Utopia
nome feminino
1. Estado ou lugar ideal, caracterizado pela perfeita harmonia e felicidade entre as pessoas
2. Descrição de uma sociedade imaginária (futura), perfeita, equilibrada e na qual as políticas se orientam totalmente pelo bem-estar da população
3. Plano ou projeto muito difícil ou impossível de realizar; quimera, sonho; fantasia
Etimologia
Do grego: ou + topos
O tema central deste livro é basicamente a construção social de Copacabana como um símbolo de status, mobilidade social e estilo de vida na metrópole carioca das décadas de 1960/70. Tendo um tom investigativo, a partir de uma perspectiva antropológica, analisa as representações, sistemas de classificação e a “ideologia” dos moradores do bairro, em particular os residentes do Edifício Estrela. Como um bom trabalho antropológico, utiliza da metodologia de trabalho de campo com observação participante e entrevistas, focando no discurso dos indivíduos como realidade central de análise. É uma abordagem interdisciplinar e uma adaptação dos métodos da Antropologia ao contexto urbano complexo. O livro é dividido em quatro pedaços/capítulos: o bairro, o prédio, os outros moradores do bairro, ideologia e imagem da sociedade, além dos anexos com o que sobrou das entrevistas e outros materiais do autor.
No capítulo O Bairro somos apresentados à sua transformação histórica: de área de difícil acesso a “paraíso à beira-mar”, impulsionado pela abertura do túnel (1892), pela verticalização e pela forte especulação imobiliária. Como mecanismo de atração, campanhas publicitárias criaram uma “utopia urbana”, um ideal de vida sofisticado e moderno. Porém, o bairro não é homogêneo: existe uma hierarquia interna em que os moradores classificam subáreas (como o Lido, associado à vida noturna, e o Posto 6, considerado área nobre). Surge, assim, um paradoxo: Copacabana é um polo de atração, quase como um segundo “Centro”, mas ao mesmo tempo revela profundas desigualdades. A estrutura de consumo e conforto é sustentada por uma massa de trabalhadores de baixa renda.
No capítulo O Edifício Estrela: Microcosmo da Metrópole, vemos o perfil dos moradores, formado majoritariamente por inquilinos de classe média assalariada (“white-collars”): funcionários públicos, comerciários e bancários, muitos deles migrantes. As condições materiais do prédio são difíceis, com apartamentos minúsculos de 39m² e problemas crônicos de infraestrutura como água e elevadores. Nas dinâmicas sociais, destacam-se o conflito e isolamento, em que a convivência é marcada por tensões, desconfiança e pela máxima “não me meto na vida dos outros”. Também aparece a pressão financeira e das aparências, expressa na lista pública de inadimplentes, um ritual humilhante que evidencia a luta para manter o status. O prédio ainda carrega o estigma de “baixo padrão moral”, funcionando como bode expiatório para tensões internas. Dessa forma, o Estrela personifica o paradoxo de Copacabana: realiza o desejo de status, mas ao custo de condições precárias, solidão e insegurança.
No capítulo das Unidades Mínimas Ideológicas: O Código de Classificação, temos a formulação das categorias-chave que os moradores usam para justificar a escolha por Copacabana e hierarquizar o espaço social. As principais unidades são: comércio, praia, divertimento, vida (vs. “morte” dos subúrbios), facilidades, movimento, moderno. Esse sistema forma um mapa social coerente, no qual Copacabana é o polo positivo. Mudar para o bairro é sinônimo de ascensão social (“melhorar na vida”), mesmo sem mudança real de ocupação ou renda. Dois valores centrais organizam esse código: a busca por animação/vida e o desejo de liberdade/anonimato.
No capítulo Ideologia e Imagem da Sociedade, encontramos a ideia de mobilidade social baseada no esforço individual: “quem trabalha duro consegue”. Existe também um conformismo político, já que as críticas são dirigidas a indivíduos e nunca à estrutura. A visão de poder aparece em duas dimensões: um poder acessível, associado ao consumo e à moradia (mudar de bairro), e um poder inatingível, ligado ao governo e à política. A sociedade é percebida por uma lente espacial, em que os estratos sociais são definidos pelos bairros.
A obra aponta ainda que a Antropologia precisa de flexibilidade para adaptar seus métodos ao meio urbano, evitando tratar grupos como “tribos isoladas”. O foco está nas representações, partindo do discurso e da experiência existencial dos sujeitos como realidade válida. Há também uma crítica a conceitos prévios, como “alienação”, visto como pouco operacional por impor um julgamento externo. O objetivo é compreender a lógica interna do grupo. Por fim, reforça-se a interdisciplinaridade, necessária diante da complexidade do urbano, em diálogo com a Psicologia, a Sociologia e a Ciência Política.
Na conclusão geral, Copacabana funciona como uma “utopia urbana”, um símbolo poderoso que organiza aspirações e hierarquias sociais. O estudo demonstra como o espaço físico se transforma em um código cultural, no qual o endereço é a materialização do sucesso e da identidade social, revelando as conexões entre espaço, cultura e estratificação na vida metropolitana.
Li pra aula de antropologia brasileira, um bom achado!