# Mothering May
Ainda que 50 anos os separe, é inevitável não pensar em Annie Ernaux quando se lê Édouard Louis. Ambos oriundos do norte de França, ambos a usarem o filão da vida familiar na sua obra autobiográfica, ambos trânsfugas da classe social em que nasceram.
“Lutas e Metamorfoses de uma mulher”, centrado na sua mãe e na relação que teve com ela durante os 15 anos de coabitação, tem como ponto de partida uma foto que ela tirou aos 20 anos, antes do então Eddy nascer, mas já com dois filhos de um casamento anterior.
Disseram-me que a literatura nunca deveria tentar explicar a realidade, apenas ilustrá-la, e escrevo para explicar e entender a vida dela.
Durante a infância e a adolescência, foi difícil a convivência entre Édouard e a mãe, ora porque tinha vergonha dela ora porque tinha vergonha de si mesmo por ser homossexual e querer escondê-lo de Monique.
O que é um homem? A virilidade, o poder, a camaradagem com outros meninos? Eu não tinha nada disso. A ausência do risco de agressão sexual? Eu não estava protegido disso.
Casada já em segundas núpcias com um homem controlador e alcoólico que a humilhava, a situação de Monique piorou quando o marido teve um acidente de trabalho que o incapacitou e, depois, a impediu de fazer uma IVG, trazendo mais dois elementos para a família e atirando-a para a verdadeira miséria, da qual o autor se libertou aos 15 anos, quando foi estudar para a cidade, iniciando assim a ascensão social através de um percurso académico.
Queria usar minha nova vida como uma vingança contra a minha infância, contra todas as vezes em que vocês me obrigaram a ver, meu pai e você, que eu não era o filho queriam ter tido. Eu me tornava um desertor de classes por vingança, e essa violência se somava a todas aquelas que você já tinha vivido.
Quando o destino de Monique parecia já traçado pela infelicidade, pela crescente distância física e afectiva de Édouard e pelo choque de ver os filhos mais velhos a perpetuar a violência doméstica que sempre tinham conhecido (um como agressor, outra como vítima), ela ganha coragem de pôr o marido na rua e dá uma volta de 180 graus à sua vida, passando de patinho feio a cisne.
Ela viu a surpresa nos meus olhos e disse: “Viu, não sou mais a mesma! Agora sou uma verdadeira parisiense.” Sorri, “Sim, é verdade. É verdade, você é a rainha de Paris.”
“Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher” é uma leitura bastante emotiva sobre aquele que é suposto ser o amor mais forte entre dois seres, que é posto à prova pelas circunstâncias familiares e sociais, sobre um caminho de aceitação de si próprio e do crescimento pessoal imprescindível ao perdão.
Quando eu tinha seis anos minha professora a chamou.(…) Eu expressava sonhos e desejos grandes de mais, ambições anormais para uma criança da minha idade. (…) Jurava que quando fosse adulto levaria minha mãe para longe do meu pai e compraria um castelo para ela. Eu adoraria que esta história da minha mãe fosse, de algum modo, a morada para onde ela pudesse fugir.