Suprassuma é a revista de ficção especulativa da Editora Suma, digital e colaborativa. Nessa edição de estreia, oito autores nacionais contam histórias inéditas sobre suas perspectivas de uma "primeira vez". A revista Suprassuma nasce da necessidade e do desejo de ouvir as vozes da literatura fantástica no Brasil, criando o portal para um universo compartilhado. Dentro dele, criaturas desconhecidas, mundos inexplorados e histórias únicas que ninguém mais poderia contar. Essa primeira edição traz oito dessas histórias, selecionadas dentre as mais de oitocentas que foram submetidas no primeiro edital e editadas com muito carinho pela Suma junto aos autores.
Em O destino não é endereço, de Jana Bianchi, uma mulher capaz de atravessar umbrais para qualquer lugar no mundo resgata perseguidos políticos da ditadura. Em Não vai ser a primeira, nem a última, de Fernanda Castro, uma mulher engravida de um demônio em um mundo onde crianças híbridas são tratadas como aberrações. Em Um ajuste de ponteiros, de Moacir Fio, duas irmãs em uma família de viajantes no tempo enfrentam os desafios dessa convivência. Em Orvalho flamejante, de Giu Yukari Murakami, uma família imigrante portadora do dom do fogo busca um recomeço no Norte do Brasil. Em Vertente, de Andrezza Postay, uma mulher faz um retorno à infância, à casa dos avós e um passeio pelas vertentes da memória. Em Ith, de Ariel Ayres, um novato recebe a missão de apertar o botão que explodirá um planetinha. Em Ressurreição, de Fabiane Guimarães (autora convidada), a medicina 5.0 traz promessas de imortalidade... para aqueles que podem pagar por ela. Em Dias de pouco pão e zero sonho, de Saskia Sá, uma mulher entra em uma loja de antiguidades mágicas e se sente atraída por um colar que mudará seu destino.
Jana Bianchi é escritora, tradutora, editora na revista Mafagafo e cohostess do Curta Ficção. Em português, além de Lobo de rua (2016), publicou diversos contos em revistas e coletâneas. Em inglês, tem ou terá textos publicados nas revistas Strange Horizons, Clarkesworld e Fireside. É aluna da turma de 2021 do workshop de escrita Clarion West. Jana mora no interior de São Paulo com os pais, duas cachorras e suas várias tatuagens animadas.
Essa é a melhor reunião de textos de fantasia brasileira que já li. Eu amei todos os contos. A temática da primeira vez foi bem trabalhada em cada conto, tratando desde à primeira morte até à primeira vida. A variedade de personagens, narradores, lugares e situações está muito bem explorada. Eu recomendo muito a leitura e, em breve, quero escrever uma crítica mais longa sobre essa edição.
"Ela sempre se incomoda quando Mila enumera as vantagens de ser atravessadora, como se, da tranquilidade da base de apoio, fosse fácil esquecer que Anis passa a maior parte do tempo carregando pessoas de um lado para outro para que não sejam penduradas no pau de arara ou coisa pior. Ela está sempre com os nervos à flor da pele."
Acompanhamos Anis, uma atravessadora de pessoas, em plena ditadura militar no Brasil. É sobre trilhar os próprios caminhos e descobrir que o destino pode ser mais do que um lugar num mapa. Tem uma ambientação muito bem feita, várias referências sutis que te fazem viajar no tempo, comentários pertinentes sobre os malditos milicos e um final muito bonito, gostei muito!
#2 Não vai ser a primeira, nem a última - Fernanda Castro
"Ainda acarinhando a barriga, a mulher ri, e metade da graça é puro desespero. É claro que ela não deveria ter engravidado de um demônio. Ou de homem nenhum, por sinal. Ser mãe não estava em seus planos. É claro que não. A primeira coisa que ela fez após encarar as linhas no teste de farmácia foi xingar (logo antes de gritar, fazer um segundo teste e cair no choro). Ela nem mesmo achava que iria ficar com o bebê. E, ainda assim, aquele homem não tinha o direito de julgá-la. De olhar para ela com tanta presunção, como se ela fosse um cordeirinho ingênuo e desgarrado."
Laura engravidou de um demônio e sua vida muda de formas que ela não imaginava. Eu gosto muito dessa autora porque ela escreve sobre experiências muito humanas com um toque fantástico e eu acho sensacional, porque a gente se identifica com alguns aspectos da narrativa e como tudo se conecta de forma tão suave parece que sim, eu posso entrar num hospital e encontrar uma mulher prestes a dar à luz a um bebê demônio, por que não? O conto trata da maternidade de um jeito honesto, mas esperançoso e tem um humor peculiar, que eu adorei. Fiquei encantada!
#3 Um ajuste de ponteiros, de Moacir Fio
“Não sei por que a defendia. Eu mesma a achava estranha, concordava com tudo o que diziam. Acho que tinha medo de que se chateasse comigo e, no fundo, até começava a sentir algum carinho por ela. Via papai através dela. A memória do que acontecera no apartamento de vovô se apagava aos poucos, o terror de não ter controle sobre mim mesma começava a parecer um pesadelo distante. Até que aconteceu de novo.”
Laís sente que sua irmã tem o dom. Luana tem aquilo que o pai tentou ensiná-la a entender e encontrar em si mesma, mas nunca teve muito sucesso. A relação entre as irmãs é conturbada, e quando Luana entra em coma, Laís se sente quase aliviada. Eu amo uma boa história de viagem no tempo e esta traz vários elementos que eu gosto. Não quero dizer muito porque acho que a graça da história é justamente ir entendendo as coisas aos poucos e se surpreender no final. E que final, adorei!
#4 Orvalho flamejante - Giu Yukari Murakami
"Com o Japão do lado do Eixo, na Segunda Guerra, muitos imigrantes leste-asiáticos foram proibidos de falar suas línguas originárias nas primeiras gerações de imigrantes no Brasil. Tratavam a todos como japoneses e, como tais, mereciam o silenciamento. Todos eles, como se todos fossem nacionalistas. Mas nem todos eram como sua família."
Reika faz parte de uma família de imigrantes japoneses que têm o dom do fogo e moram no norte do Brasil. O conto fala da experiência dos imigrantes, do nacionalismo japonês, tem vários elementos da cultura do Japão e do norte brasileiro, são muitos detalhes que deixam a história rica. É interessante como ele explora o dom do fogo, o medo de Reika de machucar os outros e de ser igual à mãe. Gostei da amizade entre Reika e Yuki, os opostos que se unem para criar algo novo. É uma história cheia de simbolismos e que trata de temas difíceis com muita delicadeza.
#5 Vertente - Andrezza Postay
"Enquanto a doença do avô crescia em incertezas, a da avó não foi difícil de desvendar. Era um nome feio que a deixava extraviada assim: Alzheimer, explicou a mãe, era quando o cérebro desaprendia a lidar com as memórias."
Júlia se lembra do tempo que passava na casa dos avós quando era pequena, a casa grande, amarela, cheia de significados. É um conto bem curtinho, mas de uma beleza, de uma sensibilidade ao tratar da memória, da infância, da relação com os avós, me deixou emocionada no final. Achei lindo!
#6 Ith - Ariel Ayres
“O que eu mais odiava de estar ali era aquele silêncio do lado de fora. Ninguém nos dizia isso quando nos alistávamos; ninguém contava isso nas histórias. No espaço só havia o mais puro silêncio, por mais que estivéssemos no meio de uma guerra.”
Mylthim e Yaegin estão esperando a ordem para apertar um botão. E destruir um planeta inteiro. É um conto rapidinho de ler, os diálogos entre Myl e Yae são a melhor parte e o final é sensacional. Muito divertido!
#7 Ressurreição - Fabiane Guimarães
"A primeira vez que você morre é um acontecimento. A maior parte das pessoas só descobre como é na metade ou no fim de seu primeiro século. Eu tive a desventura de experimentar aos dezesseis anos, um corpo derretendo no asfalto, o crânio quase partido em dois, enquanto o ônibus autônomo desaparecia com o vidro da frente trincado, insensível aos berros dos poucos motoristas."
Luna nos conta sobre sua longa vida e o que aprendeu nessa jornada. Num mundo onde a medicina 5.0 permite que as pessoas vivam vidas longevas, a autora traz uma reflexão interessante sobre a longevidade, sobre como algumas coisas mudam na sociedade e outras, infelizmente, permanecem as mesmas.
#8 Dias de pouco pão e zero sonho - Saskia Sá
“Enfim, tudo o que já cumpriu alguma função mágica ou mundana acaba vindo parar nas minhas mãos, e um dia alguém entra na loja e leva algum objeto desses para casa ao sofrer uma profunda atração inexplicável, sem saber que todas as coisas no mundo carregam histórias, e que essas histórias muitas vezes acabam mudando as vidas tocadas por elas.”
Rosa entra na Loja de Bugigangas da Damiana atraída por um de seus artefatos, sem saber que sua vida está prestes a mudar. É uma história tão gostosinha de ler, você se sente participando de uma conversa. A narradora nos fala de Rosa, a professora poeta, o poder do artefato que ela escolhe, o destino vai se tornando mais claro e eu fui ficando tensa e curiosa. É bonito, poético e traz esperança, gostei muito!
1 - "O destino não é endereço" (Jana Bianchi) Avaliação: 5 estrelas
Vivemos durante uma ditadura militar no Brasil. Pessoas são perseguidas por acreditarem em ideais progressistas. São consideradas comunistas. Anis é uma atravessadora: alguém que possui poderes de se transportar a longas distâncias atravessando portas ou janelas (ou quaisquer coisas que lembrem essas duas coisas). Sua tarefa é levar possíveis alvos dos militares a lugares seguros. Isso a torna uma nômade, sem endereço ou lar específicos. Sua única certeza é o seu trabalho e a relação que desenvolveu com Mila, um membro importante do grupo de rebeldes. Atravessadores não podem atravessar a própria sombra, algo considerado um tabu que pode levar ao esquecimento de todas as rotas que eles descobriram até hoje, além de resultados desconhecidos que podem ter efeitos adversos no transgressor. Mas, sua vida toma um rumo inesperado quando ela conhece Alê, um atravessador que a conhece acidentalmente. E Alê atravessou sua própria sombra. O que isso vai significar para Anis?
Essa é uma história bastante simples em sua proposta-base, mas que consegue entregar ao leitor um resultado bastante competente. Toda a questão da travessia é compreendida de forma simples e direta, não precisando de grandes voltas para entendermos. Até porque se trata de uma narrativa centrada na personagem e não no que ela consegue ou não fazer. Seus poderes e o tema do tabu são um algo a mais para que a personagem tome uma decisão acerca de si. A ambientação é fácil de entender também para quem vive no Brasil. Ditadura militar, perseguição aos opositores, força bruta, exílio. Muitas vezes os autores se preocupam em explicar demais o pano de fundo em que sua narrativa se passa. Só que quando se trata de um elemento histórico familiar, basta situar tempo e lugar que o resto o leitor consegue imaginar por si mesmo. Aliás, mesmo que o leitor não fosse brasileiro, a matemática ditadura + violência + opressão fornece os ingredientes necessários para entendermos até mesmo a necessidade de um grupo de resistência. A escrita da Jana está muito gostosa e o leitor consegue devorar a história rapidamente.
Estamos diante de uma personagem que não sabe se consegue seguir em frente. Toda a questão do tabu e o fato de quebrá-lo ou não, coloca tudo o que ela sabe em perspectiva. Ela tem medo de perder a direção rumo àquela que ela realmente gosta. Aquela pessoa que te deu um mínimo de noção de porto seguro. Alê surge como um catalisador, um impulsionador para mudanças. É curioso que a relação com Alê e Mila é mais ou menos explicada e nós conseguimos entender a intensidade de ambas. O que está em jogo é uma segunda chance, uma oportunidade para refazer os caminhos. Sempre encontraremos aqueles que gostamos de verdade, não importa aonde eles estejam. O que Mila precisa fazer é se livrar das dúvidas e questionamentos para que ela possa se atirar no desconhecido. Em nossas vidas, nem sempre teremos respostas prontas e previsíveis o tempo inteiro. Às vezes é preciso apostar. Quem sabe alguma coisa ainda mais doce e gostosa pode vir disso, como um bom sonho de goiabada.
2 - "Não vai ser a primeira, nem a última" (Fernanda Castro) Avaliação: 5 estrelas
Na sala de espera de um bom hospital particular, Laura aguarda os resultados de seu pré-natal para saber o andamento de sua gravidez e tentar ter uma ideia de quando seu filho irá nascer. Mas, a expressão do médico já diz tudo: temos problemas. Isso porque o filho de Laura é meio-demônio nascido de uma noite de amor há muito tempo. O preconceito existente é forte demais e Laura é encaminhada para a saúde pública onde ela espera aflita por um atendimento. Somente sua amiga Ana está ao seu lado, tendo ela sido abandonada por sua família. Os próximos meses de gravidez serão terríveis e veremos como nossa protagonista conseguirá superar os obstáculos para ter seu filho. Com a sombra perene de seu pai ao fundo, silenciosa e estranha.
Segundo conto da revista e consegue superar minhas expectativas. Adoro quando a leitura flui fácil, sem qualquer problema de compreensão. A história é simples de se entender e os elementos mágicos presentes servem para apresentar um drama maior. Um algo mais sobre um problema tão comum entre mulheres. Fernanda fez um ótimo trabalho com o desenrolar da trama, fazendo o leitor se importar com o problema vivido por Laura. Nem sempre autores são capazes de conseguir resultado em um espaço de páginas tão curto. Há também de ressaltar o equilíbrio existente entre os diálogos e as descrições. Um texto fica chato quando tem descrições demais; cansativo, sonolento. Mas, é preciso apresentar ao leitor o que o personagem está pensando, o que ele está vivenciando. Por outro lado, o excesso de diálogo faz parecer que o autor fez a transcrição de uma conversa. O que não é legal. Só que é preciso apresentar o personagem se relacionando com outras pessoas. Obter um meio termo entre essas duas coisas é uma linha bem tênue.
Adorei a temática. É impressionante perceber como a literatura de gênero pode ser empregada em situações tão corriqueiras. A experiência de uma mãe solteira esperando um filho e precisando passar por toda uma série de situações solitárias e constrangedoras é algo que pertence à nossa realidade. Milhões de mães solteiras mundo afora passam por isso todos os dias, em diferentes níveis. Fernanda conseguiu traduzir até mesmo o constrangimento da consulta com um ginecologista. O quanto uma mulher se sente frágil e desprotegida dentro daquela situação. A falta de apoio dos pais, por mais que a personagem tenha brigado ou se desentendido com eles, faz uma grande diferença para ela. Se Laura tivesse tido o apoio de sua mãe para passar por aquela situação, talvez ela não tivesse sentido tamanha insegurança ou solidão. O pai da criança me fez pensar em pais que ou abandonaram seus filhos ou possuem trabalhos que os mantém longe de casa. Acho que o caso aqui é mais o segundo, até pelo que acontece mais à frente na narrativa. Vamos acompanhando toda a gravidez de Laura, seus medos, suas inseguranças, a amizade de Ana, o preconceito com uma criança que é diferente. Daria até para mencionarmos o último caso também ao pensar em crianças que possuem algum nível de deficiência. Seja em gravidez de risco ou na própria antecipação de uma condição futura da criança.
Recomendo fortemente esse conto e a autora vem fazendo sua escrita se tornar cada vez mais interessante. Fiquem de olho nela!
Uma criança adora brincar em um grande quintal com vários esconderijos a serem explorados. Júlia é uma menina curiosa e um dia ela descobre um buraco na casa. Um estranho lugar que parece respirar por si próprio. Os avós explicam que esse é um buraco que esconde uma espécie de pequena fonte com uma água que nunca se esgota. Passa um tipo de vertente que possui estranhas propriedades mágicas. Mas, como qualquer criança, Júlia rapidamente se esquece do lugar e sua atenção vai se concentrar em outras coisas. Anos depois, seus avós ficam doentes, um com uma doença desconhecida e a avó com Alzheimer. Toda a vida de Júlia, agora adulta, vai mudar e a estranha vertente terá um papel importante nesse processo.
Esse é um belo conto de realismo mágico. Uma história onde as metáforas e simbolismos são mais importantes do que a fantasia em si. O leitor precisa pensar um pouco no símbolo da nascente e leito do rio como se representasse as nossas vidas. O próprio ato de respirar como o sopro que dá origem às nossas existência e o nascer de uma planta como uma nova vida surgindo. Convido o leitor a ser atento nas linhas da história contada por Andrezza e perceber os pequenos detalhes e mensagens escondidos nas linhas. Aliás, fica a minha sugestão para uma segunda leitura do conto para que as mensagens que não foram completamente absorvidas pelo leitor fiquem mais claras. Esse é daqueles contos que ganham novos significados a cada nova leitura. Nossas existências são tão efêmeras que podemos ser vítimas de alguma estranha doença a qualquer momento. O que aconteceu ao avô de Júlia é apavorante e nos faz pensar em o quanto somos frágeis. Mas, como um rio, deixamos parte de nós para trás, alimentando e irrigando novas existências, capazes de dar continuidade ao que criamos. O que significa uma vertente de água que nunca acaba? Aonde leva o buraco onde essa vertente se encontra? Leiam esse conto e descubram!
6 - "Ith" (Ariel Ayres) Avaliação: 4 estrelas
Myl é membro da tripulação de uma nave a serviço da Rainha. E ela está furiosa com a ação de rebeldes. As forças especiais da Rainha detectaram uma de suas principais bases no planeta Ithvaraya (vamos chamar só de Ith, tá) e cabe a essa nave lidar com o problema. E lidar com ele de uma forma permanente. Para isso eles vão contar com uma arma de destruição planetária. Um botão e booom... problema resolvido. Mas, para Ith isso é algo terrível. Imagine acabar com a vida de milhões e milhões de pessoas? Como alguém consegue ficar com isso na consciência. A capitã Yaegin é a responsável pela nave e vai cumprir a sua missão. Não importa o quanto Myl reclame. E será que os rebeldes ficarão quietos enquanto suas vidas são decididas ao apertar de um botão?
Essa é uma história curtinha com um tema básico que é o de possuir armas de destruição em massa e manter as vidas das pessoas em jogo com um simples gesto. É uma longa (ou nem tão longa assim) digressão acerca da ética da posse de armas. Nesse sentido o autor conseguiu abordar bem, sob todos os ângulos, a hipótese a qual ele apresentou. Usando a ficção científica, ele nos colocou quanto poder e responsabilidade se encontram nas mãos de poucas pessoas. Óbvio que vamos pensar sempre na nossa realidade contemporânea, mas me veio à mente imediatamente o desastre da Baía dos Porcos, no final da década de 1950 em que a Guerra Fria acabou escalando vários tons por causa de um ataque desastroso dos norte-americanos em Cuba e que fez a União Soviética, à época aliada do regime revolucionário cubano, quase colocar o dedo no gatilho e disparar suas armas nucleares contra os EUA. Esse tipo de poder e responsabilidade não deveria estar nas mãos de ninguém. Até porque não sabemos a índole daquele que se encontra do outro lado da sala. Em mãos erradas, grandes poderes podem gerar destruições terríveis; basta ver o que homens brutos como governantes com sede de poder são capazes de fazer.
Gostei da história e a virada narrativa no final é daquelas de te dar uma bela de uma rasteira.
A imortalidade agora é possível. Permanecer vários anos vivo deu aos humanos uma capacidade de não mais se preocupar com seus problemas. Morrer é um fato tolo que vem quando as pessoas simplesmente se cansaram de sua existência e decidiram pela eutanásia. Nossa protagonista é uma pessoa que vem de uma família simples e cujos pais se decidiram por partir depois de mais de duzentos anos de existência. Ela não quer deixar nada seu para trás: nenhum filho, nada que possa ser parte dela. O motivo para isso está em sua própria longa vida. Ela experimentou tudo o que poderia e mais um pouco. Se casou muitas vezes, encontrou e perdeu o amor. Vagou por vários lugares buscando respostas para perguntas que não possuíam resposta. E ela fez uma descoberta terrível acerca de um procedimento que ocorreu durante sua adolescência que fez todas as suas escolhas de vida mudarem radicalmente. Que segredo se esconde por trás da ressurreição?
Fabiane Guimarães nos apresenta uma sociedade decadentista onde o brilho e a esperança das coisas desapareceram diante de uma sociedade estagnada. Não ter mais um limite para sua existência fez o lado mais obscuro do ser humano despertar. O lado menos criativo e imaginativo. A protagonista é um produto dessa sociedade e ela tenta encontrar uma motivação para seguir em frente. Ela apresenta toda a sua experiência de vida como se fossem dados em uma ficha técnica. A autora consegue traduzir bem em suas linhas esse tédio, essa falta de vontade de seguir em frente. O quanto a personagem foi afetada pela descoberta que fez, traduzindo-se em relacionamentos efêmeros e em vivências que estavam ali apenas porque sim. Ressurreição me fez pensar nos artistas decadentistas do século XIX ou até em O Retrato de Dorian Grey. O quanto a vida perde o sentido porque ela não é mais finita. E a descoberta feita pela protagonista é como o quadro que Dorian esconde no porão, sendo que a diferença é que ela decidiu tentar fazer algo para mudar sua realidade. Descobrir a tornou envergonhada acerca de si e em como a sociedade tocava sua continuidade.
Esta é uma bela história que nos faz refletir sobre a importância da finitude de nossas vidas. Muitas vezes reclamamos que a existência humana é curta por demais por tudo aquilo que desejamos fazer. Mas, será que se tivéssemos vidas mais extensas, nossa criatividade se manteria? Ou seríamos apenas um bando de sacos de carne existindo sem sentido ou motivação? Alguns filósofos alegam que o ser humano consegue alcançar seu máximo potencial justamente por imaginarem sua vida como sendo finita e tendo um prazo de validade. É uma discussão possível e que provavelmente fará parte do futuro.
8 - "Dias de pouco pão e zero sonho" (Saskia Sá) Avaliação: 5 estrelas
A loja de artigos exóticos de Damiana negocia produtos de todo tipo: espelhos mágicos, livros demoníacos, artefatos amaldiçoados. É um lugar onde esses objetos eventualmente vão parar em busca de novos donos. E em busca de manter o seu fascínio e terror sobre as pessoas. Um dia, uma jovem professora entra na loja e logo de cara Damiana já sabe que um dos artefatos mais cruéis, a caixa com a serpente Ouroboros, irá para as mãos dela. Mas, o rosto da professora desperta sentimentos há muito escondidos no coração de Damiana. Algo que ela não sabe explicar e a faz querer fazer alguma coisa para ajudá-la. Só que em sua loja e diante de tantos objetos de tamanho poder místico, ela não pode interferir. E agora? É então que Damiana decide seguir a jovem e observar o desenrolar dos acontecimentos. E se decidir agir ou não, eventualmente.
A escrita da Saskia Sá é muito bonita. A gente percebe a preocupação na escolha de palavras e em como estas fazem total sentido uma após a outra. Algumas construções frasais vão parecer estranhas, mas é engano seu: elas estão corretas. Você, leitor, é que precisa entender o ritmo delas. A narrativa é bastante intimista e segue impressões e sentimentos vividos pela personagem ao observar aquela a qual ela desenvolveu uma preocupação. Damiana é como uma expectadora e Saskia subverte a ideia do personagem-orelha. Nesse caso é como se a vendedora fosse a narradora da história e nos contasse em detalhes tudo aquilo que está observando a respeito daquela que está sendo observada. O elemento mágico é explicado com calma e tranquilidade, sem entrar em detalhes. O leitor sabe que aquilo é perigoso e até deduz o que possa vir a causar.
Na temática, nos deparamos com as dificuldades vividas por uma mulher que decide viver de sua arte. É curioso o quanto Saskia aborda tangencialmente o assunto e o leitor consegue intuir direitinho aonde ela deseja chegar. Ou seja, não é necessário o autor explicar detalhadamente qual o tema da história. Uma das magias da escrita é ser capaz de fazer o leitor caminhar através de seus próprios pés e chegar às próprias conclusões. A vida de uma poetisa é complicada, principalmente em um mundo tão machista quanto o nosso. Perder o espaço para o homem cis hétero capaz de fazer uma poesia meia sola, mas ter aquele sorriso perfeitinho que agrada às mulheres e o faz ser o boêmio aceito pela grande crítica. Enquanto isso, outras mulheres precisam fazer o dobro ou o triplo do esforço para alcançar metade do reconhecimento. Isso desanima muitas que entram por esse caminho. E tais obstáculos provocam depressão, dúvidas e angústias que podem acabar por ceifar suas vidas.
Fico contente de que esta bela história da Saskia sobre produção literária feminina seja a última desta coletânea. Pensem que a primeira edição da Suprasuma começou com um conto de uma autora que, mesmo jovem, já é alguém com sucesso e respeito tanto no Brasil quanto fora dele e termine com uma pessoa que nunca li nada a respeito, mas sei que é alguém que está em um grupo de escrita criativa ao lado da Jana. Já quero ler mais coisas da Saskia e sua bela escrita poética e intrigante.
É aquela coisa, se pré tem os contos que ressoam melhor com a gente do que outros. Teve um ou dois que achei fraquinhos, mas é questão de gosto. Meus favoritos foram o primeiro que eu já esqueci o nome e "Um ajuste de ponteiros".
Gostei da ideia da revista, mas os textos são muito curtos. As histórias em geral não chegam a se desenvolver adequadamente ao ponto de permitir um engajamento mínimo do leitor, apesar das excelentes premissas. Parece que a introdução de cada conto é suficientemente realizada para, na sequência, desaguar muito rapidamente em seu encerramento. Em resumo, porém, eu gostei dos autores, das premissas e queria ler mais.
Eu sou fissurado por livros que reúne vários autores. Colabora demais pra gente conhecer novos nomes e ler a 1º edição da Suprassuma só me deu vontade de ler as próximas e aguardando já a 2º por sinal.
Vários contos ótimos, o conto sobre a vida eterna, que me fugiu o nome agora, é ótimo e me fez refletir sobre a. Importância do agora para nossa realidade.
4,5 ⭐ Contos muito interessantes e escritores talentosos. Todos souberam levar a história de maneira a criar curiosidade, a fazer pensar e imaginar sobre as partes não ditas. Alguns gostei mais que outros mas por conto do meu gosto pessoal. Mas todos são interessantes ao seu modo e nem escritos. Vale a pena ler para conhecer um pouco da escrita desses autores.
O destino não é um endereço by Jana Bianchi - 3,5/5 Não vai ser a primeira, nem a última by Fernanda Castro - 4/5 Um ajuste de ponteiros by Moacir Fio - 3,5/5 Orvalho flamejante by Giu Yukari Murakami - 4/5 Vertente by Andrezza Postay - 3,5/5 Ith by Ariel Ayres - 4/5 Ressurreição by Fabiane Guimarães - 3,5/5 Dias de pouco pão e zero sonho by Saskia Sá - 2,5/5
4.5 gostei de todos os contos, alguns um pouco menos, mas são todos muito bem escritos e únicos! meus favoritos (na ordem que aparecem na revista): - não vai ser a primeira, nem a última - um ajuste de ponteiros - orvalho flamejante