Isildinha Baptista Nogueira é uma pioneira. Foi das primeiras a abordar com o instrumental psicanalítico tanto a dimensão sociocultural como subjetiva da condição de negro no Brasil e a primeira a incluir a discussão do corpo. Num trabalho que traz muito de um profundo mergulho em si mesma, na condição de mulher, negra e brasileira, ela delineia as muitas amarras que interditam o desenvolvimento da pessoa, a autodepreciação e processos autodestrutivos culturalmente introjetados numa sociedade racista. Se o inconsciente traz as marcas das memórias da formação de todos, como dizia Freud, as vivências díspares, de valoração oposta, de negros e brancos, mostram que, sim, na subjetivação dos corpos brasileiros, pode-se dizer que ele tem cor. É cavando fundo nas neuroses nossas de cada dia que A cor do inconsciente: significações do corpo negro expõe as raízes do racismo entranhado e que, apequenando os indivíduos que o sofrem, amesquinha os que o exercem – e envenena o país.
Isildinha Baptista Nogueira é psicanalista e vive em São Paulo. É mestre em Psicologia Social pela PUC-SP e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP. Fez sua formação nos Ateliers de Psychanalyse, em Paris, com Radmila Zygouris (uma das fundadoras da instituição) e estagiou com Felix Guattari no La Borde.
Quarto livro que termino em menos de 24 horas que eu estava enrolando há tempos para terminar, mas o espaço de meses e um grupo de estudos de um livro que precisa ser degustado saborosamente de autoria da seminal autora a pensar a negritude dentro da psicanálise é para se dar tempo ao tempo. Fundamental de cabo a rabo nas citações pertinentes e nas interpretações clínicas, talvez seu único pecadilho seja um problema da psicanálise em geral: botar na conta da mãe um excesso de culpa. Claro, a Isildinha analisa de forma brilhante o racismo estrutural, mas talvez o racismo introjetado dentro das famílias negras não seja tão contumaz quanto na época em que a autora escreveu o livro, o empoderamento e orgulho preto são muito mais pronunciados hoje, portanto, indicaria que se lesse essas partes com a devida contextualização histórica como qualquer texto de psicanálise deve ser lido.