Por meio da leitura comparada de Dom Casmurro, de Machado de Assis, e de Minha vida de menina, de Helena Morley, Roberto Schwarz constrói uma análise surpreendente sobre forma e contexto na criação literária.
A certa altura deste livro provocador, que reúne um ensaio sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, e outro sobre Minha vida de menina, de Helena Morley, Roberto Schwarz, um dos maiores críticos literários da atualidade, pergunta-se: "qual é o propósito da aproximação entre os apontamentos soltos da garota de Diamantina e o romance possivelmente mais refinado e composto da literatura brasileira, ou ainda, entre uma escrita 'sem intenção de arte' e outra em que o cálculo estilístico e a aposta na eficácia da forma alcançaram altura excepcional?". A resposta está numa noção de forma extremamente rica e abrangente desenvolvida pelo autor, capaz de dar conta da especificidade de cada livro e de resgatar as afinidades do bruxo do Cosme Velho com a pequena herdeira das Luzes da Minas finissecular.
Roberto Schwarz é um crítico literário e professor aposentado de Teoria Literária brasileiro. Um dos principais continuadores do trabalho crítico de Antonio Candido, redigiu estudos sobre Machado de Assis elencados entre os mais representativos na fortuna crítica sobre o autor das "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
eu nunca tomei a leitura de crítica literária como uma tarefa aborrecida, mas terminar um livro inteiro de crítica literária com a certeza de que eu quero relê-lo um dia tanto quanto quero reler os livros de que ele trata é um sentimento um tanto novo. schwarz e suas proezas, i guess.
O poder de crítica de Schwarz se mostra com todas as faces nestes dois ensaios de duas obras aparentemente afastadas no tempo e no enredo. Sua conhecidíssima análise de "Dom Casmurro" de M. Assis traz novamente à tona as grandes questões levantadas sobre a obra pós-década de 50, como a presença do Estado Patriarcal e Bacharelista figurados nas personagens de Bento Santiago e José Dias, e a transformação e desenvolvimento profundíssimo da personagem, Capitu, figurando, por sua vez, o embate contra este Estado. Em sua análise do livro de Helena Morley "Minha Vida de Menina", Schwarz aponta como um "livro acidental" de uma menina de 15 anos se mostra em sua modernidade (publicado na década de 40 do séc. XX) uma nova versão da D. Capitolina machadiana, em toda a sua vertente intelectual e inovadora, enfrentando o Estado masculino que cultivava práticas escravistas de um Brasil recém-republicano. O aprofundamento técnico e hermenêutico do estudioso é impressionante e um dos grandes símbolos da crítica literária no Brasil, principalmente ao se debruçar sobre duas grandes obras da literatura brasileira.