Palmares foi o maior e mais duradouro assentamento de fugitivos da história da escravidão no Brasil. Os mocambos, como eram chamados, formaram-se no início do século XVII nas matas do sul de Pernambuco e resistiram até as primeiras décadas do século XVIII. Seu líder mais famoso, Zumbi, tornou-se símbolo das lutas pela liberdade no Brasil. Apesar da importância dos Palmares, os documentos sobre sua história ainda são pouco estudados. A principal fonte utilizada pelos historiadores é um texto conhecido como “Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco”. Escrita para enaltecer o governador, a descrição do conflito é precedida por informações sobre a história dos Palmares e da rede de mocambos que ali havia se formado. A narrativa termina com o acordo de paz negociado entre uma embaixada palmarista e as autoridades pernambucanas. Em 1859, uma cópia desse documento foi publicada sem nenhuma informação sobre sua autoria, data de produção ou localização do original, e poucos se interessaram em saber mais. Guerra contra Palmares: o manuscrito de 1678 é o resultado de anos de pesquisa da historiadora Silvia Hunold Lara e do filólogo Phablo Roberto Marchis Fachin, e traz a transcrição das duas versões seiscentistas desse documento: a da Biblioteca de Évora e a do Arquivo da Torre do Tombo, cuja descoberta permitiu corrigir erros e lacunas da versão de 1859. Unindo filologia e história, o livro analisa o contexto em que o documento foi escrito, fundamenta a atribuição de sua autoria ao padre Antônio da Silva, e discute como esse texto foi lido e interpretado pelos historiadores nos séculos XIX e XX. Guerra contra Palmares: o manuscrito de 1678 contém ainda catorze documentos inéditos que oferecem uma narrativa alternativa dos acontecimentos retratados.
Por obra do acaso, e nada além do acaso, à leitura anterior, que tinha como narrador um padre, encadeei esta de agora, em que outro padre é quem também risca a pena no papel. As coincidências não param por aí: o primeiro padre pretendia escrever sobre o imperador d. Pedro 1º e acabou contando a história doméstica dos cortejos entre dois cariocas; este padre aqui pretendia exaltar d. Pedro, só que o de Almeida, governador da capitania de Pernambuco no século 17, e acaba revelando a força que possuíam Palmares e Zumbi, Zambi (ou como se queira grafar o nome do revolucionário), e mais: nessas de escrever, passar a limpo e reescrever, acaba dando a ver que, bom, aquele governador não era lá tudo aquilo. Ambos os padres uns tolos, se querem saber. O manuscrito serviria para mostrar à coroa portuguesa que, com tão inteligente e audaz governador, a colônia brasileira estava sob ordem, afinal d. Pedro de Almeida teria sido aquele quem desmantelou o grande quilombo que se formava com independência e ganhava poderes até então restringidos. Mas aí, hoje em dia, vêm estes estudiosos e comprovam que não, não foi nem ele quem o destruiu (governadorzinho mais soberbo!); que pode ter sido seu sucessor; ou outro poderoso; ou outro; ou mesmo os próprios quilombolas que, cansados e oprimidos, pegaram e disseram: quer saber, chega de guerra, vamos baixar-lhes a cabeça, esperando que eles façam ao menos menção de baixar de volta, e nos deixemos escravizar novamente, que a liberdade custa muito caro.