Li este compêndio logo após o de A Riqueza das Nações, de Bento da Silva Lisboa, ambos pertencentes à mesma coleção. Em comparação com o compêndio da obra de Smith, este me agradou mais, inicialmente, por sua maneira de apresentar o raciocínio marxista. De forma simples, com alguns exemplos hipotéticos ou reais, a leveza de leitura é maior e leva a um bom entendimento. Todavia, é só até aí que as vantagens deste sobre o outro.
Neste compêndio de O Capital, aprovado pelo próprio Marx, Cafiero se dispõe à sintetização da teoria marxista para virtualmente todos. Assim, a obra deve ser analisada como tal. No entanto, é logo aí que se encontram os primeiros problemas da síntese: a obra mal estabelece seus firmamentos teóricos e já inicia uma dramatização desproporcional das coisas. Por exemplo, inicialmente somos expostos às ideias de valor, que, em seguida, são precificadas; destarte, como esta é uma análise do capitalismo, rapidamente chegamos ao conceito de lucro (proveito, para Smith). Aqui, as coisas tomam um rumo inusitado: somos transportados para a mente do proletário, que, simplesmente por perceber o lucro do patrão, que-lo eliminado e anseia por um mundo exclusivo dos proletários.
Tal desenvolvimento é perigoso, pois, antes mesmo de uma análise completa da situação do operário, temos já as conclusões mais violentas. Essencialmente, a obra convida o leitor a aderir, logo no princípio, às suas predisposições, infimamente justificadas. Ora, é óbvio que, assumindo, assim como o autor, que todos os capitalistas são criaturas perversas, e que seu lucro é um terrível mal, o leitor concordará com o desenvolvimento da trama. Já os que a observam por fora, incapazes de entrarem neste mundo tão prematuramente, podemos dizer que são o quê? Apoiadores inconscientes dos grandes vilões?
Pela total inversão da lógica, que espera pelos argumentos antes dos apelos, há aqui uma restrição aos leitores, a criação de um clube inacessível aos "incapazes". A partir daí, a obra aborda a mais-valia, suas relações com a divisão do trabalho, seu estado absoluto e relativo, seu aumento com as máquinas, com as cooperações entre trabalhadores, a forma como ela leva ao infortúnio, por meio do desenvolvimento tecnológico, de muitos agora-desempregados...
É uma análise bastante interessante, mas parece ignorar uma das duas mais notáveis consequências da convergência dos temas abordados: o barateamento dos produtos e sua produção em larga escala. Abrem-se aqui brechas para críticas simples que este compêndio falha em antever (talvez a obra compendiada também tenha falhado, mas me abstenho de comentários, por, na presente data, não a ter lido), como: a produção cada vez maior não tem a tendência de compensar a diminuição dos salários, por um barateamento ainda mais notável dos preços? O êxodo de trabalhadores para os meios urbanos não contribui para um aumento apenas temporário da infelicidade? Como pode ser objetivo do capitalista ter uma massa cada vez mais miserável à sua disposição para servir como mão de obra barata se, com o aumento de produção, ele necessita de mais demanda efetiva? Essas perguntas, que julgo bastante pertinentes e diversas, são inacessíveis no livro.
Talvez esses questionamentos não ocorressem ou não fossem julgados tão importantes por mim, se a obra não tivesse tão claras predisposições à revolta. Observados os argumentos históricos e os dados fornecidos pelo autor, compreende-se o desgosto e a angústia causados pelas situações de famílias inteiras à procura de algum tipo de serviço maçante pelo qual prover seu sustento. Ao antever que um sistema assim não se poderia sustentar por muito tempo, Marx estava parcialmente correto. Digo parcialmente porque, como observamos ainda hoje, o capitalismo existe, embora não na forma selvagem como ele observou. De forma irônica, o Estado, ao qual tantas violências ele atribuiu, é hoje provedor de uma série de auxílios econômicos e leis trabalhistas, pelo menos no Brasil (embora, inegavelmente, muitos outros Estados se tenham encaminhado para similar destino).
Quando analisa a destruição moral provocada pelo capitalismo, entram aqui outros questionamentos. Como Marx observou, a divisão do trabalho causa alienação (neste compêndio, tal palavra inexiste) e, por suas palavras, "mutila" o trabalhador. Antes, para pôr um produto para troca, o sujeito precisara dispor de várias habilidades reunidas em um só corpo; geralmente, tomavam-lhe anos as práticas para atingir os padrões desejados. Com o advento das indústrias, cada sujeito só precisa aprender um fragmento do total trabalho despendido para a criação do produto; observa o autor que, destarte, o operário passa a ser cada vez mais dependente do sistema, cada vez mais inamovível de sua fábrica. Isso é uma infeliz realidade, pois quem sente que nada cria sente um profundo vazio existencial. Todavia, em uma análise hodierna, o tempo livre de muita gente permite a prática do artesanato para divertimento. Obviamente, tal observação não é um detrimento à obra, pois seria anacrônica.
Nos últimos capítulos, é traçada uma relação entre o acúmulo de capital e o acúmulo primitivo de capital. Utilizando-se de história, o autor tenta demonstrar que, como os antigos foram expropriados de suas terras, e os camponeses foram expropriados de seus direitos, por conta do capitalismo são os proletários expropriados de sua própria essência, devido aos anseios do Capital. Essas previsões, contudo, não bem condizem com o que se vê hoje em dia, na civilização ocidental. O aumento do número de produtos em circulação, aliado aos incentivos ao desenvolvimento de novas tecnologias, barateou muitos produtos; o acesso à cultura e ao conhecimento foi muito facilitado e muito depende da vontade do potencial beneficiário. Não à toa, hoje muito se discute o incentivo da população à cultura: há todos os meios; a dificuldade reside principalmente no querer.
Até agora, esta resenha foi — julgo eu — bastante mista, ora discordando da obra, ora concordando, observando a ordem cronológica dos fatos. A última crítica que tenho a fazer é, entretanto, negativa. Em sua "Conclusão", a obra deixa os argumentos históricos que estava desenvolvendo nos capítulos recentes e volta ao idealismo, bradando que, assim como a burguesia clamou a sua revolução, os proletários também clamarão a sua, uma "revolução pela revolução". Isso é perigosíssimo e inconcebível, para uma obra assim. Partindo puramente de uma análise socioeconômica, repentinamente temos também no pacote de males a serem combatidos pelo marxismo a religião, a cultura, a família, as tradições e tudo mais. Além disso, a própria ideia de "revolução pela revolução" é absurda; se modificar a sociedade é o objetivo, certamente há que existir um plano para tal. Ao finalizar seus escritos com algo tão vago como "isto não é o objetivo de discussão desta obra", o autor atribui insignificância a tudo discutido anteriormente, que mal integra sua conclusão. A verdadeira conclusão aqui é a de uma anarquia de pensamentos, da mais pura revolta seguida de uma incitação à desconhecida mudança. Esperar-se-ia que um manual facilitado para todos os sujeitos procurasse guiar seus novos adeptos por um plano de ação tão ambicioso quanto suas críticas, mas, por compreensível conveniência aos líderes de revoluções, isso não se observa aqui. De fato, as grandes revoluções que se analisam da história recente parecem compartilhar desse pensamento: todas as informações e metas aos líderes, todo o pensamento desinformado e apaixonado ao séquito.