1 - "Não tem wi-fi no espaço" (de G.G. Diniz)
Avaliação: 4 estrelas
O quilombo Bom Jardim decidiu finalmente deixar o planeta Terra. Depois de anos e anos de abuso dos governos de todo o tipo, os quilombolas conseguiram construir uma estação espacial a partir do lixo deixado pela empresa aeroespacial que transformou toda a região em que eles vivem em um enorme lixão. Com o esforço de Marisa e a inteligência de sua filha Luana o projeto está quase finalizado. Mas, isso incomodou o empresário que percebeu que um grupo de negros quilombolas morando em um lixão poderão terminar uma estação espacial autossuficiente antes da poderosa e milionária empresa. É a partir deste momento que inicia uma tensa situação em que a empresa usa todo o seu poder financeiro para atrapalhar a vida dos quilombolas e, quem sabe, destruir tudo aquilo que eles levaram anos para construir. Mas, Marisa e Luana não estão mais com vontade de deixar as coisas serem ditadas pelo poder da opressão. Elas irão unir suas vontades para buscar uma solução para esse problema. E quem sabe sonhar com um lugar onde o seu povo pode finalmente ser livre.
Uma bela maneira de começar essa coletânea afrofuturista. Começar com uma história que lida com luta e esperança de um futuro melhor. Aqui vemos o quanto o preconceito étnico e social se manifesta através de um sistema econômico que só vai privilegiar aquele que tiver o poder do capital. É uma história de resistência, de luta contra o opressor usando todos os meios possíveis. A gente percebe na história o quanto os governantes e o poder público é passivo diante dos grandes empresários. Estes que fazem o que querem aonde querem e como querem. Usaram toda a região nordeste do Brasil, na história, como um lixão, despejando aquilo que eles não mais precisavam. Quando alguém decidiu empregar aquilo que foi descartado para uma causa e criou uma tecnologia ou um recurso inesperado, isso incomoda; faz com que aqueles com mais recursos se lembrem de que a ciência é algo que pode ser utilizada por quem tiver criatividade para algo inventivo.
A luta de Marisa e Luana vai se centrar em esforços não apenas no local, contando com a ajuda de toda a comunidade, mas também através da internet. É nas redes que, através da conscientização, quem sabe é possível gerar mudanças. Nem sempre através dos meios oficiais, porque sabemos o quanto a população pode ser alienada. Mas, se devidamente provocada, se mostrarmos fatos irrefutáveis, é possível criar uma brecha. Além disso, a ajuda pode vir de lugares bastante inesperados. A leitura deste conto é muito boa. A história flui muito bem e quando vamos nos dar conta, ela já acabou. Ótima maneira de iniciar nossa jornada.
3 - "Sexta dimensão" (de Stefano Volp)
Avaliação: 4 estrelas
Alfredo é um robô humanoide habitando um mundo onde os seres humanos estão desaparecendo, fruto de suas próprias falhas e guerras. Sua programação o permite ser quase um ser humano completo, sendo ele um humanoide negro, embora pertencendo a um modelo antigo, detentor de sentimentos e desejos. Um dia ele recebe uma estranha mensagem que o pede para comparecer a um encontro com uma pessoa que revela ser um ser humano. Um encontro proibido pelo policiamento desse mundo e que vai revelar a Alfredo detalhes que ele desconhecia de sua vida e seu envolvido com Salomão, a pessoa que entrou em contato com ele.
Essa é uma história poderosa sobre amor, perseguição e família. Uma linda história entre duas pessoas que se amam e cuja ligação consegue atravessar inúmeras dimensões. Stefano Volp consegue trazer, na dose certa, questões da temática LGBT e da população negra para uma história que nem precisa entregar muito sobre o que se situa ao seu redor. Ao se focar em um momento da vida destes dois personagens, na urgência daquele encontra e em tudo o que estava em jogo, o autor conseguiu ser sintético e romântico, sem ser piegas. Adorei como ele usou o elemento da ficção científica para dar mais poder àquilo que ele escrevia em suas linhas. Sem contar no fato de como ele foi capaz de desenvolver bem dois personagens em um espaço tão curto de páginas.
Não tenho muito o que falar sobre os temas porque a história é curtinha e merece ser apreciada em seu todo. Não quero estragar as surpresas trazidas pelo autor. Só ficam os meus elogios a uma boa escrita, a um competente desenvolvimento de personagens e à maneira como ele impôs um senso de urgência na trama.
4 - "Jogo fora de casa" (de Sérgio Motta)
Avaliação: 4 estrelas
Somos apresentados ao Casa Futebol Clube, um pequeno clube de futsol da periferia. Futsol é uma variante do futebol de linha só que sem goleiro, com gol pequeno e sem saídas de bola. E pode ser jogado em lugares com gravidade inferior. Só que o time não possui apoio de patrocinadores e muito menos um campo onde possam treinar. Os membros do time vieram das mais diversas origens e todos tem em comum as dificuldades pelas quais passam na vida. O último campeonato foi o melhor do time em que ele desbancou os grandes do campeonato local, mas as dificuldades para voos mais altos são muito elevadas e eles não possuem sequer dinheiro para o transporte do time para as diferentes sedes onde os jogos acontecem. Para o treinador, o limite chegou e ele recebeu uma proposta para treinar um time grande e provavelmente irá aceitar. Dona Odete, uma das benfeitoras do time, pede ao treinador a oportunidade para um último jogos, contra o Pebas F.C., um time formado por marcianos e considerado o melhor do sistema solar. Nesse último jogo, sentimentos e desejos se mesclarão para um momento de muita emoção.
Gostei bastante da escrita do Sérgio Motta. Ele conseguiu traduzir muito bem o espírito dos jogos de futebol para dentro das linhas de uma história. Temos dois momentos bem claros na escrita: uma que apresenta as dificuldades pelas quais o time e os membros dela passam no cotidiano e um segundo momento que engloba o próprio jogo. No primeiro momento temos uma apresentação do cenário e do pano de fundo que cerca estes momentos finais. É curioso porque eu tive a impressão de estar revisitando um documentário muito legal que assisti no ano passado, o The Last Ride, que mostra a história da última temporada vivida por Michael Jordan, lendário jogador de basquete do Chicago Bulls. Toda aquela narrativa com os bastidores, as dificuldades e qual a importância de cada membro da equipe para o funcionamento do todo. O segundo momento é a tradução da própria partida de uma forma compreensível para o leitor. E isso não é uma tarefa simples. Pensem que o futebol é um jogo dinâmico e hoje estamos acostumados ao recurso audiovisual. Mas, a narrativa do Sérgio me fez lembrar da época das narrações de rádio quando precisávamos imaginar o que estava acontecendo através da linguagem empregada pelos locutores. E é essa sensação que este ponto da narrativa me passa. Em nenhum momento o jogo fica chato ou enfadonho.
A história repassa bem as dificuldades que cercam os times mais pobres espalhados pelo Brasil. Sérgio brinca com a ficção científica, mas pensem que tudo aquilo pelo qual os jogadores passam é a realidade em comunidades mais pobres. Pode ser o professor humilde e talentoso que se esforça ao máximo para despertar o real potencial de seus pupilos. Só que chega a hora em que ele fica na dúvida se deve ou não realizar sonhos mais altos. Ou os alunos que tem muita dificuldade para pensar em seus futuros. Seja aquele que deseja alcançar o distante sonho da universidade para uma vida melhor; ou aquele que apenas quer ajudar os seus pais e viver uma vida honesta. Tem aqueles que procuram ajudar em casa vendendo produtos no trem ou em coletivos. Ou o time pequeno que vê todos os seus esforços se esvaírem sem um apoio. Esse tipo de dificuldade é tão comum que chega a doer. Recomendo aos leitores que deem uma atenção especial a essa história.
5 - "Recomeço" (de Kelly Nascimento)
Avaliação: 5 estrelas
Helena acabou de ter uma perda enorme. Passado mais de sete meses da perda de seu amado Alexandre, ela precisa lidar com a realidade de que não adianta mais ficar de luto. Sendo uma médica e tendo uma certa imunidade à epidemia que tomou conta do planeta, ela é necessária nas linhas de frente. Mas, ir até o hospital dói demais. Tudo lembra aquele que a deixou, vítima desta mesma doença terrível, que mata em uma velocidade incrível. Enquanto procura seguir em frente, ela é assolada por todos aqueles que chegam todos os dias para ocupar os leitos do hospital. E os bravos guerreiros médicos estão caindo um por um. Neste emocionante conto, Helena precisa lidar com a dor de sua perda enquanto cuida de várias pessoas em turnos que parecem intermináveis. Mas, no meio de tudo isso, visões de seu falecido amor aparecem por toda a parte chamando-a. Será que ela está sendo vítima desta mesma doença em alguma estranha mutação do vírus ou tudo não passa de seu corpo caindo vítima de sua tristeza?
Que história linda! Pode parecer piegas essa velha temática do amor capaz de vencer o tempo e o espaço, mas tudo depende da forma como o autor está contando a história. E Kelly faz isso de forma magistral ao nos apresentar a ligação que existe entre duas pessoas. Curiosamente não sabemos tanto sobre Alexandre, e ela se foca mais nos breves momentos de afeto e intimidade entre os dois personagens. A narrativa é em uma pseudo-primeira pessoa em que a protagonista se refere a nós como sendo Alexandre. Quase como se ela "quebrasse a quarta parede", mas não chega a ser isso. Quando perdemos uma pessoa querida, vítima de alguma tragédia, existe uma profunda dificuldade para seguir em frente. É como se o relógio parasse e permanecêssemos em um mesmo momento, revivendo todos os bons momentos e os últimos que passamos com nossos amados. É isso o que Helena está passando, porque seu coração se fragmentou em diversos pedaços. Ela tenta seguir em frente na marra, com a emergência que se interpõe em sua frente. Só que falta alguma coisa a ser resolvida. Falta aquele momento-chave e definidor que a faça tocar finalmente a vida.
A história consegue nos passar bem a imagem dos momentos da pandemia. Principalmente nos meses iniciais, quando não entendíamos nada sobre a doença, como ela se transmitia, como evitar, como encontrar alguma cura. O nível de confusão e desespero era patente e os hospitais enchiam de pessoas ao mesmo tempo em que os médicos plantonistas caíam vítimas do cansaço ou da própria doença que eles tentavam tratar em seus pacientes. A associação é bem óbvia e a autora consegue entregar isso sem dizer muito. Apenas apresentando todo um cenário de destruição e incompreensão no hospital. Os médicos lutam diariamente para reduzir o nível de mortalidades, mas sem as ferramentas certas tudo o que eles conseguem fazer é evitar uma dor maior. Esse desespero está presente ao longo de toda a história equilibrada por uma história de amor emocionante. É como se a própria narrativa de Helena e Alexandre servisse para amenizar o impacto da trama impulsionada por essa pandemia.
Vou mencionar brevemente a incrível virada narrativa que acontece no final da história. Nos fornece aquela sensação de ter sofrido uma rasteira, e das boas, da autora. Mas, é muito legal ver aquele breve momento no final e nos deixa com uma pergunta na mente. Aquela velha questão de o que aconteceu foi real ou apenas fruto da imaginação. Cada um de nós vai oferecer uma explicação. Um dos melhores contos (se não for o melhor) desta coletânea.
7 - "Tudo o que transporta o ar" (de Pétala e Isa Souza)
Avaliação: 4 estrelas
Yagazi faz parte de um grupo de irawó que estão deixando o planeta Gaada e voltando à sua terra original, Terrasul. Um povo que permaneceu muitos ciclos longe de seu verdadeiro lar e acabou formando uma cultura específica. Contado através de entradas de um diário de bordo, Yagazi fala sobre a longa viagem de retorno, suas esperanças, anseios e expectativas. Junto deles está Griô, uma Inteligência Artificial que tem a responsabilidade de registrar a história dos irawós, seus hábitos, costumes e tradições. Durante a jornada, conhecemos um pouco de como eles foram parar em Gaada, o que significou o tempo lá. Mas, o que os espera em seu retorno? Serão eles bem recebidos? O desconhecido pode ser um sentimento muito forte e Yagazi revê ao lado de alguns de seus companheiros que decisões importantes se tornarão necessárias para uma vida melhor.
Essa é uma bela história que lida com a questão diaspórica. Vários povos já passaram por esse momento de exílio e depois o retorno. Podemos falar dos povos africanos (que é o tema central dessa coletânea), mas é possível pensar em judeus, curdos e alguns outros que passaram por esse trauma. A importância de manter viva a sua cultura vai se tornando mais e mais urgente com o passar das gerações. Todas ganham espaço para evitarem ser esquecidas. E um grande dilema é como fazer as futuras gerações se importarem com traços da sua identidade. Foi inteligente da parte das autoras usar a figura do Griô, que é uma figura existente nos grupos sociais africanos tradicionais. Geralmente é o mais velho e mais experiente e tem essa função de registro histórico. Enxergar o retorno daqueles que precisaram abandonar seu lar um dia é um tema interessante e vi poucas vezes sendo abordado na literatura de gênero. Gostei de como as autoras nos apresentaram os medos e esperanças, e esses sentimentos acabam nos arrepiando de alguma forma. Vou usar aquela expressão clichê do "não é o meu lugar de fala" (e não é mesmo), mas esse tipo de dilema parece simples a alguém desavisado, mas é uma situação que abala o imaginário social e as esperanças daqueles que estão retornando. Talvez a perspectiva de chegar à sua terra natal e encontrar algo diferente demais do que imaginavam seja algo assustador.
8 - "Com o tempo em volta do pescoço" (de Waldson Souza)
Avaliação: 4 estrelas
A família de Jamila vive em um futuro tenebroso, marcado por um governo altamente controlador. Tudo desandou após a morte de um presidente há muitos anos atrás quando a sociedade entrou em polvorosa e passou a perseguir com mais intensidade a população negra e os mais empobrecidos. Isso levou à criação de um dispositivo terrível no formato de um colar que quando a pessoa entra na região de Nova Brasília para trabalhar ativa um timer representando quanto tempo essa pessoa pode permanecer no local. Caso o indivíduo ultrapasse o tempo, ele é recolhido pelas autoridades. E isso geralmente leva ao desaparecimento ou à morte. Imani, uma conhecida de Jamila está criando um protótipo de máquina do tempo para tentar modificar o passado e quem sabe construir um futuro mais seguro para todos. Mas, nossa protagonista resiste à ideia por conta da quantidade de variáveis envolvidas em algo desse tipo. Só que o destino tem outros planos para Jamila quando uma terrível tragédia acontece no seio de sua família. Algo que poderia nunca ter acontecido caso o mundo fosse diferente.
Essa é mais uma história de viagem no tempo e o autor parte de um período bem no futuro e retorna para outro mais à frente em relação à nossa realidade. A ideia é especular com base em nossa realidade. Criar uma base em um futuro próximo onde as divergências sociais alcançam um tal ponto que leva a um acontecimento trágico. Esse seria o estopim para uma distopia onde grupos étnicos desfavorecidos sofreriam uma carga de perseguição ainda maior por parte de governos controladores. É uma forma de criar em cima de um clichê de scifi já existente e que permite toda uma série de brincadeiras narrativas. Como fã de scifi, sempre acho a temática da viagem no tempo perigosa por conta da quantidade de furos que ela pode deixar. No entanto, Waldson faz uma abordagem simples e direta, deixando para se focar mais no dilema vivido pela personagem. Vamos ter alguns leitores que irão criticar o paradoxo que ele mesmo cria ao retornar ao passado, mas nesse caso, o autor foi bem inteligente ao incorporar o paradoxo à narrativa central. Não temos nenhuma destruição do universo, nenhuma entropia ou problema de continuum espaço-tempo; apenas suma pessoa tentando se encaixar em um lugar que não é mais o seu.
Possivelmente a narrativa de Waldson foi a que mais adentrou nos problemas vividos pela população negra. Senti o tamanho do peso imposto por sua narrativa. E é curioso como o autor (que é o organizador da coletânea) inverteu o horizonte de expectativas. Isso porque se formos pensar na coletânea como um todo, o conto de G.G. Diniz que abre a coletânea é uma história carregada de luta e esperança enquanto a narrativa de Waldson é mais desesperada e melancólica. Sei que é sempre uma dúvida a ordem dos contos em uma coletânea, mas eu teria colocado o texto da G.G. Diniz no final. Mesmo que isso colocasse o texto do organizador primeiro. Faria mais sentido do ponto de vista temático da própria coletânea começar com uma narrativa mais desesperadora, tocando na ferida da luta social e depois terminar com uma mensagem positiva.
Essa é uma história que toca também na temática do pertencimento. Isso porque somos fruto de nossas realidades. O que constitui nossa identidade é o lugar onde vivemos. Seja esse lugar uma utopia, uma cidade grande com uma vida estressante, um mundo isolado no campo, um país marcado por um governo controlador. Isso nos molda. Quando Jamila mudou o passado, ela melhorou sim o futuro para seus companheiros, para sua família. Transformou o mundo em um lugar melhor. Só que ao mesmo tempo ela retirou a si mesma da equação. Tudo o que fazia com que ela fosse ela, sumiu. Suas experiências a tornaram a pessoa que ela é. Mas e se aquelas experiências nunca tivessem acontecido, o que isso faz de você? Por ela ter sido a responsável pelas alterações na linha temporal, ela se torna parte integrante daquele universo. Só que isso a transforma em algo que o universo não consegue dar conta. Jamila não tem mais uma identidade nesse mundo. Uma questão central fica para ela: mudar de volta a realidade e viver os horrores ou se sacrificar e viver uma nova existência, vendo as pessoas que ela ama sendo felizes e não podendo fazer parte dessa felicidade?