Primeiro livro de poesia da Antofágica, O navio negreiro e outros poemas conta com ilustrações do artista Mulambö em diálogo com o projeto gráfico de Oga Mendonça, além de posfácio da atriz e poeta Elisa Lucinda.
"O navio negreiro" é mais que a narrativa poética de uma tragédia no mar: é a denúncia da escravidão. Com uma sensibilidade ímpar para a sua época, Castro Alves sabia que os tumbeiros vinham carregados de saberes ancestrais, carregados por povos que não eram sequer livres para morrer.
Esta edição, que começa com o célebre "O navio negreiro", inclui uma seleção dos poemas que tornaram Castro Alves o poeta dos escravizados – ou, como ele queria, o poeta da Liberdade. Em sua condição de homem branco, Castro Alves volta-se contra a branquitude escravocrata e toma para si uma luta que ainda ecoa nos dias de hoje.
Além de ilustrações de Mulambö e apresentação de Pétala e Isa Souza, do canal Afrofuturas, a edição tem posfácios do doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada Luiz Henrique Oliveira (Cefet-MG), da atriz e poeta Elisa Lucinda, do escritor e jornalista Tom Farias e da historiadora e especialista na diáspora africana Mônica Lima e Souza (UFRJ).
EXTRA: Ao escanear o QR Code da cinta, o leitor tem acesso a duas videoaulas sobre o livro com Luiz Henrique Oliveira, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG.
Antonio Frederico Castro Alves, mais conhecido como Castro Alves, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.
Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos, e, por esta, neto de um dos grandes heróis da Independência da Bahia. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se finalmente na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1º ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou apaixonada ligação amorosa com atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama Gonzaga e, em 1868, transferiu-se para o sul do país em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi, afinal, amputado no Rio, em meados de 1869. Sua saúde, que já se ressentira de hemoptises desde os dezessete anos, quando escreveu “Mocidade e Morte”, cujo primeiro título original era “O tísico”, ficou definitivamente comprometida. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.
Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora italiana Agnese Trinci Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa a que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão. Ainda em 1870, numa das fazendas em que repousava, havia completado A Cachoeira de Paulo Afonso, que saiu em 1876, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: “Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.”
Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada de forte sensualidade, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloquência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire. A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.
Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves, na linhagem de Victor Hugo, um dos seus mestres, viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista,
Como sempre, ler a edição da Antofágica é uma experiência maravilhosa. Os textos complementares são incríveis, li os poemas novamente deposi de lê-los e minha review aumentou em uma estrela por isso.
Os poemas são sofridos, como cabe ser. Gostei bastante e não me incomodei com o estilo afetado característico dos românticos. Acho que aqui o exagero ainda fica aquém da urgência do tema, infelizmente, ainda atual.
Existem obras que quer pela sua qualidade ou por sua importância são indiscutíveis, pouco importando se elas se adequam ou não gosto pessoal do leitor. O Navio Negreiro de Castro Alves entra nesse “seleto” clube de obras em que o gosto pessoal é irrelevante. Alguém não afeito a poesia pode alegar que a leitura não lhe agrada, mas não pode em hipótese alguma alegar contra a qualidade da obra. Pelo menos não, se não quiser passar um atestado de “ignorante” na pior acepção do texto. Tendo isso em vista é muito bem vinda a edição da Antofágica propondo-se não só reeditar o poema título como também trazer outros poemas muito provavelmente desconhecidos pela maioria dos leitores. Ok é muito provável que todos tenhamos sido expostos a pelo menos uma ou duas estrofes do Navio Negreiro, mas improvável que tenha passado muito disso. Se felicito a ideia da edição da Antofágica sou obrigado a pontuar que pelo menos no que respeita a versão digital o projeto gráfico mais atrapalha do que ajuda. Aliás não devo ter sido o único a ter tido essa impressão já que a mesma edição trás um qr-code que permite a leitura do poema em texto seco, sem firulas. Ok eu entendo a predileção dos leitores atuais por edições visualmente belas e chamativas, mas aqui me parece que houve algumas escolhas equivocadas que mais atrapalham do que ajudam e escancaram a discrepância da qualidade dos textos. Se me incomodou os desenhos e cores poluindo o texto do poema (na edição digital a diagramação não ficou boa), o corte abrupto, poema principal ilustrado e o restante seco, escancarou a ideia de que o poema importante aqui é O Navio Negreiro, os outros só estão ali para cumprir tabela. Ideia essa que ao lermos os textos de apoio se mostra equivocada.Se é incontestável que O Navio Negreiro seja a obra prima de Castro Alves, isso não significa que alguns dos outros poemas inseridos nessa edição não tenham seu apelo e sejam politicamente relevantes.Alguns serão citados e contextualizados nos textos de apoio e mesmo não o sendo, durante a leitura criam imagens belas e em alguns casos comoventes, mesmo em um não leitor de poesias como eu. Outro incômodo que tenho com essa edição e aliás com outras edições da Antofágica é que apesar de não ignorar o trabalho e capricho de suas edições, os convidados para os textos de apresentação parecem invariavelmente não entender para que serve esse tipo de texto. O dessa edição (compreensivelmente) possui um teor político e militante que mais atrapalha do que ajuda. Caberia aos textos de apoio pós-leitura traçar paralelos entre os poemas e a realidade atual e não ao texto de apresentação (se o texto em questão ainda fizesse isso, ok, mas falha miseravelmente). Mais valeria um texto contextualizando os demais poemas frente ao do Navio Negreiro. Para além do poema título e dos demais, ressalvando-se o caráter irregular dos textos, brilham nessa edição os textos de apoio pós-leitura. Além de trazer informações sobre o autor e do contexto político da época, alguns fazem paralelos entre Castro Alves e outra importante autora abolicionista. Talvez os textos pequem um pouco por idealizarem um pouco a figura do autor, mas de fato causa uma certa comoção que alguém privilegiado se mostre verdadeiramente interessado pelos oprimidos. O poema título dispensa apresentação, o paralelo que um dos textos de apoio faz com uma obra cinematográfica é muito oportuno. Sua construção e a forma como o autor envolve o leitor são impecáveis. Para mim as inserções gráficas foram intrusivas, mas novamente reforço que na edição física essas inserções parecem mais harmônicas. Para mim não funcionou bem, mas outros leitores provavelmente não vão se incomodar ou vão mesmo se maravilhar com elas. O Navio Negreiro & Outros Poemas de Castro Alves da editora Antofágica, portanto, a despeito dos pontos que comentei é uma boa edição para se conhecer melhor ou ter um contato mais aprofundado com este que talvez seja um dos poemas mais famosos já escritos por um autor brasileiro. A única ressalva que faço é que talvez seja mais interessante para o leitor a edição física onde o trabalho gráfico (a julgar pelas fotos) parece mais harmônico do que nas edições digitais.
O baiano Antonio Frederico de Castro Alves viveu apenas 24 anos (1847/1871). Em vida viu apenas o hoje clássico “Espumas Flutuantes” publicado. Todo o restante da sua obra (inclusive os poemas deste “O navio negreiro”) foi publicado post mortem. No entanto a exiguidade da sua vida não corresponde à grandeza de sua obra. Castro Alves pode ser enquadrado dentro do que se convencionou chamar de “romantismo”, mas seu romantismo ligava-se ao “condoreirismo”. O romantismo “condoreiro” tratava, além das dores e prazeres do amor, de temas sociais de forma bem engajada e, não raro, contundente. O poeta baiano elegeu o combate à escravidão como um dos temas mais essenciais de sua poesia e seu “O navio negreiro” até hoje é citado quando alguém se propõe a mostrar os horrores da escravidão.
“Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando, geme e ri!
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!
Como não se comover diante desses poemas? Trata-se na minha opinião de leitura obrigatória, principalmente nos dias de hoje em que certas pessoas atrevem-se a minimizar os males da odiosa instituição da escravidão. Mas a obra de Castro Alves vai muito além do clássico “Navio Negreiro” e esse livro é uma excelente introdução á obra do grande poeta.
Reflito como é, como foi, e como será a nossa maturidade em relação ao que somos. A evolução da sociedade. Como nos tratarmos? A obra representa uma forte voz no movimento abolicionista. Luz diante de tanta impetuosidade contra o diferente. Na versão que li, os comentários dos escritores, em especial da Elisa Lucinda, trazem com muita força a representação de seus poemas. Valeu a pena a leitura.
Reviewing this book is a bit delicate, and if it weren't for the support material provided by the publisher, I might not even be able to do it.
O Navio Negreiro, follows a series of poems written by the famous Castro Alves, in texts about troubled moments in Brazilian history, in each verse, like a master of words, he traces with beauty and stabs at the reader, beautiful and painful poems about the reality of the Brazilian period in which black people were enslaved here.
Despite everything, the book is an invitation to reflect on our role in society as white, heteronormative people, and how we can (and have the obligation) to stand up against oppressors and use our voices and our strength against the oppressors.
Even though he had a painful and early end and lived in a time when the overwhelming majority of society thought differently than Alves, because that was common sense, Castro did not remain silent and fought for those who had no place or voice. And this is a concrete way to do the same.
Although the book is about poems from the times of slavery in Brazil, it is difficult to describe this book as anything other than the most intimate and desperate desires of Castro Alves, intimate lines inviting those who would come after him to continue the fight, but also warning us about how to face this fight, is to accept the burden of facing a series of consequences, but with certainty, we will fly happily like birds in the sky, finally in a moment of rest
De fato, não sou muito fã de poemas mas, esses não tem como não admirar!
"É crime hediondo o tema dessa literatura."
A antofagica também segue melhorando todos os livros que ela edita! Juro, os textos de posfácio são uma obra de arte complementar extremamente necessários!
"Viviam numa sociedade que sangrava. Tudo que significava prosperidade para os donos de engenho tinha sangue no processo. Muito sangue"
Muito bom reler alguns poemas sem a obrigatoriedade escolar. Sinto que dessa vez eu consigo entender os poemas sentimentalmente tanto quanto os entendo intelectualmente.
Não se deve esquecer. Enquanto não houver igualdade suprema, passado nenhum pode ser obliterado. E a poesia de Castro Alves é tão viva que dói. Dói ainda mais porque os descendentes dos traficados ainda não puderam alcançar as asas do albatroz, pra observar o tumbeiro apenas como algo a ser esquecido. Ainda não se deve esquecer
É impressionante como a poesia pode falar conosco independente da época. A poesia, assim como as emoções, é atemporal e puramente humana; provavelmente a forma mais palpável de se entender o sentimento de quem passou por períodos difíceis da nossa história é através das artes, a música e a literatura, principalmente.