"Já não saio de casa, uma inquietação apoderou-se de mim e deixei de sair de casa. Foi no último Verão que esta inquietação se apoderou de mim. (...) Não sei o que é, mas esta inquietação afecta-me o braço esquerdo, os dedos. Já não saio de casa. (...)Foi por isso que decidi escrever, vou escrever um romance. Tenho de fazer qualquer coisa. Esta inquietação é insuportável. Se escrever, talvez isso me ajude."
"Casa de Barcos" é uma narrativa lenta, com muitas repetições, como passos dados no mesmo lugar, típico de Jon Fosse, no entanto, neste contexto, ressalta a inquietação do narrador com muita angústia, uma mente que rumina constantemente à volta das mesmas preocupações, ansiedades, pensamentos labirínticos, um fluxo de consciência. É como estar dentro da cabeça de alguém em colapso silencioso.
É precisamente nesta lentidão que está a sua força: fui obrigada a parar, a ouvir os silêncios, o não dito, a sentir a ansiedade do narrador, um homem que escreve para tentar aliviar o seu desespero.
"Estou aqui sentado a escrever. Escrevo para um leitor. Já não saio de casa, e sinto a solidão."
O protagonista vive com a mãe, sem trabalho fixo, sem estudos, na mesma aldeia onde nasceu e cresceu. Uma pessoa acomodada na vida. Numas férias de Verão aparece como visita o seu amigo de infância, Knut, professor de música, com a mulher e as duas filhas.
Essa zona de conforto, onde tudo é familiar, torna-se também prisão. E o reencontro com o amigo parece funcionar como um espelho que ele evita há muito tempo.
A verdade é que esse amigo, a casa de barcos onde se encontravam no passado e essa visita tornam-se o cenário para um confronto interno com o fracasso, com a solidão e com a identidade.
"Eu tenho mais de trinta anos, e não fiz nada da minha vida. Vivo aqui com a minha mãe. Foi este Verão que a inquietação se apoderou de mim. Nunca escrevi nada antes (...), tal como suponho que muitos outros terão feito, terão escrito cartas, muitos até terão escrito poemas, mas eu nunca escrevi nada. Veio-me à cabeça que talvez fosse capaz de escrever. Tinha de fazer qualquer coisa, a inquietação era imensa."
As pessoas mudam com o passar do tempo. E, por vezes, a visita de um velho amigo não é reencontro — é confronto. Confronto com o que fomos, com o que não fomos, e com a solidão que nem sempre é visível aos olhos dos outros.
"...encontrar velhos conhecidos, tinha de acontecer, como é óbvio, e eu ainda continuo mais ou menos com o mesmo aspecto, pensa o Knut, e então ele pergunta-se o que há-de dizer-me, já passou tanto tempo, nós costumávamos fazer tantas coisas juntos, mas o que vai ele dizer-me, provavelmente já não temos nada em comum, mas ele tem de dizer alguma coisa, falar, e é exactamente esse momento que ele tem andado a evitar (...)"
O que parecia invejável revela-se também uma ilusão, uma fachada. Fosse foi descontruindo aos poucos a visão idealizada do outro: o amigo casado, com duas filhas e profissão que veio de férias de Verão com a família. Lentamente, acontece um triângulo amoroso.
"Tu dizes sempre que sim, diz-me a mulher dele, e eu assinto com a cabeça, sem dizer nada, isto é tão estranho, e esta inquietação, esta intensa inquietação, escurece, e os olhos dela, os olhos dela estão agora em todo o lado, no céu, no fiorde, e esta inquietação, que nunca senti antes. Os olhos dela."
"Vais pescar muitas vezes? pergunta o Knut, e eu ouço algo na voz dele, algo na sua voz que eu não sei o que é, ouço algo na sua voz, ali há qualquer coisa, e digo que isso acontece, não muitas vezes, mas acontece-me ir pescar, acho que a natureza no fiorde é bonita, especialmente no Verão, que é quando vou pescar, no Verão, não é tanto pela pesca em si, eu nem sei bem porque é, mas é algo de que gosto"
Quem somos, afinal, quando devido aos outros olhamos para a nossa vida como um fracasso? E se o que invejamos nos outros também estiver podre por dentro?
Existe uma tensão mal resolvida, um ressentimento ligado a um episódio com uma rapariga no passado, no tempo dos bailes que dá mais força à visita de Knut. Porque não é só um reencontro com um amigo — é um regresso ao passado, a algo que ficou entalado. E o narrador vai lá como quem vai a um lugar onde se perdeu de si mesmo. O reencontro não traz paz, só mais desconforto.
O narrador não é só vítima da vida: ele também alimenta feridas antigas, não fala, não resolve, acomoda-se emocionalmente.
"aquela rapariga do baile, não passou de uma pequena parvoíce, não foi culpa dele, mas eu tornei-me muito estranho depois disso, tornei-me bastante medroso, já não quis ensaiar mais, mas isso foi há muito tempo."
Ambos estão presos — um à ausência de vida, o outro ao excesso dela. Ambos são espelhos distorcidos um do outro. Um parado no tempo, o outro perdido dentro da rotina.
"Casa de Barcos" é uma obra que nos obriga a mergulhar em temas como solidão, culpa, fracasso, o peso do que não foi dito e a morte onde a paisagem interna é mais importante do que a externa.
"aconteceu tudo há tanto tempo, agora está tudo tão diferente, como a casa dos barcos, aquilo que era tanto, quase uma vida inteira, e agora já não resta nada, assim acontece com quase tudo, no fim não resta nada, desaparece simplesmente, tudo se altera, e aquilo que foi em tempos torna-se algo muito diferente daquilo que costumava ser, torna-se mais pequeno, transforma-se em nada, é assim que é, e não há nada a fazer contra isso"