Enquanto se submete a tratamentos para um tumor, uma jovem professora ocupa os longos dias a examinar papéis, retratos e cartas dos bisavós que encontrou num velho armário de livros que outrora lhes pertenceu. É assim que vai desvelando a história dos dois, envolta em mistério, na qual a traição, o ciúme e a tragédia são os ingredientes principais.
Álvaro Amândio, o bisavô culto e ensimesmado, mas sobretudo Madalena Brízida, a bisavó sedutora, enigmática e talvez cruel, vão ganhando contornos diante da jovem mulher, à medida que ela própria se vai descobrindo, nos seus amores do passado, nos seus sofrimentos recalcados, talvez até nas razões para ser como é.
Muito mais do que uma narrativa sobre a doença ou os seus efeitos sobre o indivíduo, Madalena - obra vencedora do Prémio Literário João Gaspar Simões - é um romance notável sobre a família e sobre o que, em cada um de nós, é construído pelos que vieram antes, assinado por uma das grandes vozes da ficção portuguesa contemporânea.
Isabel Rio Novo nasceu no Porto, onde se doutorou em Literatura Comparada. Leciona Escrita Criativa e outras disciplinas no âmbito da literatura, cinema e outras artes, sendo autora de diversas publicações académicas nessas áreas. Integrou os júris de prémios literários e de fotografia. Os seus textos de ficção estão presentes em várias antologias, com destaque para a primeira coletânea de contos do Centro Mário Cláudio (O País Escondido, 2016). É autora de O Diabo Tranquilo, a partir de poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, da novela A Caridade (2005, Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes), do livro de contos Histórias com Santos (2014) e dos romances Rio do Esquecimento (2016, finalista do Prémio LeYa e semifinalista do Prémio Oceanos), Madalena (inédito, Prémio Literário João Gaspar Simões) e A Febre das Almas Sensíveis (2018, finalista do Prémio LeYa).
Mas agora, agora que a tomografia, a ressonância magnética, o hemograma, e as ecografias, e as radiografias, e as endoscopias me asseguram a várias vozes como num coro de tragédia, que o meu tempo de vida será curto, acho cada vez mais que o meu nome é Madalena.
Isabel Rio Novo, talvez a minha escritora portuguesa contemporânea favorita.
Não sei que escrever.. porque tudo o que pudesse dizer deste livro, seria sempre insuficiente e não estaria à altura desta maravilhosa obra… Isabel, ganhou uma fã aqui, que agora vai ter de comprar todos os seus livros/ feira do livro Lx vem depressa😃. A mistura do passado e do presente torna a história ainda mais rica, mas a parte do presente que se foca no cancro é de facto o que me impactou mais nesta obra, quero escrever mais sobre o que li, mas sinceramente não consigo, leiam este livro, a Isabel merece reconhecimento e este livro é um pequeno tesouro… leiam , leiam e leiam💓💓 obrigada Isabel 💓
Isabel Rio Novo é, neste momento, uma das minhas escritoras de eleição. Detentora de uma escrita absolutamente delicada e irrepreensível, consegue construir narrativas extraordinariamente belas, a partir de temas não muito fáceis.
Aqui, consegue juntar, de forma soberba, alguns registos autobiográficos, com uma trama ficcionada que, no fim, nos conduzem a um ponto em comum. De realçar, também, todo o cuidado a nível estético, no que ao objecto livro diz respeito. A começar, claro está, pela capa.
Foi-me particularmente penoso ler este livro, não obstante a escrita irrepreensível da autora. Nitidamente, o caso "não és tu, sou eu". Quem me manda a mim ler sobre um assunto ainda tão doloroso? Prefiro não classificar.
Nunca tinha lido nada da Isabel Rio Novo… e agora só penso que foi uma perda de tempo não ter lido nada antes. Adorei a escrita da autora, delicada e sensível, mas tão real. Pela clareza que imprime à sua escrita, conseguiu fazer-me sentir e perceber o que a personagem sente. A descrição da longa luta contra o cancro foi, por vezes, difícil de ler. Mas, ao mesmo tempo, adorei a forma como a personagem vê os outros e o mundo após o seu diagnóstico, de maneira perspicaz e até com pinceladas de humor. O tema não é fácil… mas a Isabel Rio Novo conseguiu escrever sobre cancro de uma maneira tão real, com coragem e verdade, sem rodeios ou floreados, alternando esta luta com a luta da bisavó da personagem, o que faz deste livro uma excelente história. Ou melhor, duas histórias que se ligam quando são descobertas cartas antigas num velho armário. E é esta ligação entre as duas histórias, entre passado e presente que constitui o ponto forte do livro, a meu ver. Ao mesmo tempo que vamos assistindo à luta de uma jovem mulher contra o cancro, aos telefonemas, mensagens e visitas cheios de frases feitas de quem não tem muito que dizer, conhecemos o conteúdo das cartas de amor entre os bisavós Álvaro e Madalena Brízida. São essas cartas, cheias de belas expressões de amor tão diferentes das frases sem sentido que a personagem vai ouvindo, que a acompanham nesta luta contra a doença. À medida que vai descobrindo mais sobre o romance antigo, a mulher cada vez se identifica mais com a bisavó, de quem nunca soube a verdade. Sabendo que a autora conheceu de perto a luta contra o cancro, imagino que a personagem tenha muito de si e das suas vivências. Por isso, pela enorme coragem da autora, ainda que seja um livro que nem sempre é fácil de ler, é impossível não criar grande empatia com a jovem professora. Não é um livro que possa ser lido com leveza ou indiferença, pelo contrário: obrigou-me a pensar na nossa condição de humanos, em como nada é garantido, e fez-me refletir sobre a forma como encaro a vida e a morte.
Enquanto se submete a tratamentos para um cancro da mama, uma jovem professora de História, "ocupa os longos dias a examinar papéis, retratos e cartas dos bisavós que encontrou num velho armário de livros que outrora lhes pertenceu."
* Gostei muito da forma de escrever de Isabel Rio Novo (que não conhecia) e de como conseguiu entrelaçar de forma magistral as 2 histórias (a da narradora e a da sua bisavó Madalena) com a intersecção dos dois tempos (presente e passado) a acontecerem muito naturalmente, como acontece, por exemplo, quando o conteúdo de cartas românticas se intercalam com o conteúdo de relatórios médicos.
* Achei muito interessante as referências subtis a outras obras da autora, nomeadamente "A Febre das Almas Sensíveis" e "Rua de Paris em Dia de Chuva", uma espécie de "piscadela de olho" que a autora gosta de deixar aos leitores que lêem mais do que um livro seu.
* Apesar do tema ser muito pesado, foi uma viagem incrível e gostei da forma como a protagonista nos vai contando sobre a evolução da doença, sobre a reacção aos diversos tratamentos médicos, sobre as adaptações às mudanças corporais, sobre a sucessão de esforços e de desilusões e sobre a forma como se vai relacionando com as pessoas que a rodeiam, imaginando o que lhes vai na cabeça. Existe ainda uma presença permanente da memória das suas relações amorosas passadas (com o André, com o "outro" e com os "irrelevantes"), das alterações emocionais à medida que se vai preparando para o fim, dos sonhos da protagonista e do balanço de vida com a percepção de que nem sempre soube fazer uso da vida porque sempre pensou que teria tempo.
* Gosto do papel que é dado ao passado e à busca da história dos antepassados da narradora. O contacto com a fotografia da sua bisavó, uma mulher ruiva e misteriosa, que nunca conheceu, funcionou como uma verdadeiramente fuga, real e imediata, que a ajudou a aguentar o penoso caminho dos tratamentos.
* Gostei muito de conhecer a protagonista, de quem nunca chegamos a conhecer o nome. Apesar de nos estar a contar um ano e meio da sua vida marcado pela dor, nunca se trata como uma vítima, a mendigar sentimentos de pena. Isabel Rio Novo diz numa entrevista que o "desafio foi criar uma personagem que não fosse naturalmente ou obviamente simpática, mas que, mesmo assim, contra vontade dela às vezes, levasse o leitor a identificar-se com ela e a estabelecer com ela uma relação de empatia. Por isso ao humor ácido junta-se muitas vezes uma certa ternura, que espreita inesperadamente do canto mais insuspeito. Em todo o caso, o humor salva-nos sempre, sobretudo o que direccionamos a nós próprios." Acho que foi muito bem sucedida na construção de uma protagonista forte, que adorei conhecer.
Têm-me desiludido bastante a maioria dos novos escritores portugueses. De Isabel Rio Novo ouvi falar por ter escrito a biografia da Agostina Bessa Luís . Para experimentar a sua forma de escrever procurei um livro no Kobo Plus - gratuito para quem tem a assinatura mensal .
Escrito na primeira pessoa conta a sua luta contra um cancro ao mesmo tempo que faz reviver a história da sua bisavó Madalena.
“Mas a surpresa de não doer doia tanto como se doesse” .
É muito bonita a maneira como a autora intercala as frases que os familiares e amigos que lhe telefonam a dar força e coragem ( frases feitas que todos nós dizemos quando não sabemos o que ajudará mais o doente) com as frases escritas pelo seu bisavô Álvaro Amândio à sua bisavó Madalena Brígida .
Gostei muito da sua maneira de escrever. Senti com ela muito do que ela conta que sentiu . Gostei do que li . Identifiquei-me com ela na observação de outras pessoas com uma impressionante perspicácia e humor .
Descreve o seu calvário com coragem, com verdade e também com poesia : “ Não queria pensar na doença nem no corpo que já não era meu, e pensava nisso constantemente em pontadas de aflição. “
Este livro valeu-lhe o Prémio João Gaspar Simões em 2016. Quanto a mim bem merecido . Gostei muito .
Gosto muito da forma de escrever de Isabel Rio Novo, da elegância e sensibilidade conjugada com a força das palavras, do ritmo que prende, da reflexão que estimula. Do ar que faz conter no peito e da emoção que passa. Este livro não foi exceção, se bem que seja um tema que mexe muito comigo. A protagonista, uma jovem professora, debate-se com um cancro de mama, em estágio avançado. As dúvidas, os tratamentos, a forma como vê e é vista pelos outros, o novo conceito de tempo, as adaptações a cada estágio da doença, e as muitas questões que já me passaram tantas vezes pela cabeça, foram, em muitos momentos, de cortar a respiração! A par deste processo de tratamentos, vai desvelando, por meio de pertences que encontrou, a história dos seus bisavós. Acabam por se entrelaçar a sua vida até ali, quando se via na foto tirada na praia, onde as sombras ainda não pairavam sobre os seus pensamentos e os seus dias, a memórias de tudo quanto viveu e deixou por viver, a história dos bisavós e o presente. Nunca ninguém prevê o que o futuro nos reserva, nunca ninguém sabe como vai encarar os “murros no estômago” que a vida nos pode dar. E nunca ninguém sabe o que se passa na cabeça de quem vive situações como esta. Certo é que a jovem que ela vê na fotografia é cada vez menos ela, está cada vez mais distante, como fazendo parte de uma outra vida. E é nas cartas, nas fotos dos bisavós que se vai encontrar a si própria, identificando-se com a bisavó Madalena. Aconselho vivamente a leitura deste livro!
Não é um livro fácil e por isso, fiz algumas pausas e não, não me refiro á escrita, que mantêm a mesma precisão e clareza que aprecio mas ao teor... Leitor(a) certamente que não o irá encarar com leveza ou indiferença. Escrito na primeira pessoa, a de uma jovem professora que enfrenta um carcinoma de mama quando se decide a examinar os papéis deixados num móvel pertencente aos seus bisavós. Madalena era o nome da bisavó. A dualidade de versões convivem nesta narrativa, mas há um maior destaque à atualidade da narradora. Ambas as mulheres se debatem com a devastação que sentem. E com os seus desfechos. Madalena. Madalena.
"Às vezes, há um silêncio em meu redor que me envolve num abraço quente. Nada me inquieta, nada me perturba."
A escrita da Isabel Rio Novo foi uma agradável surpresa. É, na verdade, das minhas escritas preferidas, melodiosa, envolta de harmonia. O tema é-me muito próximo: cancro. Uma doença que tem fustigado a minha família. Esta leitura inquietou-me, recordou-me de momentos dolorosos, como se uma nuvem carregada pairasse sobre mim. Acima de tudo, mostrou-me a importância de pequenos gestos. 🤍
Madalena was the first book I read by Isabel Rio Novo, and I approached it with the clean curiosity of someone who doesn’t yet know what to expect. What I found was a novel suspended between two tensions: the almost surgical sharpness with which it portrays human fragility, and the structural unevenness of a narrative that doesn’t always sustain the ambition it sets for itself.
The narrator — unnamed, a teacher, a woman in her thirties — sees her life interrupted by a diagnosis of advanced breast cancer. There is no trace of melodrama in Rio Novo’s writing; on the contrary, the author adopts a restrained, lucid voice that observes the illness from both inside and outside, registering condescending gestures, ill-timed questions, and the fragile hopes the world projects onto those who suffer. Some pages have a disarming sincerity.
As an escape from the fatigue caused by the objects that silently witnessed the tumour’s growth, the protagonist dives into the contents of a recently inherited oak wardrobe. Marked books, notebooks, letters, photographs — all become fragments of a family story she is determined to understand. This is how Álvaro Amândio, the diligent great-grandfather, and Madalena Brízida, the beautiful, ill-spoken-of woman whose reputation was stitched together by rumour, enter the scene.
The contrast between the narrator’s suspended present and the intrigue of the family past is, on paper, one of the most compelling aspects of the book. The idea works: two timelines, two mirrors, two fragilities separated by decades. But the stitching between them isn’t always as fluent as it needs to be. At times, the narrative seems to stumble from one register to another, leaving loose threads that weaken the novel’s final impact.
Another element that unsettled me was the portrayal of the narrator’s profession. The way her return to school is described — full of shouting, expulsions and caricatured routines — introduces a stereotype that impoverishes the character and adds little to the plot. In a novel that invests so much rigour in describing illness, this informational lightness in a secondary but significant field is surprising.
Yet it would be unfair not to recognise what Madalena does well — and it does a great deal well. There are moments when the writing becomes luminous in the rawest sense. When the narrator thinks of time as water slipping through the fingers; when she confronts the idea of a truncated future; when she discovers, in old letters, a family secret that rearranges not only the past but the way she reads herself. Rio Novo masters silence, pause, and the space between — and that is rare.
As a first encounter with Isabel Rio Novo, Madalena left me with a mixed impression, but certainly not an indifferent one: it is a novel that falters in some mechanisms yet strikes at the nerve of human experience. It does not console, does not sweeten, does not offer escape — and perhaps it is precisely this refusal that makes it so honest.
It is not a rounded book. But it is a book that looks at pain with a candour that does not pretend. And for that reason alone, it deserves to be read.
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Madalena foi o primeiro livro que li de Isabel Rio Novo, e cheguei a ele com a curiosidade limpa de quem não sabe o que esperar. O que encontrei foi um romance que se move entre duas tensões: a nitidez quase cirúrgica com que retrata a fragilidade humana e a irregularidade estrutural de uma narrativa que nem sempre sustenta a ambição que propõe.
A narradora — sem nome, professora, mulher de trinta e poucos anos — vê a sua vida interrompida por um diagnóstico de cancro da mama em fase avançada. Não há, na escrita de Rio Novo, qualquer tentação melodramática; pelo contrário, a autora usa uma voz contida, lúcida, que observa a doença de dentro e de fora, registando os gestos condescendentes, as perguntas impróprias, as esperanças frágeis que o mundo projecta sobre quem sofre. Há páginas de uma sinceridade que trespassa.
Como fuga ao cansaço dos objectos que testemunharam o avanço silencioso do tumor, a protagonista mergulha no conteúdo de um armário de carvalho herdado. Livros sublinhados, cadernos, cartas, fotografias — tudo se transforma em fragmentos de uma história familiar que quer compreender. E é assim que surgem Álvaro Amândio, o bisavô rigoroso, e Madalena Brízida, a mulher bela e maldita cuja reputação foi sendo bordada a rumores.
O contraste entre a vida suspensa da narradora e a intriga do passado é, no papel, um dos aspectos mais interessantes do romance. A ideia funciona: duas linhas temporais, dois espelhos, duas fragilidades separadas por décadas. Mas nem sempre se costuram com a fluidez necessária. Por vezes, parece que a narrativa tropeça entre um registo e outro, deixando fios soltos que dificultam o impacto final.
Há ainda um ponto que me desconcertou: o retrato da profissão da narradora. A forma como o regresso à escola é descrito — assente em gritos, expulsões e rotinas caricaturais — introduz um estereótipo que empobrece a personagem e não acrescenta densidade ao enredo. Num romance que investe tanto rigor na descrição da doença, surpreende esta leveza informativa num campo que, sendo secundário, merecia mais cuidado.
Mas seria injusto não reconhecer o que Madalena faz bem — e faz muito bem. Há momentos em que a escrita se torna luminosa, na acepção mais crua do termo. Quando a narradora pensa o tempo como água que escorre; quando confronta a ideia de futuro amputado; quando descobre, nas cartas antigas, um segredo familiar que reordena não só o passado, mas o modo como ela própria se lê. A autora domina o silêncio, a pausa, o intervalo — e isso é raríssimo.
Como primeiro encontro com Isabel Rio Novo, Madalena deixou-me com uma impressão mista, mas não indiferente: é um romance que falha nalguns mecanismos, mas acerta no nervo da experiência humana. Não conforta, não adoça, não oferece saída — e talvez seja justamente essa intransigência que o torna tão honesto.
Não é um livro redondo. Mas é um livro que olha a dor com uma frontalidade que não se finge. E, por isso mesmo, merece ser lido.
Nunca saio defraudada das leituras que faço dos livros de Isabel Rio Novo. Neste momento, considero-a uma das melhores escritoras portuguesas na nossa produção literária contemporânea. O livro baseia-se em duas histórias, a da narradora e a da sua bisavó Madalena, assente em tempos distintos: o presente, o passado (1920) e o sonhado, mas que acabam por se interligar e dar sentido à narrativa. Nesta narrativa há registos autobiográficos soberbamente mesclados à escrita ficcionada. A professora de história doente oncológica vai ocupar o seu tempo, “Tempo para esperar. E até lá, até esse desfecho qualquer, tempo para cumprir.” (p. 55) a ler as cartas dos seus antepassados e a descobrir a “viagem que com elas começava.” (p. 27). Logo no início, somos informados da doença que afecta a protagonista, receamos pelo teor da narrativa, mas rapidamente percebemos que a urgência da protagonista não é a das “decisões expeditas”, mas sim a de descobrir “novas dimensões do tempo” e por isso opta pela arrumação de coisas velhas herdadas, partindo à descoberta de cartas, livros, fotografias… Será então o tempo, a passagem do tempo, o fio condutor desta belíssima narrativa. É de vida e de morte, de bons e maus momentos, de sonhos, de memórias, de experiências vividas, de vivências sofridas, de novas dimensões do tempo, de “recorte de momentos, uma coleção de retalhos cheia de emendas e intervalos.” (p. 25) É na intersecção dos vários tempos que considero que a autora brilhou. A narrativa balança harmoniosamente entre a história da narradora e a da Madalena Brízida, a bisavó, conduzindo o leitor nos meandros da doença e da crise matrimonial, do amor e do desamor, dos amores recalcados. A narrativa é construída no paralelismo destas duas personagens femininas e no final tudo faz sentido. Gostaria ainda de focar dois aspectos que considerei interessantes. O primeiro é a referência, no enredo, de dois títulos de obras da autora e a segunda é a excelente selecção da obra “Les feuilles mortes”, da pintora surrealista Remédios Varo para a capa. Pormenores que evidenciam a preocupação com os detalhes e com a concepção de uma obra de arte que afinal o livro também é.
Não conhecia Isabel Rio Novo e comprei "Madalena" por impulso — revelou-se uma bela surpresa. A escrita é envolvente e conseguiu criar em mim um ritmo de leitura fluido que me prendeu desde o início.
É um relato cru e real sobre a doença, mas tratado com muita sensibilidade. A autora apresenta-nos duas mulheres complexas, imperfeitas e muito reais, com as suas dores expostas de forma honesta e comovente.
Gostei da forma como o passado e o presente se entrelaçam, e da influência da herança emocional na história. Sinto que esta história vai ficar comigo por muito tempo.
"Foi para ele que me dirigi nessa tarde. Os papéis e os livros tinham sido acamados à toa nas prateleiras (…). No momento em que abri a porta, caíram-me em cima e, por ironia, precisamente sobre a zona do seio esquerdo em que as incidências da radiografia diziam que se localizava o maior tumor, livros desmembrados, velhas pastas de cartolina, maços de cartas amarelecidas a desfazerem-se nos vincos, um caderno azul pautado que se abriu a meio e uma porção de fotografias a sépia, embrulhadas em papel de seda, que se derramaram no soalho. Ajoelhei-me." Pág. 12
E assim a narradora se dá a conhecer e liga de imediato o presente a um passado longínquo. A disponibilidade forçada do momento permitir-lhe-ia esta viagem e sendo ela uma professora de história e amante do passado adivinhavam-se horas de alheamento preciosas.
Primeiro livro que li de Isabel Rio Novo … é de se lhe tirar o chapéu! Encantou-me a sua escrita elegante, franca, depurada, delicada. A própria capa é um esmero de beleza e intencionalidade. Parabéns! Ganhei mais uma escritora… portuguesa… da minha cidade inclusive… que feliz fico!
"É novamente Inverno. Os dias sucedem-se, rápidos e idênticos. Parece que todos os dias chove. Dir-se-ia que a chuva chora por mim, dispensando-me de manifestações exteriores de sofrimento. Chuva miúda que deprime como uma angústia. Chuva fina, deslizando arabescos frágeis na superfície dos vidros. Chuva pesada, em bátegas volumosas, como um marulho monótono e rabugento. Chuva forte, batendo com fúria, atirada pelas rajadas de vento." Pág. 177
A narrativa desenrola-se então entre um presente que ninguém espera que aconteça (as desgraças são apanágio dos outros) e um passado enigmático: uma história de amor (ou desamor) que a narradora vai descobrindo ao ler as cartas dos seus antepassados, preservadas num velho armário livreiro em carvalho com linhas sóbrias e a beleza simples dos veios que resistiu ao tempo. Que maravilha!
Tempo, essa medida arbitrária da duração das coisas e que aqui é esmiuçado, redimensionado, explorado, amaldiçoado, questionado…
"Deve ser assim que se morre, pensei. A morte preenche-nos pouco a pouco, como uma ocupação completa que requer dedicação. «Fulano ou fulana» está a morrer era uma frase que agora compreendia cabalmente, como a descrição de um processo que exige perseverança, empenho, cuidado e devoção." Pág. 168
Tendo uma filha Madalena, mal vi este livro pensei logo que tinha de o ter e o Pai Natal foi amigo e acho que era um livro adequado a mim.
Li este livro para o projeto #lusiteratura da Patricia Rodrigues, que me tem feito conhecer novos autores nacionais.
Foi a primeira vez que li algo escrito por Isabel Rio Novo e, apesar de pensar que este livro iria incidir mais na história de Madalena e menos na história da narradora principal e a sua luta contra o cancro, acabei por gostar bastante.
Ao longo do livro, a protagonista, professora de profissão descobre e inicia os tratamentos para um cancro da mama bastante avançado, ao mesmo tempo que recebe em sua casa um armário que herdou dos seus avós carregado de livros e memórias. Ao longo do tempo, irá desvendar a história dos bisavós, Madalena e Álvaro Amândio através de cartas, recortes e fotografias. Vamos conhecendo as suas dúvidas, inseguranças, relacionadas com os tratamentos e a própria doença, os seus amores e desamores, nomeadamente a relação terminada com André (que por sinal terá ficado mal resolvida) e o Outro.
Este é um livro que nos leva a refletir, que nos faz pensar em como com o passar do tempo, vamos mudando a forma como pensamos, sentimos e nos vemos. Quem nunca pensou numa situação que ocorreu há 15 anos atrás e achou que era uma pessoa totalmente diferente...
Esta foi uma história que mexeu comigo, lida praticamente durante um fim-de-semana, e obviamente recomendo a sua leitura, apesar de achar que para pessoas com historial de cancro ou com familiares/amigos próximos com esta doença, será talvez um murro no estômago e um aperto na garganta em diversos pontos.
"Não soube fazer uso da vida, tal como confessava Raul Brandão na velha edição das Memórias que herdei do meu bisavô, em cujas palavras reconheço tanto do que sinto hoje. "
Aquela que poderia ser uma história mais ou menos banal, torna um livro brilhante pela forma como é narrada.
Temos uma protagonista que, como ela refere, vive no passado, gosta de esmiuçá-lo e passar lá algum tempo do seu presente.
Particularmente brilhante a estrutura do livro, formal e material, através da qual conseguimos entrar na cabeça da narradora e dos seus interesses, receios e disposições. Como, durante os tratamentos de um cancro, a sua atenção se foca na vivência dos seus bisavós, descobrindo mais sobre os seus antepassados.
Temos uma mistura até irónica entre o passado, a memória e o presente, a doença. Capítulos do passado, do presente, de sonhos e viagens.
Outro ponto assinalável é o facto de a protagonista/narradora não ser vestir o papel de vítima do cancro. Ela não é só boa nem só má e, apesar do cancro aos seus 34 anos, não há uma romantização ou puxada fácil à lágrima. É um livro duro, pesado, em que no final sentimos pela personagem mas sem o paternalismo ou infantilização do coitadinho - tudo o que ela contrária entre familiares, amigos, colegas de trabalho e até livros ou blogues ou informações com que se vai deparando.
(A referência aos outros 2 livros da autora - “A febre das almas sensíveis” e “Rua de Paris em dia de chuva” - é um mimo).
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Creio ser importante começar por dizer que falar de “Madalena” é falar de cancro da mama. Para mim é, visto ser esse, na justa medida, o assunto de um livro onde se expõe, sem rodeios, a forma como alguém lida com o flagelo da doença. Estamos perante aquele que é o mais comum tipo de cancro entre as mulheres, tendo vitimado mil e oitocentas só no último ano, de um total de sete mil mulheres a quem a doença foi diagnosticada. Na primeira pessoa, Isabel Rio Novo propõe-nos a figura de uma mulher que sucumbe à doença. Uma mulher radiosa, cuja luz vemos apagar-se à medida que atravessa as fases de um processo onde cabem diagnósticos invasivos e dolorosos, cirurgias de grande escala, tratamentos coadjuvantes altamente agressivos, o aprender a viver com as alterações induzidas pela doença, as pressões psicológicas e sociais que vão surgindo e importa ultrapassar. No fim, sem tabus, de forma corajosa e digna, a morte é assumida como o fim de um tempo, uma inevitabilidade para quem vem ao mundo. Seja quem for.
Devo confessar que sinto por Isabel Rio Novo uma enorme admiração. Há na sua escrita uma linguagem que se aprende a reconhecer, feita de um enorme cuidado na abordagem dos sentimentos e de um rigoroso critério na escolha das palavras, o que transforma cada livro seu num exercício de sensibilidade, elegância e bom gosto. No caso de “Madalena”, porém, a autora vai mais longe, acrescentando ao livro a sua própria experiência e as memórias de um tempo em que, também ela, travou uma luta tenaz contra o cancro. Um livro corajoso, pois, com a autora a dar muito de si à personagem, permitindo dizer aquilo que só alguém que viveu a doença pode dizer. É essa verdade que prende o leitor e o ajuda a criar uma invulgar empatia com esta mulher, a entender o seu sofrimento e a ser cúmplice das suas opções, ao mesmo tempo aprendendo a reconhecer novas dimensões no tempo e diversos sentidos na vida.
Não se pense, porém, que “Madalena” é uma espécie de ensaio sobre o cancro da mama ou um qualquer livro de auto-ajuda, desses que vendem meio milhão de exemplares enquanto o diabo esfrega um olho. Frio, frio, frio. É perante literatura da boa que estamos, um romance tecido no melhor que a nossa língua tem para oferecer, consubstanciado no refazer da história dos bisavós da personagem, Álvaro Amândio e Madalena Brízida, através das cartas trocadas entre ambos. Se, por um lado, retiramos um enorme prazer do confronto entre duas épocas tão distintas, o carácter epistolar do livro acrescenta-lhe interesse, sobretudo pela beleza dos trechos, cobertos por uma fina patine romântica mas deixando perceber o quanto as diferenças de género marcaram, intensa e dolorosamente, sucessivas gerações de mulheres. É na busca das semelhanças entre esta Madalena, de “cabelos ruivos, bastos, (…) os olhos claros, o perfil insinuante”, e a sua bisneta, tão diferente de si na aparência mas afinal tão próxima, que partimos, navegando pelas páginas deste livro em sobressalto permanente.
Penso que nunca li um livro tão cru e realista sobre a doença – neste caso, o cancro – um autêntico murro no estômago, que também serve como alerta: temos de aproveitar o máximo desta vida, viver cada dia como uma dádiva, pois o amanhã pode não chegar.
Aqui não há estratégias fáceis para puxar a lágrima ao leitor. Temos a frustração, a raiva, a inveja de quem está saudável. Enfim, o ser humano real quando confrontado com a sua mortalidade.
É um livro para ler aos poucos, para parar e respirar de vez em quando. Dói e muito… mas é um livro que, no fundo, faz-nos bem.
Mais um excelente livro de Isabel Rio Novo. Madalena, conta a história de uma jovem professora de História que tem um tumor e é obrigada a parar a atividade profissional durante uns tempos. A protagonista herda um móvel dos avós que faleceram recentemente, e dentro dele encontra maços de correspondência antiga entre os bisavós, que a vai distrair durante a doença. Com a reprodução das cartas que o bisavô escreveu à bisavó Madalena, vamos acompanhando o desenrolar do romance entre eles. Resistente ao princípio, Madalena acaba por ceder à vontade do pretendente e a relação vai avançando ou recuando conforme o tempo vai passando. Esses avanços e recuos dessa relação são desenvolvidos a par da evolução e tratamento da doença da narradora, com a intenção de criar um paralelismo. Este livro analisa a condição humana e a forma como encaramos a vida e a morte. Também são narradas histórias de vida, são apresentadas relações marcadas pelo mistério, pela traição, pela tragédia e pela morte, mas também outras pautadas pela dedicação familiar e pelo amor conjugal. Há em Madalena pistas para livros publicados, como o assunto da doença em A Febre das Almas Sensíveis ou a arte em Rua de Paris em Dia de Chuva.
Um romance muito triste, diria mesmo depressivo e quase deprimente, mas carregado de emoção e muito sóbrio onde podia escorregar para o excessivo. Não me desiludiu, mas, ainda assim, prefiro “Rua de Paris em Dia de Chuva” (5 estrelas) e “Rio do Esquecimento”. Parece-me poder dizer que este “Madalena” não é aconselhável a doentes com cancro.
Li de um fôlego. Nem consigo dizer muito… apenas que me entreguei, vivi, sofri, acompanhei e achei avassaladora toda a trama, toda a descrição e gostei, gostei muito. Ainda lá estou… no bisavô, na bisavó e em Madalena, Madalena
Estou numa luta interna entre a tristeza desta história e a felicidade de encontrar uma autora de que gostei tanto 💜 não a conhecia, nunca tinha lido nada dela, mas desde as primeiras frases que li soube que ia adorar a sua escrita, não me enganei!