lembro de ler algo que eu pudesse me relacionar tanto com o ambiente. Ou com certas experiências. Não me recordo em que capítulo foi isso mas o autor narra sobre desviar dos T8 na lomba do campus do vale ou algo assim e cara eu já passei por isso!! Foi uma loucura perceber que a teoria de que nenhuma experiência é individual é real jsfjsmdk. Mas é, adorei o livro por ser daqui, mesmo que grande parte do livro se passe por bairros que não frequento muito.

Dito isso, eu li o audiobook que foi narrado pelo próprio autor!! Sem dúvida foi muito melhor “ler”assim, até porque parece que tu tá conversando com o escritor e ele vai te contando as coisas, em vez de ser um livro de crônicas que eu provavelmente rotularia de monótono. Deu luz ao personagem narrador-autor. (sim primeira vez escutando audiobook kkkk)

Nota 5/5 estrelas must read gurizada
Profile Image for Henrique.
1,033 reviews29 followers
October 8, 2025
José Falero escreveu um dos melhores livros de crônicas do século 21.

Ponto.

É preciso deixar evidente, desde o início, a importância de “Mas em que mundo tu vive?” (Todavia, 2021), um livro que dificilmente você verá ser citado por aí, mesmo por quem gosta de crônica. Apesar de não ter ganhado o Jabuti, ele se sobressai sobre quase todos os que ganharam, e certamente vai ter uma sobrevida maior que eles. É porque raramente aparece um livro de sensibilidade social tão aguçada.

Já foi comentado outras vezes: há uma tendência de aburguesamento do cronista. Grande parte dos cronistas mais bem-sucedidos da atualidade exala bem-estar e nunca precisou sequer andar em ônibus lotado no final do expediente. Nota-se que o olhar que lançam ao mundo, por mais interessante e bem descrito que possa ser, parte de um lugar privilegiado, distanciado do que é ser “o povo” no Brasil atual.

Sempre se destaca o que existe de “brasileiro” na crônica, a ponto de muita gente sustentar que se trata de um gênero genuinamente nacional. Por mais questionável que essa teoria possa ser, parece inegável que qualquer brasilidade da crônica deve passar pelas camadas mais pobres da população. E, contudo, com frequência não passa. É preciso um José Falero para que a crônica se aproxime do que é brasileiro.

Logo de início, o cronista nos apresenta relatos da dura vida operária, a vida em que se anda de subemprego em subemprego, por pura falta de opção. É uma realidade a que está sujeita uma porcentagem enorme dos brasileiros, mas dificilmente isso se transforma em crônica, muito menos em crônica escrita em primeira pessoa. O testemunho de Falero passa credibilidade, e mais, gera a identificação do povo.

“Nossos interesses nunca serão defendidos por aqueles que não experimentaram as nossas dores”, constata o cronista à certa altura. Aos que tiveram a sorte de não passar por semelhantes dramas, a leitura das crônicas de Falero pode servir como uma espécie de aula, para que se conheça em profundidade como é a vida em um país que já estava dividido muito antes de estabelecer uma bipolaridade partidária.

Naturalmente, esse processo pode não ser confortável, pois Falero, simplesmente ao contar sua trajetória de vida, escancara muitas das justiças nas quais se assenta a sociedade brasileira. O que ele oferece não é a crônica leve, que fala de pássaros e borboletas: ali, é mais comum que apareçam os ratos. E nem se diga que por isso elas seriam menos crônicas, pois continuam muito féis ao registro da sua época.

Há um modelo mais ou menos hegemônico de se fazer crônica, talvez o único que a crítica literária admita (mesmo assim, com ressalvas). É o texto que trata de um fato banal do cotidiano e o aborda de forma leve e descompromissada, com algum acento lírico e sem gerar no leitor nenhum tipo de sobressalto. Algumas das melhores páginas da crônica têm essas características. Mas a crônica é mais.

A crônica é, invariavelmente, o testemunho do seu autor sobre a época em que vive. Esse testemunho pode ser feito de diferentes maneiras, mas uma delas certamente é a denúncia social. Pode-se citar um Lima Barreto, cronista que sempre escreveu na perspectiva dos marginalizados, mas houve outros, entre eles o esquecido José do Patrocínio Filho, Não à toa, Barreto, Patrocínio e Falero são todos negros.

Ao fazer da crônica um espaço de denúncia social, evidentemente não se espera do autor o tom descompromissado geralmente atribuído ao gênero. Ele passa a ser figura ativa naquilo que narra e, por isso, pessoalmente engajado. Isso não significa que a crônica terá a densidade de um artigo, mas que haverá um posicionamento bem definido na condução das narrativas, idealmente até convencendo o leitor.

O leitor, aliás, experimenta por meio dessas crônicas um diálogo ativo, permitindo a ele refletir sobre questões centrais nas dinâmicas sociais da atualidade. Não se diga também que, com isso, perde-se de vista a dimensão literária. Seria possível associar seu trabalho a nomes como Salinger, Bukowski (sem a misoginia), Knut Hamsun e outros que trabalharam literariamente a pobreza, inclusive a própria.

Todos esses autores, aliás, destacam-se por uma linguagem bastante direta, atenta às marcas de oralidade e perfeitamente adequada aos seus personagens. Falero, do mesmo modo, promove um trabalho excepcional com a linguagem. Ele escreve de forma muito próxima à fala, por vezes inclusive nas concordâncias, e nada disso é descuido, é simplesmente a fala mais natural para apresentar aquela realidade.

Transpor a linguagem oral para a escrita, ao contrário do que possa parecer, não é uma tarefa tão simples, pois exige muita habilidade do escritor para garantir ritmo e fidelidade a um só tempo. Falero faz isso muito bem. Há casos em que o cronista faz abertamente experimentações de linguagem, mas ela nunca é aleatória, está sempre a serviço de uma causa social e expõe um drama ao qual ele está ligado.

Há uma dimensão ensaística que às vezes se sobrepõe, como quando o cronista fala do sorriso, mas também isso nunca é dissociado de um aspecto social maior. Ele também rememora o passado, mas sem o saudosismo do cronista “burguês”, porque, quando fala de sua infância e adolescência, é para mostrar a guerra no seu dia a dia, e não para evocar um tempo quase mágico que se perdeu no tempo.

E como ele é tocante quando fala de seus dramas internos na juventude! Também fala da sua relação com a música, da presença do samba ao longo de sua vida. Do movimento de conhecer e reconhecer cada vez mais a sua negritude. Da relação com a poesia de Mano Brown, alçado ao status de poeta maior, mesmo que os ditos eruditos nunca reconheçam. No fim, a sua crônica também é uma espécie de rap.

Se fosse para recomendar uma única crônica desse livro, talvez fosse a segunda, “Uma vitória da tua gente”, porque expõe com uma dor quase palpável o drama da pobreza extrema e a indiferença do mundo. Mas o ideal não é ficar em uma crônica só. O ideal é ler o livro todo e sair recomendando a toda pessoa que encontrar pela frente. Esse livro é grande. Esse livro vai permanecer. E ele é da nossa gente.
Profile Image for Novalee.
23 reviews
September 24, 2025
"Mas ultimamente tenho pensado comigo mesmo que talvez não faça muito sentido falar em "resistência". A resistência é deles. A resistência é de quem não quer perder os privilégios e o protagonismo. A resistência pertence a quem não consegue engolir a amplitude e a profundidade que o conhecimento a reflexão e os debates têm tomado no seio do povo brasileiro..."

Cara que ódio, eu simplesmente amei esse livro

Falero consegue falar de temas pouco mencionados enquanto se comunica com o leitor quase como um amigo, ao jogar luz nas entranhas da exclusão social brasileira.

"Procurei aquele homem. Ignorei o fato de que procurá-lo pareceria uma esquisitice de qualquer ângulo possível e o procurei.
Procurei-o porque ele era a pessoa mais infeliz que eu conhecia.
Procurei-o porque ele não teria moral para rir da minha desgraça.
Procurei-o porque ele não teria conselhos a me oferecer. Procurei-
o porque queria saber como se fazia para não se fazer mais nada.
Procurei-o com a intenção de morar com ele. Para sempre."
Profile Image for Vicente Laura.
30 reviews
October 21, 2025
5.0
Li este livro por ser uma leitura obrigatória do vestibular da UFRGS e sendo sincera, não me arrependo em nenhum momento.
É insano a genialidade do José falero, como ele consegue nos prender facilmente em um conto. Várias vezes me emocionei por serem tão sensíveis e sinceras com a realidade que muitos e inclusive eu vivemos. É muito incrível de ver como José é introduzido a cultura brasileira e como nos seus livros gosta sempre de reforçar ela, já que muitas vezes a nossa cultura não é citada na literatura.
Dei boas risadas e me surpreendi algumas vezes, esse livro para mim é um mix de sentimentos.
Sinceramente, não tenho mais palavras para descrever este livro mas toda vez que eu penso nele eu lembro da emoção que foi ler estas páginas.
Todo mundo deveria ler José Falero.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Rodolfo Carvalho .
3 reviews
January 25, 2023
Um livro de crônicas que se transforma em uma quase autobiografia desse gênio que é José Falero.

É impressionante a forma como esse livro muda quem você é. Gostaria de saber se outros leitores também sentiram que mudaram após a leitura desse livro. Qualquer fato do cotidiano agora vira motivo para reflexão. Diante de um fato comum do dia a dia, que antes passaria despercebido, agora me pego pensando: como Falero escreveria sobre isso? Ou mais, como posso também escrever como ele?

Afinal, o que do livro nos apresenta é isso, a possibilidade de sermos todos nós escritores, assim como as crônicas de José nos mostraram que é possível.
Profile Image for Luiz.
163 reviews7 followers
July 15, 2024
O Brasil tem uma longa tradição em crônicas, e o Rio Grande do Sul também. No entanto, é a primeira vez que reconheço um Rio Grande do Sul real, em linguagem e temática, com voz nesse gênero.

Sabe Martha Medeiros e Carpinejar? Não tem nada a ver com essas merdas. É boa literatura!

Falero reflete a realidade de um Rio Grande do Sul que muitos não conhecem e outros preferem ignorar. Sem falsa autoindulgência, sem querer agradar ninguém, sem comprometer sua arte e, principalmente, fazendo literatura de qualidade, com perceptível cuidado ético e estético em sua escrita.

É uma mistura de Lupcínio Rodrigues com Racionais MC's, e gaúcho, falando a nossa língua.

Profile Image for elli elli.
278 reviews3 followers
July 24, 2024
Eu comecei esse livro com a expectativa de que não gostaria. Não é um tipo de leitura que eu estou acostumada. Mas toda e qualquer expectativa que eu tinha foi quebrada e reconstruida de uma forma que eu não imaginava. É um livro absurdamente bom, com crônicas de uma sensibilidade tão bonita, tão delicada e tão difícil de se capturar...Fiquei abismada enquanto lia. José Falero é um talento raro, com escrita simples mas com uma habilidade belíssima de descrever a vida, a vida pobre e real, com uma humanidade crua e muito, muito preciosa. Me sinto sortuda de ter sido levada a ler esse livro. Leiam, vale a pena.
Profile Image for Larissa Tabosa.
793 reviews1 follower
April 14, 2025
Mas em que mundo do tu vive de José Falero é um livro que provoca e faz pensar. Com suas crônicas, o autor nos dá um ?tabefe?, muito bem dado, que nos faz refletir sobre a falta de empatia no nosso dia a dia.

A escrita de Falero é direta e crítica, mostrando como às vezes não conseguimos nos colocar no lugar do outro. Ele expõe a realidade de uma empatia rara, frequentemente limitada ao nosso círculo imediato.

Ao final da leitura, fica a sensação de que a obra não apenas nos provoca, mas também nos desafia a buscar uma mudança, a olhar o mundo com mais humanidade e a nos colocar no lugar do outro.
Profile Image for Lud Oliveira.
471 reviews8 followers
September 29, 2024
Gostei de conhecer um pouco mais do autor. Nessas crônicas, ele nos fala muito mais de sua vida, então a gente se sente mais próximo dele. Algumas crônicas são um tapa na cara, pelo choque de realidades que muitos leitores não estão acostumados, Mas acho importante justamente por isso, pra percebemos como as diferenças são bem maiores do que a gente imagina (e não sair por aí falando baboseira de meritocracia e tal). A escrita do autor é muito fluida, me prendeu desde o começo.
Profile Image for Bruna Demichei.
115 reviews
February 10, 2025
depois do vestibular da UFRGS, esse livro simplesmente tinha ficado esquecido na minha gaveta ( que baita erro, por sinal).

muito bom! livro que mostra a realidade do que é morar em porto alegre.

quase chorei no final do livro, quando ele conta a relação que o centro tem com o pai dele, porque sinto exatamente a mesma coisa! aquele zaffari da fernando machado eu também frequento só com o meu pai
Profile Image for Jeff.
3 reviews
May 2, 2024
Que livro. Eu já tinha amado Os Supridores e Vila Sapo, mas o Mas em que Mundo Ztu Vive? Pra mim, é sem sombra de dúvidas o melhor do Falero. A cada crônica, risada e choque de realidade, parecia que alguém me dava uma enxadada no peito e arrancava um pedaço de mim.

Pode parece exagero, mas definitivamente não término esse livro sendo a mesma pessoa que começou ele.
Profile Image for Eduardo Castro.
10 reviews
February 7, 2023
Muito bom, fundamental nos dias de hoje.Eu gostei mais do Supridores mas são livros diferentes. Nesse consegue-se perceber toda a realidade e formação do autor que escreveu os supridores. Pitadas duras de realidade fora da bolha.
Profile Image for Larissa Granato.
565 reviews38 followers
November 30, 2023
Quero continuar ouvindo tudo que o José Falero tem pra dizer. Algumas das minhas crônicas preferidas: Uma vitória da tua gente, Boas festas, Alegria, Ateu, graças a Deus, Anseio e glória, Entre as tripas e a razão, Uma derrota no cais Mauá.
13 reviews
January 20, 2022
Crônicas incríveis, um soco no estômago e ao mesmo tempo algumas com um humor saudável e gostoso!
Profile Image for Paula.
246 reviews6 followers
April 15, 2023
Para levar uns cutucos. (mas crônicas, definitivamente, não são o meu gênero preferido.)
Displaying 1 - 30 of 44 reviews

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