Esse excelente livro de autoria da respeitada e premiada jornalista e escritora Daniela Arbex, mineira de Juiz de Fora, nascida em 1973, teve excelente retorno de público e de crítica desde que foi lançado originalmente em 2022. E a fama do livro é mais do que justificada e todos que o leram não saíram incólumes em função da precisão e da contundência do relato.
“Arrastados”, vencedor do Prêmio Vladimir Herzog 2023, narra com linguagem jornalística que prima por uma objetividade eivada de emoção e indignação de forma bem detalhista as causas fundamentais, os imprescindíveis bastidores e, como não poderia deixar de estar presente na obra, os desdobramentos humanos, materiais, econômicos e ambientais do rompimento da barragem de rejeitos de minério, oficialmente desativada, de Brumadinho, ocorrido no ano de 2019. Essa grande tragédia que marcou tristemente o dia 25 de janeiro de 2019, resultou do rompimento da barragem de rejeitos de minério B1 da Mina do Córrego do Feijão explorada pela mineradora Vale na cidade de Brumadinho, interior do estado de Minas Gerais. As toneladas de lama altamente tóxica que se derramaram a uma velocidade inicial de 108 quilômetros por hora se espalharam por mais de trezentos quilômetros e trituraram em seu devastador caminho árvores, animais, pontes, trens de carga, torres de transmissão, casas, veículos e 270 vítimas fatais (272 se levarmos em consideração que entre essas vítimas encontravam-se duas mulheres grávidas) e um sem número de feridos, traumatizados e famílias devastadas e mutiladas em função de perdas que indenização alguma pode reparar. Existe um projeto, em andamento, a cargo da Globoplay, de adaptação do livro para uma série de TV. A autora, em função dessa obra, venceu o prêmio Wladimir Herzog em 2023. Nos dias de hoje Daniel Arbex dedica-se integralmente à literatura.
No prefácio de “Arrastados”, Pedro Bial, carioca nascido em 1958, jornalista, produtor, diretor, escritor e apresentador, escreveu o seguinte:
“Um novo livro de Daniela Arbex já seria notícia por si só. Entre nossas mais brilhantes repórteres investigativas, de independência única, ela não gasta palavra. Sua nova obra supera as melhores expectativas. Quando tal trabalho é apresentado como “livro-monumento”, acredite, não há pretensão. Trata-se do duplo papel que cumpre uma das maiores reportagens já realizadas no Brasil: memorial em narrativa, narrativa memorial, donde, documento”.
Daniela Arbex, à exemplo do que fez no também excelente “Holocausto Brasileiro” descreve a tragédia com grande rigor jornalístico e dramaticidade. Na obra ela faz um levantamento minucioso, fruto de inúmeras entrevistas com sobreviventes, policiais, bombeiros e autoridades, das horas que antecederam o rompimento, reconstitui com precisão a tragédia em si revela de forma estarrecedora no capítulo “Tragédia anunciada” que a Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, poderia ter evitado a tragédia se tivesse levado a sério os alarmes oriundos das empresas que monitoravam a segurança da barragem. A autora chega a especular com muita autoridade que a empresa, temendo a paralização da produção e a consequente queda dos lucros, ignorou propositalmente os riscos.
Vale a pena reproduzir um trecho desse capítulo:
“Fato é que, a partir de todas as informações levantadas pela força-tarefa, foi possível resgatar os capítulos que antecederam o maior desastre humanitário do Brasil. De novembro de 2017 até o fatídico 25 de janeiro de 2019, a barragem deu indiscutíveis sinais de alerta. Todos, porém, foram tratados apenas em âmbito interno. Os acionistas da mineradora, o poder público e a sociedade não tiveram acesso às informações sobre os riscos reais relacionados à barragem de rejeitos 1 (B1)”. Pág 251.
Impressionante também é o ocorreu com Olavo Henrique Coelho, auxiliar técnico operacional com 35 anos de experiência na Vale. Chamado às pressas, meses antes do rompimento, para tentar “salvar a barragem” que já dava sinais inequívocos de rompimento, chegou a avisar de forma peremptória e profética seu filho, Fernando, 18 anos na Vale, que tomasse cuidado sete meses entes do rompimento:
“Fica beirando a barragem, não, porque isso aqui está igual a uma bomba: vai estourar a qualquer hora. Não tem mais jeito. Acabou”. Pág 252.
Fernando sobreviveu. Olavo não.
Outro aviso com ares proféticos foi dado pela engenheira da Vale Cristina Malheiros que informou a uma amiga também funcionária da empresa em meados de 2018, via WhatsApp o seguinte:
“Reza.... deu ruim lá de novo. Não estou brincando. A água está passando por cima da sacaria de areia que fizemos. Reza amiga”.
Não há como se indignar com a omissão criminosa da empresa.
Faço apenas uma ressalva a “Arrastados”.
Daniela Arbex, creio, se deixou envolver demais com as tragédias pessoais resultantes do rompimento da barragem B1. O seu tom é, a meu ver, em alguns momentos, excessivamente melodramático. Em “Holocausto Brasileiro” ela conseguiu fazer um relato preciso revelando o tamanho daquela tragédia humanitária mas conseguiu manter um distanciamento crítico maior da questão dos “alienados” e “alienadas” que permitiu ao livro uma maior robustez no que diz respeito à análise das causas e dos desdobramentos da questão por ela analisada. Já em “Arrastados”, talvez pela proximidade da tragédia, contemporânea da autora assim como todas as pessoas a quem ela entrevistou, ela se envolveu demais e esse envolvimento em demasia, “melodramatizou” sobremaneira o seu relato em vários momentos.
Mas essa ressalva não desmerece o livro em hipótese alguma.
Afirmo, inclusive, que se trata de leitura obrigatória para todos aqueles e aquelas com ainda um pouco que seja de sensibilidade, mesmo em tempos tão cínicos, e que valorizam a segurança e o respeito à vida que tem que ser mais importante do que o lucro.
É oportuno reproduzir o fechamento do capítulo “O que importa é o lucro” onde a autora afirmou de forma contundente que:
“Apesar de todo o dinheiro gasto até agora, a multinacional não conseguiu dar resposta para a questão mais pungente gerada pelo rompimento da B1 em 25 de janeiro de 2019: a perda de vidas humanas. Não existe reparação para a morte”.
Ótima pedida!