Amizade que atravessa tribalismos
Na macroesfera da ação dessa história em quadrinhos, o autor brasileiro antropomorfiza cães e gatos abrindo uma discussão etnográfica de valores, costumes e tradições. Em grandes proporções, a guerra interestelar entre cães e gatos questiona o crime de xenofobia como conflito bélico socialmente aceito. Sequer explica-se a causa dessa batalha justamente porque não há justificativas para o especismo. Esse problema existencialista se aprofunda em Corso, personagem principal, intitulado de vira-lata por colegas da frota aérea canina, suporta o racismo diário da apologia do pedigree de sangue azul. Corso é piloto fora de série que arrisca a vida da corporação por quem o respeita, resultado, graves delitos e penas de insubordinação. Contudo, perde-se num acidente aéreo, fazendo travessia pelo espaço-tempo, cai no passado. Ausente da consciência disso, Corso perde a nave aterrissando-a em um planeta pré-histórico de criaturas elétricas. De acordo as circunstâncias de sua independência solitária, ele conhece a única aldeia primitiva do planeta, uma civilização de gatos que o acolhe. Nesse período matriarcal felino, não havia nenhuma definição moral sobre a existência de cães, ou até mesmo, políticas de leis segregacionistas. Essa volatilidade cultural refletida em si e nos outros transforma as paranoias em aprendizado mútuo ao entendimento do valor universal da amizade nas diferenças. Seu retorno espacial representa o possível despertar diplomático da consciência de seu povo.
(Yuri Ulrych)