Durante as férias, passadas no Alto Minho, o autor do livro encontrou uma carta, com revelações extraordinárias sobre o Apocalipse, no parapeito da janela gradeada da igreja de um antigo e abandonado convento situado na Serra de Arga, a que se seguiram mais oito sobre o mesmo tema, durante os oito dias seguintes.
Geralmente não faço reviews de livros que não gostei, mas este caso obriga-me a abrir uma excepção. Já li este livro há algum tempo, mas tinha de o vender primeiro no OLX antes de publicar a review. Presumo que muitos compradores sejam como eu, e espreitem as críticas aqui no GR antes de comprar um livro.
A história deste livro é muito simples de contar: o autor costuma passar férias no Alto Minho, e um belo dia, enquanto passeia pela serra, num mosteiro abandonado, encontra um molho de papéis escritos que se trata afinal de uma 'carta'. Essa carta impressiona-o de tal modo, que no dia seguinte volta ao mosteiro, e encontra outra carta. E o ciclo repete-se.
As cartas compõem 70 ou 80% do livro, têm o título de 'O maior Segredo do Mundo', cada uma tem um subtítulo alusivo ao Apocalipse (Cavalo Branco, Preto, Falso Profeta, Prostituta da Babilônia, etc...) e defendem, do ponto de vista de quem as escreveu, o que simboliza cada uma dessas figuras (o Cavalo Branco é a droga, a Prostituta da Babilónia é a libertinagem, etc). No fundo são sermões que nos falam, não do Apocalipse que vai chegar, mas do que já está entre nós, tal a forma impiedosamente negativa como falam do mundo contemporâneo. E nada tenho contra isso, pois respeito a liberdade de expressão, bem como as opiniões de cada um. E até aprecio sermões, quando são bem feitos, fazem bom uso da argumentação e da retórica, e são fluídos e coerentes. Mas não é o que se passa com estes. Estes sermões, para começar, são chatos, e nada fluídos. Pelo contrário, mais parecem uma série de deambulações avulsas, uma manta de retalhos, onde num parágrafos se fala de alhos e no seguinte de bugalhos. Dos seus argumentos não falo, pois a minha opinião poderia ser discutível. Mas o seu maior defeito, é a incoerência, e foi essa que realmente me fez passar de 'não gostar' para 'detestar' estas cartas. Para melhor mostrar, vejamos alguns exemplos: De acordo com a primeira carta, a Humanidade está dividida entre os descendentes de Caim e os descendentes de Seth, onde 'de Seth descendem todas as gerações dos justos enquanto de Caim descendem todas as gerações dos ímpios'. Portanto, se na nossa ascendência estiver Caim, nada a fazer, somos um caso perdido, se estiver Seth, somos justos, e se fizemos alguma maldade foi porque fomos 'corrompidos'. Nada como um argumento racista para começar em grande. Depois, relativamente à TV e ao seu efeito na alma: '(...) a tua alma experimenta o sentimento de ser dilacerada em milhares de átomos durante todo o tempo que olhas para o ecrã (...) passando o telespectador a um ser humano com cada vez menos alma, até não ter alma nenhuma.' Não comento este argumento, mas mais à frente, no livro: '(...) resolvendo-se a questão com a ida das mulheres até à sala de convívio, onde ficaram vendo um programa de televisão(...)'. Ou seja, a alma da mulher que se lixe. Finalmente: '(...) vou recuar algumas dezenas de milhar de anos na História da Humanidade. Nessa época remota, os seres humanos já desprovidos da primitiva androgenia, mantinham relações sexuais com o propósito de gerar filhos e filhas apenas em determinadas épocas do ano, sem prazer consciente (..)'. Essa suposta primitiva androgenia vai ao encontro de que teoria? Eram os Neandertais, que eram andróginos? Ou existiram gerações depois de Adão e Eva que o foram? Assim sendo, como se reproduziram? Estas são apenas três pérolas, mas existem muitas mais (mesmo muitas). Quanto à parte do livro que não são as cartas, não há muito a dizer, porque também não há muito livro para além das cartas. Um capítulo típico deste livro são 20 páginas, onde as primeiras 2 descrevem a ida do autor ao mosteiro para encontrar as cartas, as 17 páginas seguintes são a carta e a última página descreve o autor a meditar sobre a 'verdade absoluta' que acabou de conhecer, e se amanhã encontrará uma nova carta. Isto revela, para além de outras coisas, uma grande preguiça e desleixo na escrita deste livro, pois no fundo o livro são as cartas, e assim sendo, deveriam estar num livro de Reflexões, Sermões, Pensamentos, whatever, e não numa 'história'. Ou, estando numa 'história', deveria haver realmente uma história, e não apenas um conjunto de breves justificações para as cartas aparecerem.
E após tudo o que escrevi, por que ainda dou duas estrelas ao livro? Porque nem todas as argumentações são absurdas; existem algumas que realmente têm o potencial de nos fazer refletir. Por exemplo, o livro fala dos benefícios da meditação, algo que há 25 anos não era um assunto muito usual. O problema reside na coerência, pois muitas vezes os argumentos não se alinham uns com os outros. Assim, o autor acaba por perder toda a credibilidade, mesmo em relação a argumentos que até poderiam servir de base para reflexão ou discussão.