Wild Thing: The Short, Spellbinding Life of Jimi Hendrix é uma biografia, escrita pelo famoso biografo Philip Norman, sobre o lendário músico Jimi Hendrix.
A história que o livro nos esta a contar pode ser dividida em alguns campos:
- A vida pessoal do Jimi Hendrix (familia, amigos, relações...);
- Contexto Social (Racismo, Hippies...)
- A música que o mesmo criou;
- A indústria da música.
O livro começa por contar a história dos antepassados de Hendrix, neste caso os seus avós e os seus pais. Embora este segmento seja interessante, aquilo que realmente interessa é, é claro, um menino chamado James Marshall Hendrix. Enquanto criança Jimi sofreu muito, devido a diversos fatores como pobreza, uma família disfuncional e, obviamente, o racismo a que a comunidade negra é sujeita. No entanto, nada disto impediu Jimi de se tornar um rapaz determinado e criativo.
O menino James Marshall, ou Buster como ele preferia ser chamado quando era criança, mostrou muito cedo uma vertente criativa com o seu amor de desenhos, contudo nada disto se iria equiparar ao seu amor da guitarra que começou quando tinha 15 anos. Inspirado por artistas como Elvis, Buddy Holly e Chuck Berry, Buster pegou numa guitarra, muito barata e de baixa qualidade, e nunca mais olhou para trás.
Durante esta parte do livro o autor faz questão de notar a relação complicada entre Al, o seu pai, e Hendrix. Muitas vezes demonstrado a falta de gentileza de Al com crianças, como da vez em que o Leon (irmão mais novo do Hendrix, e também o mais próximo) também disse que queria tocar guitarra e Al respondeu-lhe que "já basta um idiota na família" e muitas outras vezes até abordando violência.
A progressão das habilidades do Jimi na guitarra é pouco documentada e como tal difícil de ser abordada, porém, algo muito bem documentado é o incrível nível de habilidade a que o futuro Jimi Hendrix chegou. O talento na guitarra era mais raro que um pacote azul de Skittles vindo da Bulgária e mais óbvio que o Google e o Facebook a roubar informação pessoal. No entanto, algo que foi bem documentado e pesquisado pelo autor foi o avanço do Jimi pela indústria. Algumas das melhores partes deste livro são as partes que dizem respeito à indústria musical, sendo um dos pontos de destaque o circuito de Seattle, que documenta diversos locais, bandas, indivíduos que fizeram parte do seu caminho para o sucesso. Estes episódios neste livro estão repletos de contexto sobre a forma como a comunidade negra era tratada na época, contudo nunca com a nuance ou cuidado necessário para retratar estes tópicos. Algumas páginas a mais sobre este assunto teriam sido bem vindas, mas o autor tinha coisas mais importantes para escrever sobre, como o filho da prima do tio do avó em oitavo grau que em 1923 comprou um barzinho no meio de Seattle que vendeu em 1948 para aquele gajo que era um reprodutor de elefantes no Zoo regional, que, após algumas obras foi relançado com um clube de jazz, mas que eventualmente em 1957 acabou por se mudar para um clube de rock e r&b devido a pouca lucro.
Assim que o quase Jimi Hendrix chega a Inglaterra, o livro começa a focar-se bastante nas mulheres na sua vida, em especial, Linda Keith e Kathy Etchingham, a quem temos a agradecer por provavelmente mais de 200 páginas deste livro e pela sua influência positiva na vida deste agora, homenzinho. O livro também tem o cuidado de, em umas breves linhas, mostrar diversas instâncias de como o racismo na Inglaterra era diferente do racismo na América, especialmente no que toca a casais interraciais. Também somos introduzidos ao grande mafioso Mike Jeffery, ex-agente da inteligência inglesa com contactos dentro da mafia, offshores e as características genéricas de um mafioso. Esta figura enigmática e controversa vai se tornar numa fonte de grande stress para Hendrix no final da sua vida, que pretende-se ver livre dele como manager mas que estava agarrado a ele contratualmente.
No meio destes tópicos algo que parece ser quase puxado para o lado é a música. Há uma quantidade decente de coisas ditas sobre a indústria da música e há muitas referências feitas a vários músicos como os Rolling Stones, o Bob Dylan e entre outros que fizeram parte do percurso da vida pessoal e profissional do Hendrix. Contudo, pouco é dito sobre a música do sujeito que este livro é suposto ser sobre. Sim, o livro não perde uma chance para elogiar as habilidades e criatividade do Hendrix na guitarra, a forma como ele a via não só como instrumento mas também, como um pedaço de tecnologia e a quantidade de guitarristas e músicos que ele influenciou. Não houve uma oportunidade perdida para mencionar o seu perfecionismo. Todavia, como sempre, pouco é dito sobre as suas composições e sobre as suas letras. O livro quase nada aborda as suas melodias e as suas letras, estas últimas que vêm sempre com o "inspirado pelo Bob Dylan/ à moda do Bob Dylan/ como o Dylan faria" colado.
Os eventos durante o seu sucesso são interessantes e contados de uma forma decente e cativante, na sua maioria, pois já perto do final desta parte do livro, o leitor já está cansado de ouvir sobre todos os minúsculos detalhes de onde o agora, Jimi Hendrix, esteve depois e antes do concerto e que tipos de drogas eram abundantes nos determinados festivais. Muitos destes acontecimentos acabam por ser desinteressantes porque nada de valor acontece que adicionem substância à história do Jimi Hendrix, mas para os fãs mais loucos vai ser sempre interessante. Mais tarde ou mais cedo o autor lembra-se que talvez falar sobre a banda e sobre música seria mais interessante e começa a falar das alterações dos membros da banda, sobre os planos musicais futuros do Hendrix e sobre as relações dentro da banda e não sobre as cuecas que a StumbleElectricLady#5671 roubou ao artista mais bem pago da época.
O segmento final do livro aborda os últimos dias de vida do Jimi Hendrix e tudo o que aconteceu com o "Hendrix Estate" após a sua morte (spoiler: uma grande salganhada). O livro vai a grande detalhe para mostrar todo o stress que estava a consumi-lo, devido a diversos casos em tribunais e ao querer ver-se livre do mafioso. Evidenciando não só estado débil em que se encontrava psicologicamente, mas também fisicamente e que nem todos aqueles que estavam à sua volta tinham o melhor interesse em mente. Philip Norman faz um excelente trabalho em documentar as mais diversas, e em constante mudança, versões da trágica morte do Jimi. Deixando claro que muitos dos que estiveram envolvidos tanto pouco antes como depois da morte dele estavam a mentir para se safarem de algo, ofuscando assim, o que realmente aconteceu naquele dia.
Wild Thing: The Short, Spellbinding Life of Jimi Hendrix é um livro que busca contar a história de um dos maiores músicos da sua época. Este livro brilha quando está a contar o percurso que o Jimi teve que fazer para chegar aos níveis de sucesso que chegou e quando está a documentar as suas, algumas vezes, complicadas relações com diversas pessoas, contudo temas como o racismo parece que foram colocados no livro às quatro pancadas. Não é um livro perfeito, mas é um bom livro que com umas 20 páginas a menos sobre um gajo qualquer que comprou um bar em Nova Iorque e sobre o que ele comeu no dia 18/04/1969 e algum cuidado a mais com alguns temas e com a forma de como a história da vida dele no contexto social em que viveu foi contada teriam melhorado a qualidade do livro.
3.5/5