Uma viagem ao fantástico, guiada pelas crenças e narrações orais que fazem parte da cultura e identidade de um povo predominantemente campesino e rural; uma viagem que consagra o conceito de mitologia popular como sistema de pensamento construído pela memória colectiva na base de antigas tradições cristãs e pagãs com o seu elenco estereotipado de seres sobrenaturais.
Almas penadas vagueando nas montanhas, bruxas dançando nas clareiras, lobisomens que cumprem terríveis fadários, encontros sombrios entre mortos e vivos, vinganças do Além, demónios tentadores que constroem pontes, olharapos que infernizam pastores, apelos de mouras nas ruínas de velhos castelos… são alguns exemplos dos enredos misteriosos que encontrará neste livro.
Alexandre Parafita (natural de Sabrosa, 1956) é um escritor português, com raízes transmontanas, com extensa obra publicada sobre o património e tradição oral portuguesa, bem como no domínio da literatura infanto-juvenil. Professor universitário, é doutor em Cultura Portuguesa e mestre em Ciências da Comunicação (especialidade de Antropologia da Comunicação)
Compilação interessante, com um bom prefácio e uma introdução útil! Há uma certa repetição de histórias e lendas mas isso é de esperar. A única coisa que poderia melhorar era a exploração de outras regiões já que a grande maioria é retirada da mesma região, se bem que é provavelmente devido a uma maior tradição mitológica e supersticiosa do nordeste do país. Uma leitura divertida, e um bom arquivo de algumas tradições e costumes que já se começam a perder!
Desiludiu-me um pouco, pensei que tivesse mais conteúdo. Quase todas as lendas são da mesma região do país, e tem apenas 8 tipos de "criaturas miticas".
Boa leitura porém o título induz em erro. Quase todas as narrativas apresentadas foram recolhidas em Trás-os-montes. Enquanto objecto as questões de design e ilustração não satisfazem.
Comprei este livro a propósito do Clube de Leitura do Refúgio da Bruxaria, no qual tenho participado activamente e o melhor possível. Não foi o livro que tinha escolhido para estes dois meses, mas acabei por ficar agradavelmente surpreendida.
Trata-se de uma recolha de histórias da cultura oral portuguesa, obtidas junto de professores, padres e pessoas que as conheciam, que - com muita pena minha - na sua maioria estavam remetidas a lares de idosos e centros de dia. Imagino que muitas delas já tenham falecido, o que me causou um certo desconforto.
Com uma linguagem puramente académica, não diria que este é um livro especialmente acessível. No entanto, as histórias são extremamente interessantes e curiosas. E o mais curioso é que, nelas, encontro paralelos para uma certa bruxaria tradicional e folclórica do resto do mundo.
Por exemplo, na secção das bruxas, achei altamente curioso que na tradição portuguesa elas se transformem sobretudo em patos. Noutras culturas transformar-se-iam em coelhos ou outros mamíferos. Qual será a simbologia do pato neste contexto? Uma simbologia de fertilidade e relação com os três elementos? Também nesta parte achei curioso que histórias referissem o "beijo no cu da rainha das bruxas", que também aparecia em relatos de vítimas da inquisição em séculos muito passados.
O mesmo acontece na secção dos diabos, em que as suas descrições (roupas esquisitas, etc.) também correspondem a esses relatos. Também achei curioso que o diabo não apareça como um ser místico de pura maldade, mas sim como uma oposição ao bem, como o outro prato da balança. Sendo balança, tem um sentido de justiça e, nestas histórias, muitas vezes corrige os erros dos homens através dos seus poderes.
Já a secção dos trasgos envia-me para um ser do folclore brasileiro, saci-pererê. Com as suas diferenças, é também um espírito traquina que faz malandrices na casa das pessoas, e também se veste com um gorro vermelho. O mesmo país tem também um lobisomem, que se cura com um "espinho de laranjeira no lombo", o que é muito semelhante à cura portuguesa (picar uma parte do corpo). No entanto, achei muito interessante que os lobisomens portugueses se transformem sobretudo em cavalos e outros animais que correm, para correr o fado o mais rápido possível. Qual será este símbolo?
Finalmente, as mouras encantadas foram o objecto mais curioso da leitura, porque conhecia muito pouco das suas lendas. A sua imagem, da cobra com cabeça de mulher, lembra-me a nure-onna japonesa, embora as suas actividades sejam diferentes.
Enfim, este livro levantou-me uma questão que penso pertinente: será que as criaturas do folclore mundial representam um conjunto de medos e ansiedades comuns a toda a humanidade? Ou, existindo realmente, serão como espécies diferentes do mesmo genus, adaptadas ao ambiente em que estão?
Figura incontornável no folclore mitológico, Parafita faz uma análise profunda, de um tópico que é bem mais profundo do que onde este livro chega. O livro "A Mitologia Portuguesa", afinal, é a "Mitologia Transmontana". E nem toca em todas as nuances e criaturas mitológicas deste património, ainda que as que toca sejam bastante aprofundadas. Assim, várias vezes fica difícil de compreender porque essencialmente a mesma estória, da mesma região do país, é "repetida" em detrimento de outras regiões, outras estórias mais distantes, num tomo com este título. Outra tineta que tenho com o livro é o autor auto-referenciar somente as suas obras ao invés de referenciar a origem do trecho que cita, obrigando deliberadamente o leitor mais interessado a consultas múltiplas. Ainda assim, é uma adição importante, ponderada, sagaz e bem organizada, a este tópico.
Uma curiosa compilação de contos que tem todo o seu valor não só pelo tempo que demorou a recolher a sabedoria de várias gentes, mas também a percorrer os vários locais onde estas histórias se contavam e se tornaram parte da cultura.
É muito engraçado ver como localidades diferentes partilham os mesmos elementos na sua ficcção. Contudo, a nível da leitura (e acredito que também a nível da escrita), ler a mesma história uma e outra vez tem o seu peso.
De qualquer das formas, os prós sobrepõem-se aos contras e está aqui uma excelente obra que merece estar na colecção de todos os fãs do Portugal místico.
"Mitologia Popular Portuguesa" engloba várias estórias populares do norte de Portugal que permeiam a imaginação popular desde tempos imemoriais. A apresentação das estórias em capítulos dedicados a criaturas como a Morte, o Diabo, lobisomens, bruxas, mouras encantadas e até o Trasgo (o equivalente aos gnomos e elfos traquinas das mitologias nórdicas), apontam uma luz sobre a mentalidade do povo português e do que a cultura valoriza e teme.
Recomendo imenso para aficionados da nossa mitologia popular!
Um livro que nos transporta a um mundo místico aqui mesmo, enquanto sussurros ancestrais chegam até nós. Isto são histórias que me lembro de ouvir em criança. Para quem quer conhecer mais da nossa mitologia, recomendo.
Gostei bastante da leitura deste livro. A maioria dos contos são referenciados no norte do pais, esperava uma divisão do livro com várias partes do país, quiça um próximo lançamento do autor.
Ia com grande expectativa para ler este livro, mas se calhar fui demasiado inocente. O livro apresenta-nos, numa primeira parte, certas figuras mitológicas folclóricas (o diabo, as moiras encantadas, duendes domésticos, etc.), explicando o que são e o que fazem. Na segunda parte, temos um conjunto de relatos de lendas e historietas contadas por populares do norte e interior de Portugal sobre essas mesmas figuras. Está um livro interessante, mas esperava antes um relato de tradições pagãs portuguesas e encontrei histórias carregadas de moral católica (as figuras folclóricas são sempre "más" e é sempre preciso "chamar o padre" para ajudar). Mas a culpa foi minha, por achar que mitologia popular neste país seriam histórias fantásticas sobre paganismos.