O livro terminou, tendo eu nos últimos 2 dias hesitado entre ler muito rapidamente para concluir e saborear devagarinho para adiar o adeus. Não foi uma decisão fácil, resultou num equilíbrio de forças, ora vencia uma, ora outra, mas sem vencedor destacado ao longo do correr das páginas.
Estou ainda a assimilar.
O evidente, o que num perfume seriam a primeira, a segunda, mas também a terceira notas, é a intensa emoção com que o Telmo escreve. Nada de novo até aqui para quem conhece a sua página Pelo peito adentro onde habitualmente partilha o que lhe chega às mãos depois de banhos generosos de observação, sentimento e coordenação.
A Vila é um lugar mágico e não o digo por diversas vezes haver uma fronteira imprecisa entre o real e o surreal, mas pela riqueza daqueles que a habitam. Personagens que podem existir, afinal, em tantos lugares, compostas de mágoas, dores e traumas, mas também de esperança, resiliência e vontade de voltar a amar, o que é o mesmo que dizer: voltar a viver. Não me alargarei neste campo, deixo-vos o gosto da descoberta.
A narrativa não é temporalmente linear, temos avanços e recuos, fins que nos são apresentados clara e precocemente, deixando pontas soltas para encontrarmos o início. Sabemos que determinadas personagens vão acabar desta forma, mas não como a isso chegaram e, é nesse ir e vir que as vidas se vão formando. Aqui e além são deixadas informações , pormenores que um leitor atento encontrará que lhe permite ir tecendo as histórias. Aguardamos que a qualquer tempo se confirme aquilo que sabemos vir a acontecer. Não é que seja previsível, o amor e a vida é que são forças com destino traçado, só por vezes ainda não encontraram forma de lá chegar. Gostei especialmente destes toca-e-foge com as expectativas e os elementos soltos, aparentemente de forma inadvertida.
A ocorrência de uma tempestade leva os residentes a serem confrontados com as suas próprias intempéries interiores. Há uma constante dicotomia em diversas facetas: os perdidos e os achados, os felizes e os desiludidos, a terra e o mar, o corpo e a alma, o real e o além-real. A história vai tocando aqui e além, arrumando as vidas.
A ternura invadiu-me por diversas vezes. Não é lamechas, é antes intenso, como os sentimentos podem ser, se nos permitirmos. Gostaria de, também eu, ser recebida nesse local, uma entre vários personagens que ali se constroem. Algures entre a árvore amarela, os pássaros azuis, a âncora, o moinho e o mar!