A poesia de Caeiro é algo mágica. Admito que nunca li algo como a poesia de Caeiro, que mentir não seria chamá-la a verdadeira utopia. A rejeição da rima e métrica mostra-se quase como uma rejeição do elitismo de pensamento, aderindo a uma poesia fluída, sem forma, acessível a todos, exatamente como a Natureza que canta e que todos podem apreciar. Não imita a Natureza, algo que Caeiro nunca conseguiria sequer ponderar, mas antes reflete os pensamentos - não, senão a própria forma desses pensamentos - de alguém que vive e vive apenas, e cujo único objetivo é não ter nenhum objetivo e somente viver. Uma realização perpétua da serenidade de se ser calmo e sereno. A sua poesia flui, de facto, como um rio, e não almeja de maneira nenhuma às pretensões da poesia falsa, adornada de distrações e análises excessivas às verdades simples.
A sua poesia, pelo simples facto de ser simples, carrega em si toda a complexidade da verdade universal: a de se viver e de se existir, que é a única verdade que há e pode haver. Se Caeiro medita para lá disso, é porque a verdade necessita ser divulgada entre as mentes doentes da humanidade.
Se Caeiro se contradiz, a própria contradição acaba por se justificar em si mesma, porque, se a poesia de Caeiro é a verdade, e a verdade é a simplicidade que se desdobra sobre tudo, as suas contradições são apenas um dos vários desdobramentos que a verdade engloba. Caeiro contradiz-se sem se contradizer; pensa sem pensar; torna-se complexo em toda a sua simplicidade; revela sem ter que revelar nem descobrir nada, pois tudo se encontra já revelado e descoberto à nossa frente (basta olharmos); repete-se sem se tornar repetitivo, cansativo.
O próprio Caeiro reconhece a sua poesia como sendo natural e espontânea, não numa tentativa de tornar a sua poesia numa mimetização da Natureza, mas sim porque, atónito desconhecedor conhecedor da Natureza, reconhece na sua poesia os traços da espontaneidade que caracterizam a Natureza e tudo o que se deve (ou se pode de facto) ser sem almejar a sê-lo.
"O Guardador de Rebanhos"
X
<< Olá, guardador de rebanhos,
aí à beira da estrada,
que te diz o vento que passa?>>
<< Que é vento, e que passa,
e que já passou antes,
e que passará depois.
E a ti o que te diz?>>
<< Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas.
De memórias e de saudades
e de coisas que nunca foram.>>
<< Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala de vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
e a mentira está em ti.>>
Poema interlúdio entre o poema XIX e XX d' "O Guardador de Rebanhos"
(...) Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
mas nunca a achemos saúde,
como os homens fazem.
O defeito dos homens não é serem doentes:
é chamarem saúde à sua doença,
e por isso não buscarem a cura
nem realmente saberem o que é saúde e doença.
XXIX
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
do que quando uma nuvem passa
ou quando entra a noite
e as flores são cor da lembrança.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim:
se estava virado para a direita,
voltei-me agora para a esquerda,
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmo pés-
O mesmo sempre, graças a haver terra
e aos meus olhos e ouvidos atentos
e à minha clara contiguidade de alma...
XXXII
Ontem à tarde um homem das cidades
falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justica e da luta para haver justiça
e dos operários que sofrem,
e do trabalho constante, e dos que têm fome,
e dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
e sorriu com agrado, julgando que eu sentia
o ódio que ele sentia, e a compaixão
que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
e o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu - não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
a esse entardecer
não parecia os sinos duma capela pequenina
a que fossem à missa as flores e os regatos
e as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
e tenho o egoísmo natural das flores
e dos rios que seguem o seu caminho
preocupados sem o saber
só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no mundo,
essa - existir claramente,
e saber fazê-lo sem pensar nisso).
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
XLIII
Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
Poemas Inconjuntos
9
Ontem o pregador de verdades dele
falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
e de outros terem fome, que não sei se é fome de comer
ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
e não se cura de fora,
porque sofrer não é ter falta de tinta
ou o caixote não ter aros de ferro!
Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria uma passo para alterar
aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
e um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui eu injusto - eu, que as vou comer a ambas?
17
Quando tornar a vir a primavera
talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
para poder supor que ela choraria,
vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
é uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
19
Quando vier a primavera,
se eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
e a primavera era depois de amanhã,
morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
e gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.