Repito que sou uma mulher enfiada num baú de cartas, fotografias, relatórios, cartões e papéis amarelecidos.
Até dois terços desta obra, julguei que ia gostar ainda mais de “A família Caserta” do que de “As Primas”, pois embora a anteceda, apresenta uma prosa mais apurada.
Passaram as libélulas, os frutos e toda a verdura se moderou; o meu irmãozinho era quase criança, quase inseto, quase fruto, quase flor, partilharia tal fugacidade. E desse quadro edénico com duendes e manes restaria um balbucio, um zumbido, uma fragrância, um torpor.
A nível narrativo, porém, falta-lhe coesão e, mais para o final, acaba por haver um uso desmesurado do realismo mágico, que a transporta para uma dimensão quase de delírio, e uma escrita demasiado opulenta que a torna opressiva.
E fomos quatro irmãos apreciadores do cheiro das mansardas (…); da música das cordas, que podem ouvir porque brota do encordoamento que mãos transparentes dedilham, dedos com dedais de ouro; das portas cujas fechaduras bolorentas se abrem com chaves buriladas como joias; da simbiose amorosa que transforma qualquer um em amor ideal, único e perfeito. Entretínhamo-nos exercitando o corpo fora do tempo presente. Varríamos cinzas ao pé das acácias.
A retrospectiva da protagonista, Chela, inicia-se em 1925, quando tem somente quatro anos e vai a um estúdio tirar uma fotografia para uma tia-avó da linhagem dos Caserta em Itália. Em poucas cenas, percebemos que o “Cataplasma”, como é tratada em casa, não é a filha de sonho do casal Stradolini, porque, apesar de ser um génio precoce, é rebelde e anti-social, identificando-se com personagens como Charlie Chaplin, seu “irmão espiritual”, e em adolescente, lendo Rilke e Rimbaud.
A Chela não tem sentimentos pelos seus semelhantes e só gosta de animais. Neste preciso momento sabe que deve descer à “casa das gentes”, expressão que ela dá ao piso térreo. (…) De facto, esta rapariga é desagradável; faz tudo o que pode para ofender as pessoas, é suja e diz palavrões.
Com uma segunda filha perfeita e um bebé a caminho, a pequena Chela, que me conquistou desde cedo, sente o desprezo e a incúria da família, isola-se no sótão e aprende a defender-se sozinha.
Desde essa tarde propus-me a ganhar todas as minhas guerras fosse como fosse, com raiva e sem remorso. Não tinha pelo que amar o próximo se o próximo me odiava: e, por ser diferente, quem seria o meu semelhante?
Admitindo em determinada altura ter algo de autista, só cria laços de afecto com pequenos animais e com o irmão mais novo, descrito como “anão imbeciloide”.
Compensávamo-nos mutuamente: eu, que nunca precisei de nada de ninguém; ele, que precisava de toda a gente e que só me teve a mim, para curar as suas pústulas, os seus achaques.
Sobredotada e parecendo “as mulheres trinca-espinhas que Modigliani pintou”, Chela termina os estudos universitários aos 20 anos, torna-se escritora e deixa a Argentina, primeiro, em direcção ao Chile e, mais tarde, rumo à Europa com uma autonomia “das que se forjam com dinheiro e desenraizamento”, em busca dos antepassados que expliquem as deficiências na sua família.
Os Caserta apareceram em toda a sua grandeza e horror: príncipes emparelhados com anãs, princesas com cabeçudos e assim soubemos que o nosso clã nasceu sem flor.