Mary-Jane Rubenstein – Astrotopia
Quando Iniciei o livro “Astrotopia” esperava que o mesmo fizesse uma análise à deriva “utópica” de exploração espacial corporizada por Elon Musk, Jeff Bezos e outros. E se esta era a minha espectativa, ela não foi de modo algum gorada. Numa proza elegante, esclarecida, irónica e bem humorada, Mary-Jane descreve-nos as ideias dos que são a “guarda avançada” da exploração comercial do espaço incentivada pelos responsáveis do governo americano e pelas organizações nacionais (NASA) que veem nesta complementaridade entre organismos oficiais e privados uma porta giratória de poder e proventos. Estava eu longe de imaginar que esta exploração tinha sido entregue por Barak Obama a privados para transformar o que até então era uma exploração cuidadosa vocacionada para o conhecimento do universo e do que significa ser humano, para ser transformada numa desenfreada e estupidamente utópica exploração do espaço. Fiquei chocado, ainda mais por isso ter acontecido durante um mandato de um presidente que via com uma visão que a autora descreve como “panteísta”. Como estava errado e iludido com o “flop” que foi o consulado Obama. Obama deu corpo a uma ideia que o antecedeu e que a autora situa pelos primórdios da corrida ao espaço e o período auge da guerra fria, um período e uma competição protagonizada pelos presidentes Eisenhower e JFK. Esperava eu que este aspecto fosse o tema central deste livro, e se o fosse já teria cumprido boa parte das minhas expectativas.
A deriva espacial americana transporta para a exploração dessa nova fronteira triliões de dólares, fortunas e riqueza de todos nós humanos e que poderia ser utilizada na “reparação” de um planeta moribundo entre outras, pela deriva que agora nos é “vendida” como de salvação da espécie e da nossa cultura. Como defende a autora, é um sistemático raciocínio capcioso onde as causas para uma dada intervenção são justificadas pela acção dessas mesmas intervenções. É um raciocínio circular que Mary-Jane não se cansa de repetir ao longo das suas 200 páginas. Como é possível investir esses triliões de uma forma absurdamente lesiva para o planeta dizendo que é um investimento para o salvar. Mas salvar quem, quando, como, e se alguma vez conseguirem algo aproximado, será a que custo?. Mas é fácil de perceber o que move os “astrotopista”. Elon Musk diz-nos que o planeta está à beira da exaustão e só fora dele encontraremos a salvação. E quando lhe é dito que ele ao tentar salvá-lo agrava mais ainda a sua situação, a sua resposta foi elucidativa – “que se foda o planeta!”. Jeff Bezos, tem uma prespectiva algo diferente. Bezos vê o planeta a ficar exausto de recursos e como se recusa a ter mais parcimónia no que consome, tem uma fuga para a frente, não reconhece que foi o modelo de crescimento económico capitalista que nos trouxe até aqui e recusa liminarmente alguma contenção aos seus hábitos de consumo. Os EUA consomem por ano 1/5 do que o planeta consegue renovar nesse mesmo espaço. Se o consumismo americano necessitava de 5 planetas, o de Jeff Bezos e o que ele gostaria de deixar de legado aos seus descendentes é seguramente 10X maior.
Indivíduos com Musk e Bezos são um câncer na sociedade cuja remoção urge se queremos ter alguma esperança de cura a médio prazo.
Se o livro de Mary-Jane Rubenstein se limitasse a esta análise já estaria mais que justificado, porém a autora brinda-nos com o seu conhecimento da bíblia e de outras formas de visão do mundo mais panteísta para fazer uma brilhante ponte entre o ideal bíblico da criação contido na expressão, ide e multiplicai-vos e enchei a terra. Dominai os mares, os animais, as plantas e tudo o que a vista alcançar. E foi mesmo isso que fizemos e o resultado foi a construção do modelo de crescimento capitalista, sempre dependente do crescimento para pagar a dívida, um crescimento que quanto mais acelerado estava maior crescimento implicava para se manter sustentado. O resultado é a perda de biodiversidade, a poluição, a devastação de florestas e mares, a destruição da casa comum. Mary-Jane faz aqui uma brilhante ligação entre o ideal cristão e católico com os períodos das descobertas de áfrica e das américas e de que forma o beneplácito papal de então legitimou toda a devastação então iniciada. Eram outros tempos bem sei, mas os argumentos que então justificaram a devastação e delapidação desses novos mundos correm agora o risco de se repetirem pala mão dos “astrotopistas”
Astrotopia de Mary-Jane Rubenstein, um livro que claramente recomendo e que sobre sociologia e ecologia é seguramente do melhor que tenho lido