Bom-Crioulo é um verdadeiro caso à parte na literatura brasileira. Tornou-se mais falado e criticado do que conhecido e lido desde sua publicação em 1895. Não é à toa, pois trata de um tema que num país moralmente ambíguo e de uma religiosidade carola hipócrita foi um passo corajoso, apesar das justificativas eugênicas do autor. Caminha não apenas trata do homoerotismo, mas o faz com descrições por vezes quase explícitas.
Amaro, o Bom-Crioulo, é descrito como “um primeira-classe, negro alto, espadaúdo, cara lisa”. Tendo fugido da condição de escravo, alista-se na marinha, onde pensa poder conhecer o mundo. Em uma viagem ao sul do Brasil na corveta em que trabalha, conhece Aleixo, catarinense e filho de pescador, jovem adolescente loiro e de olhos azuis, rechonchudo como um querubim, que se torna marujo na embarcação, querido por todos. Bom-Crioulo apaixona-se pelo marujinho, o seu bonitinho, e até sofre castigos físicos para protegê-lo. Aleixo deixa-se enredar por Amaro, mesmo que aparentemente a contragosto. Quando chegam ao Rio de Janeiro, Bom-Crioulo arrenda um quartinho na pensão de D. Carolina, uma portuguesa quarentona, antiga prostituta que fez sucesso em seu tempo de jovem, e que deve favores a Amaro, que lhe salvou de morrer na ponta de uma faca em um assalto. A partir desse enredo, tece-se a história contada por Adolfo Caminha.
A literatura mundial conheceu outro casal de marinheiros antes; falo de Queequeg e Ismael, personagens de Herman Melville em Moby Dick, cujas descrições por vezes são quase eróticas, mas não sexualmente explícitas como na narração de Caminha. E como num e no outro romance, são sempre os personagens negros os estranhos, aqueles que devem ficar à margem.
Queequeg é o canibal dos mares do sul, um bom selvagem, trabalhador, embora seja temido. Bom-Crioulo, ainda que quase sempre seja apresentado como um bom homem, correto com e no seu trabalho, tem tais características frequentemente esquecidas, sendo apresentado aos olhos dos demais como um animal, pois quando bebe, o colosso de homem torna-se impossível de ser controlado. Em ambos os casos, impera o preconceito das sociedades da época. No caso de Queequeg, essa visão é apresentada pelo próprio Ismael, em primeira pessoa, guardando sempre uma visão carinhosa do outro homem. A narração de Caminha se realize na terceira pessoa e considerando que o autor era republicano e abolicionista, suas descrições pejorativas e racistas podem ser entendidas como a voz das ruas, e não uma voz própria, visto que o indivíduo negro praticamente sempre foi tratado com todos os preconceitos possíveis, subjugado socioeconomicamente, mantendo-se praticamente em um estado de semi-escravidão, que ainda hoje existe na mentalidade brasileira (basta ver a adoção à brasileira, a predisposição das pessoas em achar que todo trabalhador está sujeito ao mando de quem paga, etc).
No entanto, a questão da sexualidade do Bom-Crioulo já é outro capítulo a parte. O livro causou escândalo à sociedade do “faça, mas não diga”, que é a sociedade brasileira, da época e do agora também. João Silvério Trevisan no texto introdutório aponta que Caminha usou o homoerotismo como ilustração, considerando a homossexualidade como ‘inversão sexual’. Assim, o livro, no que diz respeito ao homoerotismo, é mais um estudo do que se entendia por uma “perversão” a partir das ideias eugênicas e racistas da época, como nos informa Trevisan:
Afirmando recusar-se a escrever aquelas cenas de alcova e bordel que os críticos cultuam, Caminha faz sua profissão de fé na moral vigente:
"Qual é mais pernicioso: o Bom Crioulo, em que se estuda e condena o homossexualismo, ou essas página que aí andam pregando, em tom filosófico, a dissolução da família, o concubinato, o amor livre e toda a espécie de imoralidade social?”
Diferentemente de Caminha, que era confesso heterossexual, outros autores homossexuais que escreveram entre o fim do século XIX e primeira metade do século XX, tentaram se adaptar à moral então vigente.
Thomas Mann, chamado de artista mestiço, por ser filho de um alemão e de uma brasileira, e que iniciou sua carreira literária pouco depois da publicação da obra de Caminha, também teve diversos conflitos quanto à sua sexualidade quando confrontada com a sociedade de então. Mann procurou se adaptar às normas sociais de seu tempo sem aderir a elas, vivendo o papel de um artista burguês, e sendo fiel inclusive quanto à moral burguesa em sua vida pessoal, tendo casado, tido filhos e vivido uma vida decente, apesar de seu desejo.
Já E. M. Foster, que escreveu o seu libertário Maurice em 1913, nunca se permitiu publicar o livro, o qual foi conhecido somente a partir de sua morte em 1970 e, portanto, se trata de uma obra póstuma. O livro teria, de fato, causado grande repercussão, uma vez que a homossexualidade é retratada como algo natural e inerente ao ser humano, assim como a heterossexualidade. Que o indivíduo apenas pode se realizar se for um todo. Foster esteve bastante à frente de seu tempo. No entanto, a Inglaterra possuia leis rígidas quanto à homossexualidade, que só foram derrubadas em 1967.