"Meus dentes, todos prontos, escrevendo com a boca tal coisa dentro em que só imagens falariam entre palavras, você me desejaria então como mãe minha, seria complexo com os meninos da rua nossa ou seriam meus desejos a luz em cada barracão nosso? Mãe minha, te escrevo porque na palavra me encontro. Não é um adeus, são fogos de artifício. Fomos, mãe minha, por engano, gente."
Uirapuru é um romance em labaredas. Nelas, e por meio delas, o protagonista Léo evoca a memória, o afeto e o imaginário em busca da sua origem.
Febraro desenha no ar o canto belo do Uirapuru na escrita poética
Meu pai tem a inteligência de reconhecer cada pássaro. Talvez ele tenha aprendido isso com Manoel de Barros. O Uirapuru ele me mostrou ainda criança: era um pássaro vermelho-escuro de uma beleza peculiar e livre, livre, misterioso, belo e livre.
Febraro e eu nos derramamos nas camadas do tempo por alguns meses sem entender onde seu Uirapuru estava: o livro ficou suspenso nos Correios entre o sul-mato-grossense até o Ceará por vários meses. O Uirapuru e sua força redentora de voar sem saber onde ele está. Mas quando ele surge, o desenho que ele faz no ar com as palavras através de Febraro é de uma riqueza literária onde o autor cria um livro como quem cria um pássaro. E cria um pássaro como quem cria um livro.
Febraro na força da sua criação- linguagem de pássaro como experiência de fala para Léo, que busca suas raízes e origem. Um livro curto, belo, com o corpo do folclore brasileiro, com as delicadezas do sul mato-grossense Febraro, com a existência poética de escrever com a pena de um pássaro, ao lado dele, as vezes visível ou invisível. Esse livro-pássaro me encantou por ter voado muitos km até chegar aqui em Fortaleza. Ele chegou inesperado, nessa nossa dúvida de saber onde esse pássaro e seu canto estavam.
O romance, Léo, a condução do vôo de atenção do pássaro-mente. Um romance-pássaro para ser companhia de algumas horas de viver querendo descobrir com o protagonista a extensão da sua consciência para admirar a construção do romance. Esse pássaro-mente só é desenhado no ar na criação poética do Uirapuru de Febraro. #literaturabrasileira #literaturanacional
uma obra muito bem escrita, com uma escrita muito poética além de fluída, uma narrativa recheada de sentimentos bastante singelos, tocantes, falando sobre temas sociais contemporâneos, como pautas LGBTQIA+, falando muito sobre a solidão