Quantos já não sonharam em mudar radicalmente de vida? Jogar tudo para o alto e encarar uma aventura louca, irresponsável? Quem sabe, começar do zero? Raul, protagonista de A Segunda Vez Que Te Conheci,de Marcelo Rubens Paiva, não pertence a esse grupo. Ele sempre amou sua profissão, a de repórter de uma conceituada revista. No campo amoroso, também sempre soube o que queria.
Acontece que a vida tinha outros planos para Raul. Primeiro, ele perdeu sua segunda mulher. Em seguida, um sujeito com metade da sua idade o mandou embora da publicação onde trabalhava há anos. O vazio de sua existência, porém, foi rapidamente preenchido por mini-saias, decotes, batons chamativos, celulares que não ficam segundos sem tocar e moças que passaram a ser as suas "meninas". Ele virou o "homem" delas. Leia-se: o seu cafetão.
Para mostrar como um homem apaixonado pela justiça e a ética jornalística se tornou um agenciador de prostitutas, Marcelo Rubens Paiva ajusta mais uma vez seu foco sobre a paradoxal realidade urbana brasileira.
"É sabido que São Paulo tem a maior rede de prostituição de luxo do mundo, maior até do que a de Las Vegas, nos Estados Unidos. Eu sempre tive muita curiosidade sobre esse universo, que está muito entranhado no caráter da cidade. Desde as meninas da Augusta até as prostitutas de luxo das boates dos Jardins, tem de tudo em São Paulo", diz o autor, que conta ter feito muita pesquisa de campo para escrever o livro. "Fiquei conhecendo a fundo esse roteiro do sexo, que passa pela Augusta, pelos flats dos jardins e por bordéis instalados em endereços discretos na Vila Madalena ou em Pinheiros", conta ele.
Sobre a outra temática abordada neste romance, o universo dos relacionamentos contemporâneos explorados também nas crônicas que escreve semanalmente para jornal, Marcelo ressalta que este livro é fruto de uma fase mais madura de sua literatura, sempre tão identificada com o público jovem. "Se por um lado a pesquisa de campo foi suficiente para escrever sobre a prostituição, por outro, precisei chegar aos 50 anos e ter passado por três separações para ser capaz de criar essa história", conta o autor.
Escritor, dramaturgo e jornalista, estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, freqüentou o mestrado de Teoria Literária da Unicamp e o King Fellow Program da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Publicou cinco romances: Feliz ano velho (1982, Prêmio Jabuti), Blecaute (1986), Uabrari (1990), Bala na agulha (1992) e Não és tu, Brasil (1996). Publicou também o livro de crônicas As Fêmeas (1994). Foi traduzido para o inglês, espanhol, francês, italiano, alemão e tcheco. Como dramaturgo, escreveu: 525 linhas (1989); O predador entra na sala (1997); Da boca pra fora; e aí, comeu? (1999, Prêmo Shell); Mais-que-imperfeito (2000); Closet Show (2001); e No retrovisor (2002).
De jornalista a cafetão Uma garagem, um carro, uma prostituta, um cafetão e um assassino. O que teria culminado nessa imagem?
Raul, jornalista, casado há 6 anos com Ariela, recebe na sala do apartamento o anúncio da separação. Fabi, melhor amiga da esposa, acaba sendo o consolo do homem, segunda mulher de sua vida, aquela que sempre bateu ponto em suas punhetas.
Depois de certo tempo, nova separação. Agora, o jornalista passa a viver no flat do amigo. Conhece Carla e vê no agenciamento de garotas de programa uma ocupação lucrativa, livre de impostos, já que foi demitido da redação.
O jornalismo é destacado como algo pesado, que pode afetar negativamente relacionamentos, mas também como uma profissão-refúgio, perfeita para mergulhar e evitar os problemas. Raul a usou dessa forma, mas não por muito tempo. O lado traiçoeiro dos jornais se manifestou.
O novo agenciador, além de se dedicar às prostitutas, ocupava-se com filosofia e poesia. Ariela não fugia de seus pensamentos ao escrever. "O amor não acaba".
O cafetão investe consideravelmente no ramo, cria site, chama amigos para ajudar. Possui um grande amor e respeito pelas garotas, e elas por ele. Ao promovê-las, foca no lado mulher delas. Não são apenas putas, piranhas, vadias, e sim mulheres, como quaisquer outras, que oferecem sexo. Apenas.
Curiosa a maneira como o tema prostituição é abordado na obra. Apesar de conter esterótipos, enxerga-se o lado humano, pessoa, mulher nas moças. Tudo é bem natural e normal.
Entretanto, no fim, o leitor sente-se traído. Durante a trama, todo um discurso é construído por Raul e termina que o escrito e declamado por ele não condizem com as últimas páginas de "A Segunda Vez Que te Conheci".
O carnal era o que importava, na realidade, para "Lu".
5 estrelas porque projetei muita coisa pessoal nesse livro, o que o tornou um livro meu e de Marcelo, e não teria como dar menos de 5 estrelas pra algo que é meu também. Me sinto coautora