“Uma vez que Clarice tenha este livro infinitamente à sua disposição, o que acontecerá com sua corrida pela cidade, com o desejo, com toda a felicidade retorcida e torturada? Tudo vai escapar dela porque ela tem tudo, para sempre? Mas com um limite: não lhe foi dado o livro, foi-lhe emprestado pelo tempo que ela quiser. E essa é a moral dessa história: toma, é seu, durante o tempo que você tiver a força para desejá-lo. Assim, Clarice inventa a maravilhosa mágica, a boa bruxaria, os meios, para que este "até que" seja interminável. Ela tem o livro, como pode ela "tê-lo"? É preciso inventar um presente que nunca deixe de se apresentar. Ela começa a desfrutar do que tem e não mais do que deseja. E fazer vibrar o ter, colocá-lo em jogo, fazer mover-se levemente, fazê-lo vibrar e, através de uma espécie de intuição fabulosa, não lhe consumir, não lhe devorar: ela começa preparando uma torrada, vai e vem entre a cozinha e o livro, a fatia de pão e a fatia textual de pão que ela não devora, e depois se senta em uma rede com seu livro no colo, que ela literalmente acalenta, que ela não lê, que ela não lê, ainda não, e depois sai. E aquela que encontra todos os truques mais profundos, mais delicados, mais finos para continuar a ter eternamente o que tem, para não perder o ter, de modo que o ter seja o grande do ter, isso é, o texto adivinha a criança, a mulher, a amante que goza da expectativa e da promessa, já feliz por ter que gozar, e que há, no mundo, alguns para se alegrar, o mundo que é o livro das promessas. E esta felicidade, que é também o anúncio da felicidade, ela chama de "felicidade clandestina". Sim, a felicidade só pode ser clandestina, será sempre clandestina, a felicidade é o seu próprio segredo, deve-se saber que só se pode ter se se tiver um saber-ter que não destrói, que não possui. O segredo: lembrar a cada momento da graça que é ter. Para continuar a ter a leveza sem fôlego do esperar ter. Ter logo depois de não ter tido. Ter sempre em si mesmo a emoção de não ter. Porque ter é sempre um milagre. E, no ter, reencontrar sempre a surpresa do receber. O raio da chegada.”