Podiam ter vida diferente da que já tinham? Quem, desde aquela idade, se habituava àquelas concessões, quem passava a olhar como naturais, como “humanas”, todas aquelas pequenas misérias, aquelas renúncias humilhantes, aquele espírito de canalhismo, de devassidão, jamais poderia valer alguma coisa?
Em uma sociedade ensombrada pela mentira e hipocrisia, onde a esperteza para com o próximo e a satisfação dos prazeres carnais são a lei básica da existência, cada indivíduo é confrontado nos momentos decisivos da vida a tomar uma decisão interior, uma decisão que influirá sobre o resto do seu destino.
É com esse ambiente que Branco e Pedro Borges, dois jovens estudantes de um colégio carioca, se deparam no limiar da juventude, quando a vida ainda corre mansamente, como se nada mais existisse senão aquela espera carregada de promessas, aquela ilusão sem maior importância, para adentrarem o mundo adulto, onde hão de trilhar o próprio caminho. Alguns se recusam a pactuar com as misérias humanas, rebelando-se contra o mecanismo cego que domina o mundo; outros aceitam, tácita e levianamente, as regras do mundo, sofrendo a terrível loucura da carne.
Otávio de Faria (Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1908 — Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1980) foi um jornalista e escritor brasileiro.
Filho de Alberto de Faria e de Maria Teresa de Almeida Faria e cunhado de Afrânio Peixoto e de Alceu Amoroso Lima.
Foi membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de janeiro de 1972 para a cadeira 27, recebido em 6 de junho de 1972 pelo acadêmico Adonias Filho.
Autor da monumental obra testemunhal (e profética) A Tragédia Burguesa.
Uma alma de forçosa delicadeza (Branco) diante de uma série de pequenas misérias suficientemente grandes para entender a vida. Do outro lado Pedro Borges, um porco fruto tanto do moralismo de sua mãe quanto da depravação do seu pai.
Mario de Andrade fala no prefácio: "[...] apesar das diminuições de sua liberdade de artista lhe impostas pelo seu pragmatismo virulento, [os leitores] continuarão lendo e tomando partido com ou contra Octavio de Faria e suas almas. Porque Octavio de Faria é simplesmente um grande romancista, que com as suas admiráveis forças criadoras, conseguirá entusiasmar todo leitor bem intencionado." Esse livro é sim extremamente moralizante, há um claro embate entre o bem x o mal e pronto para julgar, no sentido que cada personagem está tão envolto em sua própria verdade que passa todo o discurso do livro condenando o outro. Há a verdade de Branco, que se desenvolve com a narrativa; a de Pedro Borges, que é o oposto de tudo que Branco representa; e o do professor Veloso, que no início era aglutinado por Branco e é a representação do Liceu. Branco, desde o início, tem essa certeza do que é certo e errado, antes pela moral e depois pelos preceitos religiosos. Nessa sua bolha de certeza ele trata tudo que é relacionado ao despertar sexual da adolescência como mal, o corpo físico é constantemente associado à sujeira, ao "lodo das ruas". Quando ele percebe que sua paixão de infância, agora enfeitiçada pelos charmes de Pedro Jorge, está moralmente corrompida, começa o questionamento do que ele faz naquele meio, a volta as aulas não ajudam muito, o liceu, que até incentiva a secularidade ante a espiritualidade, também está repleto desse "mal" que o sufoca e é na religião católica que ele encontra força para afirmar seus sentimentos. Branco sempre foi muito quieto e taciturno, mas todos acham que ele fica ainda mais fechado em si e até é chamado de fanático, essa é uma crítica dos personagens e não do autor, que afirma explicitamente que Branco é sim um heroi, com seus momento de fraqueza e de se achar acima do que é, mas é o caminho natural de alguém que ainda está dando os primeiros passos na vida religiosa, no que ele chama de verdadeiro caminho da vida realmente vivida. Pedro Jorge é o contrapondo de Branco, de seu espírito e da sua família. Desde cedo ele sempre apoiou e permaneceu ao lado do seu pai, na primeira vez que temos conhecimento do que realmente ele pensa, afirma que o pai ter estuprado a empregada foi apenas aproveitar a ocasião apresentada e que o grande mal de tudo aquilo foi o escândalo. "Detalhes. Acasos. Formalidades de leis absurdas, certamente feitas por moralistas espertos, para o bom uso dos hipócritas. Eles, os seus tão proclamados princípios de moral, é que tinham feito com que Maria se recusasse a um desejo, a uma série de prazeres, a que, normalmente, pela sua própria natureza de mulher, não se negaria, não se poderia furtar. Daí viera o mal, a atrapalhação toda, o desespero, o escândalo final. Daí e não do desejo de seu pai, que, em si, nada tinha de criminoso, de anormal - não passando da necessidade que todos os homens sentiam e a que se entregavam livremente, apesar das aparências." Pedro não só pratica o mal, ele encarna e adora isso, na escola e em todos os grupos que participa é ele que atiça isso em outros garotos. E por tudo isso ele é o orgulho do seu pai que o considera esperto e ávido para realmente viver a vida, essa vida burguesa que o autor tanto critica. Pedro usa tudo e todos para alcançar seus objetivos e nada do que faz é condenado pelos seu colegas ou superiores. Para Pedro a religião é um "sistema implacável de deformação por enrijamento dos princípios", a sua mãe usava a igreja como meio legitimador para agredir Pedro, querendo agredir o pai do menino, que para ela eram os mesmos, o mesmo mal, o mesmo pecado, a mesma culpa. Quando vai morar com o pai, Pedro se descobre livre para fazer o que quiser como bem quiser, livre para praticar todos "os crimes" O embate entre Pedro e Branco se dá durante todo o livro, no início pela atenção de Elza e depois para ver que vai impor suas verdades. Cada um se julga o heroi da sua própria narrativa, mas sabemos que claramente que Branco é o verdadeiro "[queria] tornar-se um exemplo, viver como herói." Como diz Mario de Andrade, se o leitor puder superar toda a moralidade e as limitações que isso traz, encontrará um excelente romance, com uma carga interior tão potente e questões que sempre estiveram nas narrativas dos homens, o clássico bem x mal, corpo x espírito. Eu tinha gostado bastante do primeiro volume da Tragédia Burguesa, mas esse é muito melhor, espero conseguir ler todos.