Homem de zelo, bom senso e um sentido apurado para os negócios, Mário Malheiros não admite imponderáveis desvios à rota de sucesso que iniciou no Algarve, território ainda quase inexplorado mas de extraordinárias promessas. Até que um dia avista a misteriosa casa do mirante, um lugar encantatório a que não pode fugir e onde as regras já não serão ditadas por si. «Portanto, havia uma mulher e uma casa, ambas para ele belíssimas, que tinham surgido no seu caminho, por mero acaso, dezoito anos antes. Havia um marido, irresponsável e nada ciumento, de quem ela gostava acima de tudo no mundo. Havia um filho, o rapaz que acabava de trazer os livros, que lhe chamava o Senhor d’Além, que fora um protagonista importante do enredo e que agora parecia estar a dominar a história. E por último ele, que passara de herói a vilão e carregava a culpa de todos os infortúnios.
Nasceu em 1945 e é licenciada em Direito e também em Românicas, tendo exercido a actividade de conservadora do Registo Civil. O seu nome literário é um pseudónimo, desconhecendo-se o ser verdadeiro nome.
A sua estreia literária ocorreu em 1981, com «Jacobo e Outras Histórias, tendo então recebido o Prémio Literário Círculo de Leitores. Apenas em 1990 publicou novo livro, «O Último Amante», a que se seguiu «História da Bela Fria» (1992), com o qual venceu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco e o Prémio P.E.N. Clube Português de Ficção.
Ainda na década de 90 do século XX, escreveu «A Paz Doméstica (1999), o seu único romance. Nos últimos anos publicou «As Enganadas» (2003) e «Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín (2008), vencendo, novamente, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
A narrativa é passada em terras algarvias, para onde o notário Mário Malheiros se muda e onde se dedica também ao ramo imobiliário. Nas suas deambulações em busca de imóveis, depara-se com a bela Casa das Palmeiras e com a proprietária Célia. Ao longo de 27 anos esta casa irá de alguma forma fazer parte da vida deste homem e nós acompanhamos a sua história.
Existe uma lenda que nos fala de um Senhor d'Além, que surgiu quando um crucifixo foi pescado no Rio Douro. Para os habitantes do Porto a imagem, que estava além, na outra margem, passou a ser conhecida pelo “Senhor d’Além” a quem os moradores da cidade passaram a recorrer, pedindo proteção, em situações de grandes calamidades. Nesta história, o "Senhor d'Além" chama-se Júlio Moreira (mais conhecido como Mário Malheiros), e durante alguns anos foi o anjo protector de Célia, uma mulher intensamente apaixonada pelo marido Eliseu e profundamente marcada por um acontecimento trágico.
Gostei da escrita e da forma como a história é contada sem muitos rodeios e com grandes saltos temporais, o que nos permite passar pela vida de Mário Malheiros em pouco mais de 100 páginas. Peca, no entanto, por alguma falta de aprofundamento da vida interna das personagens. Fiquei com vontade de saber mais sobre a Célia e sobre os filhos. Será que ela é mesmo como a descrevem? O que terá ela pensado e sentido nas diversas situações por que passou? Sinto que conheci a vida destas personagens, mas que não os conheci verdadeiramente, não entrei no seu mundo interior, mas confesso que tive muita vontade de entrar...
Citações: "No tempo em que o turismo de praia dava os primeiros passos e cada vez mais famílias aspiravam a ter uma casa à beira-mar, um homem, com alguma fortuna pessoal, foi nomeado notário do cartório notarial de Portimão e não tardou a aperceber-se de que caíra no meio de uma mina de ouro ainda quase desconhecida que teria todo o interesse em explorar. Primeiro deixar-se seduzir pela terra, pelas árvores, pelo azul do mar, pela leveza do ar e do céu. O contacto com aquela gente com fama de rude e pouco hospitaleira também se revelou extremamente fácil e, só vendo vantagens na sua nova vida, já não imaginava ser possível conceber a existência noutro lugar."
"E, ao evocar esse momento, não resistiu a contar ao notário um segredo que mais ninguém sabia pois até ali só o tinha confiado ao vento: estava grávida, uma dádiva inesperada depois de anos de frustração, e só se espantava de a sua aparência ser a mesma e de o seu coração bater normalmente quando por dentro se sentia outra, infinitamente mais leve e mais forte, mais livre, mais audaciosa."
"Tal como da primeira vez avistou-a à distância mas quase simultaneamente foi acometido de uma impressão estranha, como se uma voz interior o advertisse de que não era a mesma casa que ia ver. De facto continuava a ser o cubo de dois pisos encimado pelo mirante no terraço da cobertura, mas as semelhanças acabavam aí. Parecia que tinha passado um século e não apenas nove anos desde que ali estivera, ou que um conjunto de catástrofes naturais se abatera sobre ela, precipitando-a no estado de decadência em que se encontrava."
"No meu caderno de notas, copiei ontem está frase: 'Ninguém quer morrer antes de estar gasto e carregado de anos. Ressequido de sofrimento e queimado de prazer.' Acho que vou ter de me apressar se não quiser chegar cedo de mais ao meu fim."
«Ninguém quer morrer antes de estar gasto e carregado de anos. Ressequido de sofrimento e queimado de prazer.», p. 124
Uma casa, um homem e uma mulher, uma biblioteca, no Algarve, são a paisagem deste conto alargado. A solidão perpassa por todas as páginas, mesmo quando as personagens estão em festas, mesmo quando o casal está nos paroxismos do amor. Mesmo quando a vida parece estar no fim sem se ter consumado plenamente. Este é um romance para ler e reler, pelos múltiplos sentidos que encontro sempre que releio as minhas páginas preferidas.
Para mim, esta obra valeu pela viagem, mas deixou-me um sabor agridoce à chegada ao destino. Confesso que não compreendi a história na sua totalidade e fechei a última página com bastantes dúvidas. O ambiente transportou-me para "Great Gatsby" com aquelas festarolas na mansão. Não consegui sentir empatia pelo personagem. Achei a capa muito bem conseguida. Preciso ler mais desta autora.
Adoro a escrita da Teresa Veiga, mas este livro ficou um pouco aquém para mim. A história pareceu-me pobre, com um esmero e dedicação excessivos na descrição de espaços.
Este é o segundo livro que leio de Teresa Veiga e é o segundo que me deixa com uma sensação de expectativa, quero sempre mais do que a história me dá.
Mário Malheiros é o protagonista da nossa história. Um homem muito bem sucedido. Um dos primeiros a descobrir o potencial imobiliário para turismo no Algarve. Todos os dias procura novas oportunidades até que descobre a casa do almirante. É maravilhosa, quer comprá-la mas tem dono… ou dona.
É um livro interessante essencialmente pela escrita da Teresa, que gosto especialmente, e não tanto da história em si. Até porque não identifico muito concretamente um fio condutor, onde é que a autora nos quer levar com a informação que nos dá.
Para além disso realço as edições lindíssimas da @tintadachina , são sempre maravilhosas, tanto por fora. Aproveito para novamente, agradecer a cedência deste exemplar. 😍
Vou continuar a ler Teresa Veiga, quero que o próximo seja “gente melancolicamente louca” que me têm aconselhado muito!
Teresa Veiga é uma das minhas escritoras preferidas. Uma daquelas que compro sempre. Nesta pequena novela a autora transporta-nos para um Algarve em crescimento urbano e turístico. Mas não é de todo sobre especulação imobiliária o fulcro deste livro.
Eu diria que o tema central do livro é o desengano amoroso e relacional que se plasma numa obra cheia de detalhes que mostram a maestria da autora.
Veja-se o desengano com a (in)finitude amorosa neste pedaço:
“Também se engana se imagina que não se consegue deixar de amar completamente alguém, ou erradicar por completo a lembrança desse amor, a não ser que tivesse sido tudo uma mentira. O tempo tudo resolve e, de tanto querermos esquecer, esquecemos mesmo. Felizmente que depois das ideias rancorosas e mesquinhas, das recriminações, das mágoas inúteis, percebemos que é da natureza do amor esvair-se sem deixar rasto”
Ou o desengano sobre o sentido da vida nas últimas palavras do livro...
"No meu caderno de notas, copiei ontem esta frase: 'Ninguém quer morrer antes de estar gasto e carregado de anos. Ressequido de sofrimento e queimado de amor.' Acho que vou ter que me apressar se não quiser chegar cedo de mais ao meu fim."
Um detalhe sobre a edição. A capa, design da Vera Tavares, reproduz com uma beleza e na perfeição um pedaço do livro.