"Um longo caminho para casa" é um romance histórico de Alan Hlad (o seu livro de estreia) que nos transporta para a Inglaterra na altura do Blitz, com os ataques sucessivos da Luftwaffe sobre a capital de Londres. Apesar de ter a Segunda Guerra Mundial como fundo, este não é um livro demasiado pesado ou gráfico. Alan Hlad soube trazer-nos um livro com uma narrativa fluída, de linguagem e escrita cativantes mas sem nos fazer mergulhar nos horrores mais dramáticos desta época. Mesmo a descrição dos sucessivos ataques aéreos que ocorreram no Blitz e de incluir na história alguns acontecimentos verídicos, Hlad soube, através da sua liberdade criativa (como ele próprio refere na sua nota final ao livro), introduzir momentos mais negros envoltos num olhar menos duro sem retirar a importância dos acontecimentos históricos. Por exemplo, na pág. 51, vemos isso na descrição do ataque ao porto de Liverpool: "Embora o porto de Liverpool tenha sofrido fortes bombardeamentos, a maioria das áreas residenciais da cidade tinha sido poupada. Esse não era o caso de Londres. Uma névoa cinzenta pairava sobre a grande cidade. Ollie colocou a cabeça fora da janela para ver melhor. O vento soprou sobre o seu rosto, enchendo-lhe as narinas com o cheiro de fumo. E, quando o comboio chegou aos limites da cidade, viu fábricas destruídas edifícios queimados, uma igreja com a torre derrubada e blocos do que costumavam ser casas geminadas reduzidas a escombros fumegantes. Parecia que Londres estava a ser cremada, aos poucos".
Quem estiver com receio de ler este livro por poder ir encontrar uma história carregadas de momentos de romance, pode estar à vontade e mergulhar na leitura deste livro sem receios. Não temos aqui um livro demasiado romanceado. Temos antes um livro que presta uma mais que merecida homenagem a todos os que serviram no Serviço Nacional de Pombos e ajudaram, através da Operação Columba e de tantas outras actividades, a transportar mensagens entre os dois lados do Canal da Mancha e contribuindo para que a guerra caminhasse para o seu fim com a vitória dos Aliados. E isso ficou bastante marcado pela intervenção de Churchill na reunião que antecedeu o início de toda a operação: "Recomendo que reservemos algum tempo para ouvir o senhor Wallace e os membros do Serviço Nacional de Pombos. A sua perceção pode ser extremamente valiosa para o êxito da nossa missão. A inteligência, o espírito e a coragem britânica é o que nos levarão à vitória" (pág. 64). Duquesa, a pomba de estimação de Susan, é a personagem maior entre os milhares de pombos que foram libertados no decorrer da Segunda Guerra Mundial e a forma como se desenrola e termina a sua história no livro é inspirada em factos verídicos (que não vou descrever aqui para não haver spoilers mas que podem ficar a conhecer em maior detalhe na nota do autor no final do livro). E, ao mesmo tempo, acho que este livro é uma clara homenagem às relações familiares, personificadas tanto na relação de Susan com o seu avô Bertie mas também na forma como Ollie sempre descreveu os seus pais e tudo o que o motivou a querer juntar-se à Royal Air Force e combater nos céus da Europa, num espaço e numa guerra que, à primeira vista estava muito longe de ser a sua. "O estômago ácido de Ollie transformou-se numa raiva efervescente. As histórias contadas nos jornais não conseguiam descrever a intensidade do que estava a acontecer. Era uma guerra. Pessoas morriam. E os Estados Unidos não estavam a fazer nada, excepto declarar neutralidade quando bombas caíam sobre Londres. À medida que também no campo ecoavam explosões, Ollie percebeu que mais homens, mulheres e crianças não veriam o próximo nascer do Sol. Silenciosamente, prometeu voltar a voar. Não importava a que custo, encontraria uma maneira de livrar os céus dos nazis" (pág. 83).
Fiquei rendida à escrita deste livro desde as primeiras páginas. Esta é uma leitura que se faz de uma forma fluída e fácil, não afastando os leitores das suas quase páginas. E as críticas a nível internacional mostram exactamente isso!
Toda a história gira entre quatro personagens essenciais: Susan e o seu avô Bertie, Ollie ou Oliver do Main e o Capitão Boar da RAF, por quem fui adquirindo um especial "carinho" ao longo de toda a narrativa (quem não teve vontade de lhe bater quando rejeitou de forma tão rude e ofensiva a comida que Madeleine lhe preparava e que significa a diferença entre ele sobreviver e morrer?! Mas depois conseguimos perceber que o ódio por Ollie de Boar ia muito mais além de meros ciúmes, como se descobre na pág. 270). Gostei também bastante da forma como o autor foi introduzindo algumas informações históricas que nos ajudam a compreender a dimensão da realidade em que se inspirou para escrever este livro. Por exemplo, ajuda-nos a compreender a utilização de pombos como mensageiros e a sua utilização que ocorre desde os egípcios (como se descreve na pág. 94). Os pombos são personagens principais deste livro, mesmo que vistas através dos olhares de Bertie, Susan e Ollie, e que vemos descritos de forma profundamente carinhosa e valorizadora na pág. 112. E, claro, impossível refletir sobre a forma como os direitos dos animais eram encarados à época e que, podemos ver, na parte em que os soldados britânicos descrevem a Susan que os pombos vão passar a ser transportados em apertados tubos, em vez de gaiolas como na primeira largada (ver pág. 236). Gostei também da forma como fala de um exército fantasma britânico em Clacton-on-Sea, o local escolhido para a largada de pombos em direção à França ocupada, e que só pode ter tido como inspiração o exército fantasma americano que teve várias utilizações em torno da operação Overlord (o desembarque na Normandia no Dia D), e que vemos descrito nas pág, 230 a 232. Também a referência ao episódio de Dunquerque e aos milhares de soldsos britânicos que foram sacrificados em Calais nessa altura - cordeiros de sacrífico como lhes chamou Bertie, episódio que podemos ver descrito nas páginas 229 e 230: "No total, mais de 300000 soldados fugiram do porto de Dunquerque numa confusão de embarcações militares e frágeis barcos de pesca. Foi o milagre de Dunquerque". E, claro, ler um livro passado na Segunda Guerra Mundial é também ler sobre as capacidades militares de Aliados e Nazis e aprendemos um pouco mais sobre as aeronaves utilizadas pela RAF (Spitfire e Blenheim, as aeronaves que transportaram os pombos para França) e pela Luftwaffe (Messerschmidt). Todo o voo sobre o Canal da Mancha a bordo do Blenheim, fez-me recordar o filme de animação da Disney, Valiant, que retrata exactamente a história dos pombos utilizados pelos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial e que pode ser um complemento engraçado à leitura deste livro. Também mais à frente, na pág. 274, quando se descreve a largada de falcões para apanhar os pombos, facilmente recordei cenas similares de Valiant. Também pude ser facilmente transportada para o género de escrita de Imogen Kealy, no livro "Libertação" sobre a Nancy Wake, na descrição os alemães a descerem a encosta enquanto Ollie e Boar se escondiam ("Os travões do veículo rangeram. Ouviram-se vozes guturais e o estalo metálico de cartuchos enfiados em armas. Por entre a palha, percebeu que havia movimento. Pareciam tartarugas cinzentas no topo da colina. Primeiro, uma tartaruga. Em seguida, outra tartaruga. E outra. Em segundos, um pelotão de soldados alemães, usando capacetes em forma de concha, estava na colina", pág. 177). Também voltei a ver um pouco mais desse livro na descrição do passeio noturno de Ollie, para encontrar o local onde o Blenheim se tinha despenhado, com o seu tornozelo ferido (pág. 240), e que me fez recordar a viagem de bicicleta de Nancy, igualmente ferida mas tudo em nome do mesmo: não deixar os nazis levar a melhor.
E os voos bidireccionais de Duquesa a transportar mensagens ente Susan e Ollie? O que dizer a este espírito de sacrifício que sabemos que muitos animais conseguem ter em determinados momentos das suas vidas, fazendo de tudo pelos seus donos? Posso dizer que este voos me foram deixando o coração apertado e que foi sendo difícil de imaginar tudo a acontecer... "Ollie fingiu entender om que eram trufas acenando com a cabeça. Depois saiu com a Duquesa enfiada debaixo do braço. O tenente ficaria fulo, talvez até tentasse atirar nele se se apercebesse. Mas ele não se importava. Só queria devolver o pombo a Susan. E, a cada momento perdido, sentia que a oportunidade se esvaía" (pág. 192). "Susan caiu de joelhos. Os seus músculos ficaram fracos. Impotente, observou a Duquesa a voar em direção ao canal da Mancha, até que desapareceu de vista" (pág. 208). E, claro, ver Susan aperceber-se que, em breve, estaria sozinha, também me deixou de coração apertado: "Entre tosse, fungadelas e o cheiro abafado de eucalipto, Susan ouviu uma versão muito resumida da história. Já a tinha ouvido talvez uma centena de vezes, mas desta vez era diferente. As palavras dele eram preciosas, pois percebeu que as vezes que ouviria as suas belas histórias estavam contadas" (pág. 304).
Admirável também a forma de homenagear os elementos da Resistência Francesa com as personagens de Madeleine (que acolheu Ollie e Boar em sua casa), do médico que os ajudou a recuperar e de Lucien, o monge desfigurado que teria um papel essencial no final desta narrativa.
Gostei mesmo muito de ler este livro. Acho que é um livro especial, que nos parte um pouco o coração mas que por ser tão focado na essência da relação entre as pessoas, nos mostra, que mesmo no meio dos acontecimentos mais duros e dramáticos, pode haver luz. Leiam este livro que, tenho a certeza, não vão dar por desperdiçado o tempo dedicado à sua leitura!
Uma leitura conjunta que fiz para o projecto "Ler é respeitar a história".