Jump to ratings and reviews
Rate this book

Raízes do amanhã: 8 contos afrofuturistas

Rate this book
"AS RAÍZES DO AMANHÃ PLANTAMOS AGORA"

Uma das marcas deixadas pelo colonialismo é a existência de um presente que dificulta a projeção de futuros para a população negra. Por isso, contar e protagonizar histórias é tão importante para ampliarmos o campo de possibilidades.

Se o real nos impõe, então, tais impedimentos, o exercício de especular, dentro e fora da ficção, é o que nos permite resgatar o passado, questionar o presente e construir futuros. É o que fortalece as raízes do amanhã, que perfuram solo brasileiro e vão fundo em direção ao desconhecido.

No século XXI, nove herdeiros dessa luta se unem às editoras Gutenberg e Plutão Livros para imaginar noções de futuro próximas e longínquas em oito contos afrofuturistas e afro-brasileiros. Com organização do autor e pesquisador Waldson Souza, G. G. Diniz, Kelly Nascimento, Lavínia Rocha, Pétala e Isa Souza, Petê Rissatti, Sérgio Motta e Stefano Volp traçam em suas histórias, ora um respiro — onde o amor, a superação das adversidades e a liberdade são possíveis —, ora um alerta para nos lembrar de que estamos reféns de uma realidade que muitas vezes nos proíbe de sonhar.

Evidenciando noções de futuro próximas ou longínquas, os contos de Raízes do amanhã oferecem respostas diversas sobre o tempo e o espaço da juventude negra, proporcionando um espaço revolucionário de experimentação ficcional.

224 pages, Paperback

First published November 30, 2021

3 people are currently reading
85 people want to read

About the author

Waldson Souza

12 books29 followers
Waldson Souza é brasiliense, escritor, roteirista e doutorando em literatura na UnB. Sua pesquisa acadêmica possui foco em temas como afrofuturismo, ficção especulativa, autoria negra, representação e a obra de Octavia E. Butler. É autor de “Oceanïc” (Dame Blanche, 2019) e de “O homem que não transbordava” (Plutão Livros, 2021), finalista do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica 2022. Já publicou nas revistas Piauí e Quatro Cinco Um. Em 2021, organizou a coletânea “Raízes do amanhã: 8 contos afrofuturistas” (Editora Gutenberg e Plutão Livros).

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
40 (44%)
4 stars
40 (44%)
3 stars
8 (8%)
2 stars
1 (1%)
1 star
1 (1%)
Displaying 1 - 26 of 26 reviews
Profile Image for Lavínia Rocha.
Author 23 books51 followers
May 31, 2022
Orgulho de fazer parte de um trabalho tão potente! Os contos estão incríveis 💛
Profile Image for Beatriz Barberino.
110 reviews35 followers
November 20, 2025
4,5
Muito bom! Achei todos os contos muito legais, meus favoritos foram "Recomeço", "Segunda Mão" e "Com o Tempo em Volta do Pescoço"
Profile Image for Elvis Rodrigues.
294 reviews13 followers
December 20, 2025
Esta coletânea organizada pelo Waldson Souza traz oito contos brasileiros com uma pegada afrofuturista. Como praticamente toda coletânea, há uma irregularidade, com contos mais bem trabalhados e outros que chamaram menos a minha atenção.

Um dos meus favoritos foi Sexta Dimensão, do Stefano Volp, que consegue em pouco espaço construir um background promissor e indicar um relacionamento envolvente, com pistas sobre um passado sem que este faça falta para a experiência.

Outro que apreciei foi Jogo Fora de Casa, do Sérgio Motta, que talvez seja o conto que melhor trabalha um arco narrativo com começo, meio e fim, com background e desenvolvimento e até com um plot twist, aproveitando com muita eficácia a sua pouca extensão.

Por fim, Com o Tempo em Volta do Pescoço é o mais ambicioso e é relativamente bem-sucedido ao conceber uma Brasília daqui a dois séculos, uma parte científica que funciona e uma personagem carismática. Tenho minhas dúvidas sobre o final ter funcionado bem, mas acho que foi uma opção razoável para a limitação de tamanho.

Nota da coletânea como um todo: 6 (Personagens) + 6 (Plot) + 7 (Estrutura) + 5 (Atmosfera) + 6 (Estilo) - 0 (Deduções) = 30.
Profile Image for monique.
302 reviews27 followers
March 16, 2024
a nota é para o livro como um todo. não consegui levar a sério a maioria dos contos, devido tanto às escritas, caracterizações e diálogos quanto aos enredos/premissas, então pulei três dos oito (excluindo o festival de promessas da introdução). se tivesse que recomendar pelo menos um seria "Tudo o Que Transporta o Ar" de Pétala e Isa Souza: também meio chatinho, mas o que melhor disfarça sua chatice. as irmãs não ignoram as implicações de uma ideia ao mesmo tempo tão batida e complexa como a do multiverso, e sabem a importância de uma boa abertura e uma boa finalização — porque dá para amenizar a morosidade ali do meio, até relevar falta de motivação e explicação, se a história começa e termina com estilo. destaque também para "Recomeço", que me lembrou o final da série The Leftovers; e "Sexta Dimensão", que foi o primeiro que não odiei e o qual reacendeu minha esperança de encontrar um fav br neste começo de ano como ocorreu em 2023. aí o último conto a apagou novamente.
Profile Image for Marco.
252 reviews6 followers
January 23, 2022
4.5.

Geralmente as antologias têm seus altos e baixos, mas, para mim, todos os contos desse livro são (no mínimo) muito bons. Todas as histórias são bem escritas e desenvolvidas, e se não dei nota máxima foi por mera questão de gosto mesmo (tanto em relação a elementos de uma história ou a algum desfecho que não foi satisfatório para mim).
No mais, destaque para os contos que mais gostei: "Não tem wi-fi no espaço", de G.G. Diniz; "O show deve continuar", de Lavínia Rocha; "Segunda mão", de Petê Rissati; "Tudo o que transporta o ar", de Pétala e Isa Souza; e "Com o tempo em volta do pescoço", de Waldson Souza.
Com certeza é uma antologia que vale a pena ser lida e recomendada.
Profile Image for Luiza Hubner.
10 reviews1 follower
July 27, 2023
4,5
Assim como todo livro de contos, possui algumas histórias melhores que outras. Possui alguns contos mais adultos e outros mais voltados para o público infanto-juvenil. Meus favoritos foram os últimos, em especial "Recomeço", de Kelly Nascimento, e "Segunda mão", de Petê Rissatti. Realmente muito bons.
Profile Image for Rhuan Contardi.
102 reviews2 followers
July 7, 2024
Ficção científica não é o gênero que costumo ler, sou mais da fantasia, mas essa coletânea de contos foi superinteressante e bem envolvente. Gostei especialmente dos contos “O show tem que continuar” (Lavínia Rocha) e “Jogo fora de casa” (Sérgio Motta) e adoraria ler algo mais extenso das histórias “Não tem Wi-fi no espaço” (G. G. Diniz) e “Segunda mão” (Petê Rissati), ambas com uma ótima ambientação, trama bem trabalhada e personagens intrigantes.
Profile Image for Johnatan.
Author 15 books85 followers
Read
June 18, 2024
não tem um conto ruim sequer nessa coletânea!
Profile Image for Paulo Vinicius Figueiredo dos Santos.
977 reviews12 followers
July 3, 2022
1 - "Não tem wi-fi no espaço" (de G.G. Diniz)
Avaliação: 4 estrelas

O quilombo Bom Jardim decidiu finalmente deixar o planeta Terra. Depois de anos e anos de abuso dos governos de todo o tipo, os quilombolas conseguiram construir uma estação espacial a partir do lixo deixado pela empresa aeroespacial que transformou toda a região em que eles vivem em um enorme lixão. Com o esforço de Marisa e a inteligência de sua filha Luana o projeto está quase finalizado. Mas, isso incomodou o empresário que percebeu que um grupo de negros quilombolas morando em um lixão poderão terminar uma estação espacial autossuficiente antes da poderosa e milionária empresa. É a partir deste momento que inicia uma tensa situação em que a empresa usa todo o seu poder financeiro para atrapalhar a vida dos quilombolas e, quem sabe, destruir tudo aquilo que eles levaram anos para construir. Mas, Marisa e Luana não estão mais com vontade de deixar as coisas serem ditadas pelo poder da opressão. Elas irão unir suas vontades para buscar uma solução para esse problema. E quem sabe sonhar com um lugar onde o seu povo pode finalmente ser livre.

Uma bela maneira de começar essa coletânea afrofuturista. Começar com uma história que lida com luta e esperança de um futuro melhor. Aqui vemos o quanto o preconceito étnico e social se manifesta através de um sistema econômico que só vai privilegiar aquele que tiver o poder do capital. É uma história de resistência, de luta contra o opressor usando todos os meios possíveis. A gente percebe na história o quanto os governantes e o poder público é passivo diante dos grandes empresários. Estes que fazem o que querem aonde querem e como querem. Usaram toda a região nordeste do Brasil, na história, como um lixão, despejando aquilo que eles não mais precisavam. Quando alguém decidiu empregar aquilo que foi descartado para uma causa e criou uma tecnologia ou um recurso inesperado, isso incomoda; faz com que aqueles com mais recursos se lembrem de que a ciência é algo que pode ser utilizada por quem tiver criatividade para algo inventivo.

A luta de Marisa e Luana vai se centrar em esforços não apenas no local, contando com a ajuda de toda a comunidade, mas também através da internet. É nas redes que, através da conscientização, quem sabe é possível gerar mudanças. Nem sempre através dos meios oficiais, porque sabemos o quanto a população pode ser alienada. Mas, se devidamente provocada, se mostrarmos fatos irrefutáveis, é possível criar uma brecha. Além disso, a ajuda pode vir de lugares bastante inesperados. A leitura deste conto é muito boa. A história flui muito bem e quando vamos nos dar conta, ela já acabou. Ótima maneira de iniciar nossa jornada.

3 - "Sexta dimensão" (de Stefano Volp)
Avaliação: 4 estrelas

Alfredo é um robô humanoide habitando um mundo onde os seres humanos estão desaparecendo, fruto de suas próprias falhas e guerras. Sua programação o permite ser quase um ser humano completo, sendo ele um humanoide negro, embora pertencendo a um modelo antigo, detentor de sentimentos e desejos. Um dia ele recebe uma estranha mensagem que o pede para comparecer a um encontro com uma pessoa que revela ser um ser humano. Um encontro proibido pelo policiamento desse mundo e que vai revelar a Alfredo detalhes que ele desconhecia de sua vida e seu envolvido com Salomão, a pessoa que entrou em contato com ele.

Essa é uma história poderosa sobre amor, perseguição e família. Uma linda história entre duas pessoas que se amam e cuja ligação consegue atravessar inúmeras dimensões. Stefano Volp consegue trazer, na dose certa, questões da temática LGBT e da população negra para uma história que nem precisa entregar muito sobre o que se situa ao seu redor. Ao se focar em um momento da vida destes dois personagens, na urgência daquele encontra e em tudo o que estava em jogo, o autor conseguiu ser sintético e romântico, sem ser piegas. Adorei como ele usou o elemento da ficção científica para dar mais poder àquilo que ele escrevia em suas linhas. Sem contar no fato de como ele foi capaz de desenvolver bem dois personagens em um espaço tão curto de páginas.

Não tenho muito o que falar sobre os temas porque a história é curtinha e merece ser apreciada em seu todo. Não quero estragar as surpresas trazidas pelo autor. Só ficam os meus elogios a uma boa escrita, a um competente desenvolvimento de personagens e à maneira como ele impôs um senso de urgência na trama.

4 - "Jogo fora de casa" (de Sérgio Motta)
Avaliação: 4 estrelas

Somos apresentados ao Casa Futebol Clube, um pequeno clube de futsol da periferia. Futsol é uma variante do futebol de linha só que sem goleiro, com gol pequeno e sem saídas de bola. E pode ser jogado em lugares com gravidade inferior. Só que o time não possui apoio de patrocinadores e muito menos um campo onde possam treinar. Os membros do time vieram das mais diversas origens e todos tem em comum as dificuldades pelas quais passam na vida. O último campeonato foi o melhor do time em que ele desbancou os grandes do campeonato local, mas as dificuldades para voos mais altos são muito elevadas e eles não possuem sequer dinheiro para o transporte do time para as diferentes sedes onde os jogos acontecem. Para o treinador, o limite chegou e ele recebeu uma proposta para treinar um time grande e provavelmente irá aceitar. Dona Odete, uma das benfeitoras do time, pede ao treinador a oportunidade para um último jogos, contra o Pebas F.C., um time formado por marcianos e considerado o melhor do sistema solar. Nesse último jogo, sentimentos e desejos se mesclarão para um momento de muita emoção.

Gostei bastante da escrita do Sérgio Motta. Ele conseguiu traduzir muito bem o espírito dos jogos de futebol para dentro das linhas de uma história. Temos dois momentos bem claros na escrita: uma que apresenta as dificuldades pelas quais o time e os membros dela passam no cotidiano e um segundo momento que engloba o próprio jogo. No primeiro momento temos uma apresentação do cenário e do pano de fundo que cerca estes momentos finais. É curioso porque eu tive a impressão de estar revisitando um documentário muito legal que assisti no ano passado, o The Last Ride, que mostra a história da última temporada vivida por Michael Jordan, lendário jogador de basquete do Chicago Bulls. Toda aquela narrativa com os bastidores, as dificuldades e qual a importância de cada membro da equipe para o funcionamento do todo. O segundo momento é a tradução da própria partida de uma forma compreensível para o leitor. E isso não é uma tarefa simples. Pensem que o futebol é um jogo dinâmico e hoje estamos acostumados ao recurso audiovisual. Mas, a narrativa do Sérgio me fez lembrar da época das narrações de rádio quando precisávamos imaginar o que estava acontecendo através da linguagem empregada pelos locutores. E é essa sensação que este ponto da narrativa me passa. Em nenhum momento o jogo fica chato ou enfadonho.

A história repassa bem as dificuldades que cercam os times mais pobres espalhados pelo Brasil. Sérgio brinca com a ficção científica, mas pensem que tudo aquilo pelo qual os jogadores passam é a realidade em comunidades mais pobres. Pode ser o professor humilde e talentoso que se esforça ao máximo para despertar o real potencial de seus pupilos. Só que chega a hora em que ele fica na dúvida se deve ou não realizar sonhos mais altos. Ou os alunos que tem muita dificuldade para pensar em seus futuros. Seja aquele que deseja alcançar o distante sonho da universidade para uma vida melhor; ou aquele que apenas quer ajudar os seus pais e viver uma vida honesta. Tem aqueles que procuram ajudar em casa vendendo produtos no trem ou em coletivos. Ou o time pequeno que vê todos os seus esforços se esvaírem sem um apoio. Esse tipo de dificuldade é tão comum que chega a doer. Recomendo aos leitores que deem uma atenção especial a essa história.

5 - "Recomeço" (de Kelly Nascimento)
Avaliação: 5 estrelas

Helena acabou de ter uma perda enorme. Passado mais de sete meses da perda de seu amado Alexandre, ela precisa lidar com a realidade de que não adianta mais ficar de luto. Sendo uma médica e tendo uma certa imunidade à epidemia que tomou conta do planeta, ela é necessária nas linhas de frente. Mas, ir até o hospital dói demais. Tudo lembra aquele que a deixou, vítima desta mesma doença terrível, que mata em uma velocidade incrível. Enquanto procura seguir em frente, ela é assolada por todos aqueles que chegam todos os dias para ocupar os leitos do hospital. E os bravos guerreiros médicos estão caindo um por um. Neste emocionante conto, Helena precisa lidar com a dor de sua perda enquanto cuida de várias pessoas em turnos que parecem intermináveis. Mas, no meio de tudo isso, visões de seu falecido amor aparecem por toda a parte chamando-a. Será que ela está sendo vítima desta mesma doença em alguma estranha mutação do vírus ou tudo não passa de seu corpo caindo vítima de sua tristeza?

Que história linda! Pode parecer piegas essa velha temática do amor capaz de vencer o tempo e o espaço, mas tudo depende da forma como o autor está contando a história. E Kelly faz isso de forma magistral ao nos apresentar a ligação que existe entre duas pessoas. Curiosamente não sabemos tanto sobre Alexandre, e ela se foca mais nos breves momentos de afeto e intimidade entre os dois personagens. A narrativa é em uma pseudo-primeira pessoa em que a protagonista se refere a nós como sendo Alexandre. Quase como se ela "quebrasse a quarta parede", mas não chega a ser isso. Quando perdemos uma pessoa querida, vítima de alguma tragédia, existe uma profunda dificuldade para seguir em frente. É como se o relógio parasse e permanecêssemos em um mesmo momento, revivendo todos os bons momentos e os últimos que passamos com nossos amados. É isso o que Helena está passando, porque seu coração se fragmentou em diversos pedaços. Ela tenta seguir em frente na marra, com a emergência que se interpõe em sua frente. Só que falta alguma coisa a ser resolvida. Falta aquele momento-chave e definidor que a faça tocar finalmente a vida.

A história consegue nos passar bem a imagem dos momentos da pandemia. Principalmente nos meses iniciais, quando não entendíamos nada sobre a doença, como ela se transmitia, como evitar, como encontrar alguma cura. O nível de confusão e desespero era patente e os hospitais enchiam de pessoas ao mesmo tempo em que os médicos plantonistas caíam vítimas do cansaço ou da própria doença que eles tentavam tratar em seus pacientes. A associação é bem óbvia e a autora consegue entregar isso sem dizer muito. Apenas apresentando todo um cenário de destruição e incompreensão no hospital. Os médicos lutam diariamente para reduzir o nível de mortalidades, mas sem as ferramentas certas tudo o que eles conseguem fazer é evitar uma dor maior. Esse desespero está presente ao longo de toda a história equilibrada por uma história de amor emocionante. É como se a própria narrativa de Helena e Alexandre servisse para amenizar o impacto da trama impulsionada por essa pandemia.

Vou mencionar brevemente a incrível virada narrativa que acontece no final da história. Nos fornece aquela sensação de ter sofrido uma rasteira, e das boas, da autora. Mas, é muito legal ver aquele breve momento no final e nos deixa com uma pergunta na mente. Aquela velha questão de o que aconteceu foi real ou apenas fruto da imaginação. Cada um de nós vai oferecer uma explicação. Um dos melhores contos (se não for o melhor) desta coletânea.

7 - "Tudo o que transporta o ar" (de Pétala e Isa Souza)
Avaliação: 4 estrelas

Yagazi faz parte de um grupo de irawó que estão deixando o planeta Gaada e voltando à sua terra original, Terrasul. Um povo que permaneceu muitos ciclos longe de seu verdadeiro lar e acabou formando uma cultura específica. Contado através de entradas de um diário de bordo, Yagazi fala sobre a longa viagem de retorno, suas esperanças, anseios e expectativas. Junto deles está Griô, uma Inteligência Artificial que tem a responsabilidade de registrar a história dos irawós, seus hábitos, costumes e tradições. Durante a jornada, conhecemos um pouco de como eles foram parar em Gaada, o que significou o tempo lá. Mas, o que os espera em seu retorno? Serão eles bem recebidos? O desconhecido pode ser um sentimento muito forte e Yagazi revê ao lado de alguns de seus companheiros que decisões importantes se tornarão necessárias para uma vida melhor.

Essa é uma bela história que lida com a questão diaspórica. Vários povos já passaram por esse momento de exílio e depois o retorno. Podemos falar dos povos africanos (que é o tema central dessa coletânea), mas é possível pensar em judeus, curdos e alguns outros que passaram por esse trauma. A importância de manter viva a sua cultura vai se tornando mais e mais urgente com o passar das gerações. Todas ganham espaço para evitarem ser esquecidas. E um grande dilema é como fazer as futuras gerações se importarem com traços da sua identidade. Foi inteligente da parte das autoras usar a figura do Griô, que é uma figura existente nos grupos sociais africanos tradicionais. Geralmente é o mais velho e mais experiente e tem essa função de registro histórico. Enxergar o retorno daqueles que precisaram abandonar seu lar um dia é um tema interessante e vi poucas vezes sendo abordado na literatura de gênero. Gostei de como as autoras nos apresentaram os medos e esperanças, e esses sentimentos acabam nos arrepiando de alguma forma. Vou usar aquela expressão clichê do "não é o meu lugar de fala" (e não é mesmo), mas esse tipo de dilema parece simples a alguém desavisado, mas é uma situação que abala o imaginário social e as esperanças daqueles que estão retornando. Talvez a perspectiva de chegar à sua terra natal e encontrar algo diferente demais do que imaginavam seja algo assustador.

8 - "Com o tempo em volta do pescoço" (de Waldson Souza)
Avaliação: 4 estrelas

A família de Jamila vive em um futuro tenebroso, marcado por um governo altamente controlador. Tudo desandou após a morte de um presidente há muitos anos atrás quando a sociedade entrou em polvorosa e passou a perseguir com mais intensidade a população negra e os mais empobrecidos. Isso levou à criação de um dispositivo terrível no formato de um colar que quando a pessoa entra na região de Nova Brasília para trabalhar ativa um timer representando quanto tempo essa pessoa pode permanecer no local. Caso o indivíduo ultrapasse o tempo, ele é recolhido pelas autoridades. E isso geralmente leva ao desaparecimento ou à morte. Imani, uma conhecida de Jamila está criando um protótipo de máquina do tempo para tentar modificar o passado e quem sabe construir um futuro mais seguro para todos. Mas, nossa protagonista resiste à ideia por conta da quantidade de variáveis envolvidas em algo desse tipo. Só que o destino tem outros planos para Jamila quando uma terrível tragédia acontece no seio de sua família. Algo que poderia nunca ter acontecido caso o mundo fosse diferente.

Essa é mais uma história de viagem no tempo e o autor parte de um período bem no futuro e retorna para outro mais à frente em relação à nossa realidade. A ideia é especular com base em nossa realidade. Criar uma base em um futuro próximo onde as divergências sociais alcançam um tal ponto que leva a um acontecimento trágico. Esse seria o estopim para uma distopia onde grupos étnicos desfavorecidos sofreriam uma carga de perseguição ainda maior por parte de governos controladores. É uma forma de criar em cima de um clichê de scifi já existente e que permite toda uma série de brincadeiras narrativas. Como fã de scifi, sempre acho a temática da viagem no tempo perigosa por conta da quantidade de furos que ela pode deixar. No entanto, Waldson faz uma abordagem simples e direta, deixando para se focar mais no dilema vivido pela personagem. Vamos ter alguns leitores que irão criticar o paradoxo que ele mesmo cria ao retornar ao passado, mas nesse caso, o autor foi bem inteligente ao incorporar o paradoxo à narrativa central. Não temos nenhuma destruição do universo, nenhuma entropia ou problema de continuum espaço-tempo; apenas suma pessoa tentando se encaixar em um lugar que não é mais o seu.

Possivelmente a narrativa de Waldson foi a que mais adentrou nos problemas vividos pela população negra. Senti o tamanho do peso imposto por sua narrativa. E é curioso como o autor (que é o organizador da coletânea) inverteu o horizonte de expectativas. Isso porque se formos pensar na coletânea como um todo, o conto de G.G. Diniz que abre a coletânea é uma história carregada de luta e esperança enquanto a narrativa de Waldson é mais desesperada e melancólica. Sei que é sempre uma dúvida a ordem dos contos em uma coletânea, mas eu teria colocado o texto da G.G. Diniz no final. Mesmo que isso colocasse o texto do organizador primeiro. Faria mais sentido do ponto de vista temático da própria coletânea começar com uma narrativa mais desesperadora, tocando na ferida da luta social e depois terminar com uma mensagem positiva.

Essa é uma história que toca também na temática do pertencimento. Isso porque somos fruto de nossas realidades. O que constitui nossa identidade é o lugar onde vivemos. Seja esse lugar uma utopia, uma cidade grande com uma vida estressante, um mundo isolado no campo, um país marcado por um governo controlador. Isso nos molda. Quando Jamila mudou o passado, ela melhorou sim o futuro para seus companheiros, para sua família. Transformou o mundo em um lugar melhor. Só que ao mesmo tempo ela retirou a si mesma da equação. Tudo o que fazia com que ela fosse ela, sumiu. Suas experiências a tornaram a pessoa que ela é. Mas e se aquelas experiências nunca tivessem acontecido, o que isso faz de você? Por ela ter sido a responsável pelas alterações na linha temporal, ela se torna parte integrante daquele universo. Só que isso a transforma em algo que o universo não consegue dar conta. Jamila não tem mais uma identidade nesse mundo. Uma questão central fica para ela: mudar de volta a realidade e viver os horrores ou se sacrificar e viver uma nova existência, vendo as pessoas que ela ama sendo felizes e não podendo fazer parte dessa felicidade?
Profile Image for maria cecília.
286 reviews
January 28, 2022
Nunca tinha lido um livro sofre contos afrofuturísticos e eu fico feliz que li e que pra tudo tem uma primeira vez. Fiquei encantada com as históiras, universos diferentes de cada conto e personagens sempre muito característicos. Fui ler o livro por causa da Lavínia Rocha, já conehço sua escrita e realmente permaneceu escrevendo histórias lindas e emocionantes, do jeitinho dela, o que adoro. Adorei ter conhecido a escrita e um pouco de cada autor por meio do livro que mostra tanta representatividade e é necessário. A introdução ao afrofuturismo feita no início foi uma aula e tanto! Ótima experiência de leitura.
Profile Image for Jaqueline.
551 reviews47 followers
April 9, 2023
"Às vezes, toco o pescoço para me certificar de que estou mesmo sem o colar. Ainda é estranho poder andar livremente, ir para qualquer lugar na ilha onde moro, viver sem estar com o tempo em volta do pescoço, sem a sensação de urgência. Mesmo sentindo que não pertenço a este mundo, que não deveria estar respirando este ar puro, tento me convencer de que posso construir uma vida nova aqui. Voltar não está ao meu alcance. E, aos poucos, vou aprendendo que não preciso querer voltar. Nem sempre parece certo desfrutar de todas as coisas boas que este tempo possui. A lembrança do sofrimento e da angústia de antes me assombram. Achar que não mereço ser feliz é um sentimento cruel. Cruel em tantos níveis que sequer sei explicar. Mas talvez ele consiga. O tempo. Afinal, esteve lá e está aqui. Existiu antes e continuará existindo depois."
Com o tempo em volta do pescoço - Waldson Souza

É uma coleção de contos bem sólida e diversa, cada um deles teve alguma coisa que me fisgou, eu gostei de todos. Tem pra todos os gostos, pessoas lutando contra corporações, humanoides, viagem no tempo e em outras dimensões, pandemia, space opera e até uma partida de futebol intergaláctica que me deixou animada demais e olha que eu nem ligo pra futebol, achei uma sacada incrível. Meus preferidos foram "Não tem Wi-fi no espaço", da G. G. Diniz (que conversa com o conto dela da Mafagafo ou é impressão minha? Tenho gostado muito das histórias dela), "Sexta Dimensão", do Stefano Volp (muito bonito), "Jogo fora de casa", do Sérgio Motta (sensacional a sacada dele aqui) e "Com o tempo em volta do pescoço", do Waldson Souza (eu não resisto a uma boa história de viagem no tempo e o que ele fez aqui é muito legal, além do final lindo demais. Tenho gostado muito das histórias dele também).
Profile Image for Mari B.  Pereira .
78 reviews19 followers
March 2, 2022
Afrofuturismo brasileiro tem ganhado mais visibilidade nos últimos anos. Desde trabalhos acadêmicos até obras ficcionais, a contribuição de escritores tem sido primordial para aumentar o debate e estimular a criação destas histórias e suas perspectivas.

Especular, foi um dos grandes pontos para buscar o resgate do passado, escrevendo assim novos capítulos para e por aqueles que vivem o hoje e buscam sempre um melhor amanhã.

Lutando pelo direito de sua morada, "Não tem Wi-fi no espaço" marca a luta de um povo para ocupar seu espaço longe de segregações. Obistinada em construir um lugar melhor para o povo negro, Adaobi vai contra as regras de sua criação, desbravando códigos perversos em "O Show tem que continuar". Sensível e reflexivo, "Sexta dimensão" explora os limites da intolerância, sacríficio humano e o poder do amor entre duas espécies distintas. Relação do futebol no âmbito socioeconômico sempre foi um dos pilares da civilização, sendo "Jogo fora de casa" conversa através de uma disputa esportiva o pertencimento e regionalidade de suas personagens.

Vivendo uma falsa normalidade, "Recomeço" é o enfrentamento de uma pandemia através do olhar e da alma dilacerada de uma profissional da saúde que perdera aquele que mais amava. Vivendo em uma nova era digital, improváveis amantes se conhecem, construindo em "Segunda mão" o laço que transpõe a diferença de idade e a ditadura disfarçada ao redor deles. Comprender sua existência, aprendendo que existe um lugar seu de direito, "Tudo o que transporta o ar" celebra o legado, explorando os caminhos de um povo e de sua sexualidade. Viajar no tempo para evitar catastróficas consequências para todo o país,
"Com o Tempo em volta do pescoço" é o retrato quase literal de nossa própria realidade.

Primeira leitura da belíssima experiência do Clube Mais Sci-fi organizado pela @afrofuturas.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Debora.
587 reviews2 followers
March 17, 2025
Segundo a definição de Waldson Souza, afrofuturismo é "(...) um movimento artístico e estético que nasce da união entre ficção especulativa (fantasia, ficção científica e horror) com autoria e protagonistas negros."

Ao contrário do que o nome sugere, as narrativas não se passam necessariamente no futuro.

As obras tratam de questões pertinentes a população negra e podem questionar estruturas opressoras do presente, resgatar o passado ou projetar o futuro o qual se deseja ou não seguir.

Os contos deste livro contém elementos, realidades e histórias que nos são familiares, mas também trazem fantasias mirabolantes, futuros ímpares, marcados por lutas, opressão e exclusão.

Estes são os contos que compõem o livro:

1) Não tem Wi-Fi no espaço, de G.G. Diniz
2) O show tem que continuar, de Lavínia Rocha
3) Sexta dimensão, de Stefano Volp
4) Jogo fora de casa, de Sérgio Motta
5) Recomeço, de Kelly Nascimento
6) Segunda mão, de Petê Rissatti
7) Tudo o que transporta o ar, Pétala e Isa Souza
8) Com o tempo em volta do pescoço, de Waldson Souza

Gostei de todos eles. São fáceis de ler, cada um passa sua própria mensagem, todas muito importantes. E são independentes entre si.

Meus contos favoritos foram o 2, 4, 5, 6 e 8. Fiquei tão imersa que quando terminei a leitura deles, queria que houvesse mais história. Queria muito a continuação delas!

Um livro diferente de tudo que eu havia lido. Uma capa belíssima, vibrante, tal qual as histórias contidas na obra.
Profile Image for Larissa Lauane.
63 reviews2 followers
December 26, 2022
Os contos afrofuturistas apresentados em "Raízes do amanhã" não fazem reflexões apenas sobre o futuro da literatura e das lutas negras, mas sim faz uma consideração do que enfrentamos no passado e do que podemos fazer para enfrentar o racismo no presente.

Algumas histórias (todas) me deixaram maravilhosamente surpresas e querendo conhecer muito mais sobre afrofuturismo.

Contos que falam sobre comunidades negras tentando criar um forma de sair do planeta Terra, seres imagináveis que influenciam a vida dos negros, viagens por várias dimensões, um jogo em Marte, uma pandemia mundial, um governo totalitário, entre outras histórias incríveis.

O livro me surpreendeu do início ao fim e a única coisa que ficou faltando para mim é ver todas essas histórias complexas ainda mais desenvolvidas dentro de livros únicos porque tem tantos assuntos ÓTIMOS que vocês não tem ideia!
Profile Image for Bruna Pelegrini.
118 reviews4 followers
January 1, 2023
Uma leitura que recomendo demais. Apesar de ter ficção científica como base para os contos, qualquer um que ler vai entender bem os sentimentos e emoções tão reais. Tiveram 3 contos que achei um tanto mediano com a orais aos outros porque não achei tão criativo e que faltou um pouco mais de desenvolvimento de mundo porque focou muito mais no romance, no clichê de "amor supera tudo". Mas mesmo assim não são ruins. E os outros são extremamente originais e bem construídos que compemsaram esses que não curti tanto. Autores muito talentosos e que talvez se tivessem mais páginas, fariam obras espetaculares. Esse é meu problema com contos: eu gosto de narrativa longa, quero ver mais do universo, dos personagens mas logo o conto acaba.
Profile Image for Carla Duarte.
34 reviews
May 7, 2022
O afrofuturismo é um dos temas que mais me mostra que existe, sim, a capacidade humana de criar vida. Partindo dessa realidade violenta, não é pouca coisa. O afrofuturismo escrito por autores brasileires adiciona à essa capacidade humana de criar - a despeito da violência - outra camada profunda de vontade de semear um futuro. Nos oito contos de Raízes do Amanhã isso foi demonstrado de diferentes maneiras. Que bom que esse livro existe. Espero que inspire adolescentes e todos que podem se motivar por essas narrativas a construir mais.
Profile Image for Lisandra.
1,366 reviews
February 16, 2022
1. Não tem wi-fi no espaço: 3,7
2. O show tem que continuar: 4,5
3. Sexta dimensão: 3,3
4. Jogo fora de casa: 4,2 (se eu entendesse mais de futebol a nota provavelmente teria sido maior ksksk)
5. Recomeço: 3,5
6. Segunda mão: 2,6
7. Tudo o que transporta o ar: 2,9
8. Com o tempo em volta do pescoço: 3,8
Total: 3,56 estrelas
Profile Image for Vicent Bernardo Bernardo.
Author 3 books14 followers
May 17, 2023
Uma antologia com nomes de peso da literatura nacional contemporânea! Minha segunda leitura do #MaioNacional não poderia ser outra, Raízes do Amanhã apresenta 8 visões do Afrofuturismo em contos fantásticos e apaixonantes. Todos os contos são muito bem escritos e muito diversos, mas o conto da G.G. Diniz e do Volp me deixaram imerso na história do início ao fim!
Profile Image for Kelly.
46 reviews6 followers
October 17, 2023
Que livro maravilhoso! Eu adoro contos e fiquei simplesmente encantada com todas as oito estórias afrofuturistas que li. Foi incrível viajar para tantos mundos e universos alternativos diferentes, cada conto foi uma experiência única.
A parte ruim é que ele acaba.
Profile Image for Aliene.
322 reviews2 followers
December 31, 2021
De forma geral, os contos são todos muito interessantes e bem escritos, mas contos, pra me prender, precisam ser excelentes, então o problema sou eu, mesmo rsrs. Mas vale a leitura
Profile Image for Pedro Paraca.
10 reviews
June 6, 2023
Gostei demais! Todos os contos são muito bons e a introdução sobre afrofuturismo é incrível. Recomendo
Displaying 1 - 26 of 26 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.