Christiano Aguiar, nascido em Campina Grande (PB) no ano de 1981, é formado letras pela UFPE, escritor, crítico literário e professor. Este livro “Gótico Nordestino” pode, na minha opinião, ser enquadrado na notória vertente do pós terror, muito forte atualmente e presente particularmente na América Latina, em que as clássicas mitologias envolvendo vampiros, zumbis e similares são reinventadas, adaptadas, “regionalizadas” e em que elementos típicos do cotidiano do continente como autoritarismo, patriarcalismo e ditaduras assustam tanto ou mais do que manifestações sobrenaturais.
“Gótico Nordestino” é composto por nove histórias curtas e muito bem escritas. Em “Anda-luz” um garoto nordestino é encarregado por sua mãe de entregar um recado a um chefe de cangaço e inicia uma verdadeira odisseia em que tem que encarar medos, lendas, macabras impressões além de terrores bem mundanos. “As onças” evoca um futuro distópico em que os habitantes de uma cidade do interior do nordeste se veem acuados por onças inteligentes que agem em bando, revelam discernimento para abrir portas, driblar alarmes e escolher as vítimas com base em critérios bem definidos. “Lázaro” também pode ser enquadrado na vertente, muito em voga hoje em dia, da projeção de um futuro distópico onde uma mutação do vírus da covid leva a uma “não morte” que espalha o caos nas cidades e famílias. “Firestarter”, também muito próxima da projeção de distopias, nos revela um Brasil assustador em que os incêndios espalham-se sem controle (alguma menção ao necro governo atual seria apenas uma coincidência?) colocando à vontade uma legião de “piromaníacos reprimidos” que vivem de caçar e perseguir os incêndios. “A mulher dos pés molhados” mostra uma família e uma comunidade assoladas por uma maldição oriunda do desembarque de um misterioso náufrago portador de um misterioso livro. Este conto faz uma bem elaborada homenagem ao “maldito mestre do horror cósmico” H.P. Lovecraft a exemplo do que fez a argentina Mariana Enríquez no seu excelente conto “Sob a água negra” parte de seu livro “As coisas que perdemos no fogo”. “Tecidos no jardim” coloca um fotógrafo e sua namorada em contato com um “delírio sobrenatural” numa visita à cidade de Campina Grande. “A noiva” é exemplar ao mostrar os efeitos deletérios e assustadores dos regimes ditatoriais. “Anna e seus insetos” é uma espécie de ensaio que gira em torno das relações “retroalimentadoras” entre obsessões, fobias e solidão. E “Vampiro” narra uma curiosa história em que os cidadãos de uma cidade do interior nordestino tem certeza de que um misterioso habitante de um casarão é um vampiro.
Ótima oportunidade para conhecer o neo (ou pós) terror.