“Há um filme que passa no fim de todos nós, obscuro fundo de imagens, memórias sobre- impressas, algumas transparentes já do uso. Queria ter entrado nesse quarto de paredes gastas na pensão suburbana onde, numa fotografia, te vi, caída, cingida apenas pela nudez arrepiada. Frágil a pele, abandonada a invisíveis memórias, densas, povoadas do eco de um cair sem fim. Ficar longamente a contemplar o abandono vasto, o esquecimento a diluir-se, lento, em imagens, como em sonhos, ouvir -te respirar, sentir no ar o calor, que quase se sente chegar do centro do corpo quando exausto. Adivinhar -te a carne, estremecer de tocar-lhe, entrando no teu sonho. Mas, no espelho ao fundo dessa inquieta imagem, apenas tu repousas. E nada vem trair a aparição da presença fugaz, súbita, em que me vejo ver-te.”