Bem decepcionante.
Castoriadis cai em uma série de problemas que me incomodam profundamente, tanto em algumas correntes do marxismo quanto fora dele.
Em primeiro lugar, as péssimas análises de conjuntura. Se Castoriadis tem razão ao apontar um certo descompasso entre o estruturalismo e o maio de 68 (baseado no famoso bordão "as estruturas não descem às ruas), ele não é bem sucedido como Debord em sua crítica. Acaba fazendo apelo a um humanismo pobre e um chamado à ação bastante ingênuo.
A narrativa Ocidente x Oriente chega a ser ridícula, enunciando algo como o que Huntington faz e fearmongering a "reação religiosa" do "Oriente".
Aqui o problema é mais profundo, e bate em minha principal crítica a Castoriadis: a péssima concepção de "democracia" que elege a Grécia Antiga como referencial teórico e político (o livro é infestado de debates sobre os gregos, o que me torra a paciência) e de dois momentos históricos onde houve um projeto de autonomia e autocrítica (a Grécia Antiga e a Europa moderna). Sério? O resto todo do mundo e da História fica relegado a uma aceitação passiva a uma tirania totalitária. É realmente fraco. Além de que as denúncias a atual pseudo-"democracia" ocidental se tornam supérfluas quando a Europa moderna é considerada "o lugar menos pior a se estar" politicamente. Se tem algo que é orientalista, é essa concepção.
Se o recurso a democracia ateniense já incomoda, as críticas ao niilismo contemporâneo e ao "pós-modernismo" são mais rasas ainda, complementadas por choros sobre o problema das identificações e do imaginário social. Outro ponto péssimo é a associação inelutável de Marx e do marxismo ao "totalitarismo comunista soviético stalinista do terror tirânico". Comunismo e Marx ficam reduzidos a isso ao longo de todo o livro. Além do paralelismo horroroso entre a URSS e o nazismo em seus "totalitarismos". Castoriadis larga a mão do marxismo, e tece críticas a Marx que nunca são bem fundadas (que Marx seria um progressista, que Marx teria uma concepção ruim de poder no comunismo, e outras acusações sem as devidas explicações).
Há pouco de bom no livro. Toda a discussão sobre o imaginário social é maçante e repetitiva. Acho que a única coisa que salva é o texto sobre Freud. De resto, o livro é um terço análises de conjuntura ruins, um terço formulações teóricas pobres e o outro terço incursões desinteressantes sobre como a democracia ateniense "não é um modelo", mas toda vez que falamos de democracia, autonomia ou liberdade temos que falar dela. Castoriadis parece não perceber que a toma como modelo, mesmo dizendo que não. Cai portanto no mesmo "retorno" insuportável de Arendt.
Sou obrigado então a fazer a piadinha: se houve alguma insignificância em ascendência, foi a escrita desse livro.