Este livreto é uma grata surpresa! Ele é, na realidade, um formato em livro das conversas que foram, originalmente, conversas do videocast do Rodrigo Bibo no YouTube. A escolha da epístola aos Filipenses dentro do contexto da Pandemia de COVID-19 foi fenomenal e há aprendizagens muito interessantes ao longo do livro.
O que me chamou também a atenção foi o fato de eu estar lendo obras apologéticas contra o catolicismo romano e esse livro permitiu ver, ainda que não fosse a intenção, de forma clara, aspectos do pensamento reformado em contraste com os mantidos erros do catolicismo romano sobre origem da igreja, formação do cânon, etc., tudo de forma simples, ao analisar a própria epístola aos filipenses.
O começo é bem detalhado, mostrando como é o gênero textual de uma carta/epístola no período clássico, mostrando também como essas cartas apostólicas já eram lidas pelas comunidades cristãs primitivas, ou seja, com o tanto de manuscritos de cartas que temos e a prova dessa circulação já durante a era apostólica, fica fácil de compreender por que o protestantismo defende que as comunidades sabiam quais eram os escritos apostólicos e os utilizavam em seu meio com os apóstolos ainda vivos. Desse modo, cai por terra, de forma simples, a ideia romana de que foi a ICAR quem "criou a Bíblia" por meio do Concílio de Hipona. Além disso, vemos novamente o argumento do reconhecimento dos escritos de Paulo como sendo comparáveis com o AT da época (Escrituras) por Pedro, ou seja, Pedro deixa no texto um elemento de peso para entendermos que os apóstolos estavam cientes de que produziam Escritura como os profetas do passado haviam produzido.
Um dos pontos de curiosidade mais interessante que vi no texto foi a explicação sobre a saudação de Paulo: Graça e Paz. Vale a pena essa parte ao explorar o grego e o hebraico, o fato de ambos termos serem tanto de saudação nessas duas culturas, como o fato de ambos representarem termos-chave na teologia paulina.
Por fim, o texto vai falar magistralmente sobre alegria e tristeza, sobre ansiedade, sobre rusgas no seio das igrejas, sendo esse tópico muito bom, pois quebra a ideia que temos de que as comunidades cristãs primitivas eram mais puras do que hoje em dia, pois idealizamos as igrejas antigas como sendo mais unidas ou coisa assim, mas eles também tinham seus desafios e problemas e vemos nas cartas como os apóstolos os encorajavam a mudar de atitude.
A palavra "atitude" é bem trabalhada também. Há bons momentos em análise de termos gregos do NT e isso ajuda muito a melhor compreendermos a cultura e situação-contexto daquela época. Os participantes até elogiam a tradução da NVT para usar o termo "atitude", uma vez que um dos seus sentidos correntes faz bastante sentido com a ideia do original grego (eles usam a Bíblia de estudo NVT).
A parte final fala muito da unidade da igreja e há pérolas maravilhosas. O apêndice "Como resolver tretas na igreja" tem análises muito boas por parte do Carlos "Cacau" Marques.