“Numa tarde chuvosa de novembro de 1975, ao regressar a casa de forma imprevista, encontrei a minha mulher na cama com outro homem. Lembro-me de que, ao abrir a porta do quarto, a primeira coisa que vi foi eu próprio a abrir a porta do quarto; ainda hoje, dez anos depois do acontecimento, quando já não sou mais do que uma sombra do que fui, de cada vez que entro desprevenido nesse quarto, o espelho do armário devolve-me pontualmente aquela trémula imagem de desolação, aquele velho fantasma que lavrou a minha ruína: um homem encharcado pela chuva no umbral da sua imediata destruição, estonteado pelos ciúmes e pela certeza de ter perdido tudo, até a autoestima”.
É assim, desta forma dramática e sentimentalista que Juan Marsé nos introduz na vida de Juan Marés (o nome da personagem não deixa de constituir um anagrama do autor), um homem pateticamente solitário vivendo de uma paixão impossível pela sua ex-mulher que o traiu com muitos homens, todos abaixo da sua posição social (tinha uma forte atração por engraxadores de sapatos, fixados nas Ramblas). Músico torturado pela recordação, Marés toca acordeão na Pla de la Seu, em frente à belíssima catedral gótica da capital da Cataluna, de onde provêm os seus recursos financeiros. Norma, a mulher, por outro lado, pertence à burguesia catalã, sociolinguista de profissão, incorre num casamento com alguém muito abaixo da sua condição social. A imprevisibilidade os uniu mas muito pouco conheciam um do outro.
Mas o desespero de Marés é pungente … sabendo que nunca reconquistaria a amada, inventa um subterfúgio criando uma nova personalidade. Neste disfarce, Juan Faneca surge como o tipo de homem que agradaria a Norma e pensa, porque não trair o próprio Juan Marsé, vagabundo, espoliado da sua vida por uma paixão inesquecível, doentia e avassaladora. Faneca é castelhano, não fala catalão e consegue, através de alguns expedientes, aproximar-se de Norma que de nada desconfia.
É o desespero, a dor, a angústia mas fundamentalmente a perda da autoestima o tema central desta narrativa. Como alguém consegue reinventar-se ao ponto de mergulhar no esquecimento, mesmo no próprio olvido a sua personalidade original, escamoteando tudo aquilo que contribuiu para a formação do ser. É uma duplicidade que se confunde na realidade ao ponto de não se saber mais quem é quem … “No seu pensamento, Marés loucamente apaixonado por Norma era um espectro cada vez mais lastimável e Norma era uma doce fatalidade” . É um amor louco daqueles que não mata mas destrói.
Foi dos livros mais interessantes que li de Juan Marsé justamente porque trata da demência da paixão, do amor, do túnel sem saída e que leva à destruição do ser. Embora, pessoalmente, não me reveja nesse tipo de fanatismos, sabemos que existem situações desse género que levam, algumas vezes, à loucura e frequentemente, à morte.