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120 pages, Hardcover
First published February 20, 2004
[…] independentemente de um sistema religioso combinar ou separar vício e pecado, a verdade é que, ao longo dos séculos, todo sistema, do hinduísmo ao cristianismo, concorda que dos nossos sete demônios a avareza é soberana. O hinduísmo, em particular, deixa pouca dúvida quanto à primazia da avareza no esquema das coisas. O Mahabharata, Santi Parva, seção CLVIII, ensina o seguinte:
Yudhisthira disse: Eu desejo, ó touro da raça Bharata, ouvir em detalhe a fonte da qual procede o pecado e a fundação sobre a qual ele repousa.
Bhishma disse: Ouça, ó Rei, qual é a fundação do pecado. O avarento sozinho é o grande destruidor do mérito e da bondade. Da avareza nasce o pecado. É dessa fonte que fluem o pecado e a descrença, junto com uma grande miséria. Essa avareza é também a fonte de toda astúcia e hipocrisia do mundo. É a avareza que faz os homens cometer pecado… é da avareza que nascem a falta de julgamento, o logro, o orgulho, a arrogância, a malícia, o rancor, o dolo, como também a índole vingativa, a falta de prosperidade, a ausência de virtude, a ansiedade, a infâmia. A sovinice, a cobiça, a ganância, o desejo por todo tipo de ato impróprio, o orgulho do berço natal, o orgulho do aprendizado, o orgulho da beleza, o orgulho da riqueza, a impiedade para com todas as criaturas, a malevolência contra todos, a desconfiança a respeito de tudo, a insinceridade em relação a todos, a apropriação da riqueza alheia… tudo isso procede da avareza.
E como a provar sua completa depravação, em seguida a Avareza decide tentar seduzir um grupo de sacerdotes, que até aquele momento tinham levado uma vida pura a serviço do Senhor. Infelizmente para a Avareza, no último minuto, a Razão, que Prudêncio chama de ‘a guardiã da tribo de Levi’, chega para socorrê-los e os salva a todos, com exceção de uns poucos. Temporariamente derrotada, a Avareza foge num acesso de raiva, pronunciando uma das diatribes mais vituperiosas da literatura ocidental. Uma vez que a arenga é pronunciada, e depois de jurar solenemente que não pode conquistar pela força, mas que muito seguramente pode seduzir pelo subterfúgio, a Avareza muda sua abordagem e finge certa nobreza de caráter.
Depois de colocar suas armas no chão, ela muda suas vestes e sua conduta por outras de simples austeridade e torna-se, segundo Prudêncio, “a virtude que os homens conhecem como Frugalidade”. Como Frugalidade, a Avareza consegue controlar, ou pelo menos esconder, toda a sua ganância e raiva e, em vez disso, veste o que o poeta chama de “um delicado véu de preocupação maternal”, afirmando que toda a sua sovinice e seu açambarcamento — talvez até mesmo um pouco de sua desonestidade — são feitos em nome da valorosa atitude de se preparar para seus filhos. As almas humanas sob sua esfera de influência, como sabemos, começam a seguir as instruções e os modos da Avareza, achando que seu trabalho é virtuoso, e não de vício; e assim, diz Prudêncio, “nessas almas, o espírito maléfico encontra vítimas alegres, felizes de viver em seus grilhões”.
Atribuir a origem do mal, seja a um processo biológico ou, por extensão, a um processo psicológico, transforma os seres humanos em vítimas do processo. Como tal, essa atribuição exige posturas e deliberações e crua a depressão e os ressentimentos da impotência que são as características da vitimização. Sob essas circunstâncias, ‘sentir-se bem’ ou, menos coloquialmente, atingir um estado de equilíbrio interno perceptível torna-se uma definição atraente e poderosa do bem, mas pela própria natureza de seus parâmetros esse objetivo é individualizado por definição e isolante em sua evolução.
Chamado por Schimmel de a ‘secularização do mal’, esse deslocamento da divindade ou das maquinações divinas para uma situação física de causa e efeito, como origem de nossas naturezas destrutivas e imperfeitas, tem tido uma consequência ainda mais degradante e, algumas vezes, flagrantemente neurótica, ao longo do último século e meio. Ele roubou ao conjunto de cidadãos do Ocidente, em maior ou menor grau, a energética e focada dignidade da luta espiritual, ao nos roubar a fé na eventual benevolência de como as coisas são. Ou seja, a ‘secularização do mal’ transforma os seres humanos em objetos, e não participantes na criação. Ela também assume uma imutabilidade ou impessoalidade das condições e dos princípios que nos bloqueiam e afastam da esperança. Em sua defesa, esse raciocínio pode nos conduzir à compaixão. Certamente temos visto essa mudança ocorrer de maneira muito dramática na cultura norte-americana ao longo dos últimos quarenta anos mais ou menos. Mas a compaixão construída sobre uma disposição de ânimo de ‘colegas de cela’, é apenas isso — compaixão, e não amor; elaborada, e não forjada; em sua origem, mais uma criatura da situação do que uma criatura da graça divina.
A explicação mais imaginativa e talvez mais bondosa da avareza nessa linha de raciocínio vem do judaísmo, que postula a presença em cada um de nós do yetzer hara, ou do impulso do mal, que, no caso da avareza, o dr. Robert Rabinowitz — meu amigo e mestre nessas questões —, do Centro Nacional Judaico de Aprendizado e Liderança —, define coloquialmente como o “constante clamor do ímpeto aquisitivo dentro de nós por mais ‘coisas’”. A propósito, ele define a ‘coisa’ como “mais poder, mais dinheiro, status social mais elevado etc. etc.”
O uso do número sete para quantificar as peças, coisas e partes significativas da vida é aparentemente tão antigo quanto a capacidade humana de enumerar ou enfatizar representações objetivas da perfeição. Dentro das crenças abraâmicas, a primeira ocorrência do uso do número sete, para quantificar as ofensas da humanidade contra Deus, pode ser encontrada em Provérbios 6:16-19: “Seis coisas detesta o Senhor e uma sétima sua alma abomina”. Além disso, na literatura romana da Era Axial, encontramos a primeira epístola de Horácio, que data de cerca de 20 a.C. e que lista os sete pecados capitais numa apresentação que podemos reconhecer atualmente: oyarirra, laudis amor, invídus, iracundus, iners, vinosus e amator (avareza, soberba, inveja, ira, preguiça, gula e luxúria). Embora a obra de Horácio seja não doutrinária do ponto de vista abraâmico, tampouco do ponto de vista teísta, ela se localiza na principal corrente do epicurismo: como um epicurista, Horácio considerava os excessos desses sete vícios ameaças à ataraxia, ou serenidade, que era o summum bonum — o bem supremo — da sua escola filosófica.
Enquanto outros podem argumentar ou mesmo deplorar a fusão do ato com o pensamento, não se trata nem de um capricho da teologia cristã nem de uma posição aberta à negociação dos crentes, pois é baseada em algumas das mais claras e menos discutíveis seções das Escrituras cristãs. Um exemplo famoso: ao falar sobre o adultério, Jesus disse: “Ouvistes que foi dito ‘Não cometerás o adultério’. Ora, eu vos digo: todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mateus 5:27, 28).
De acordo com o profeta Maomé, a avareza é ter ou desejar algo mais do que é exigido de um homem para — e cito — “manter suas costas retas e espigadas”. É uma conceituação sagrada que considero tão adorável quanto ampla e útil.
O próprio Paulo oferece o fundamento para essa associação em Colossenses 3:5, quando fala sobre “a ganância, que é uma idolatria”.
Fiodor Dostoievski, o gigante da literatura russa, produziu uma imagem da avareza igualmente poderosa e duradoura, embora por meio de uma cebola. Em seu romance Os irmãos Karamazov, Dostoievski conta a parábola de uma viúva miseravelmente velha que estava no inferno por causa de sua avareza. Seu anjo da guarda, vendo a pobre alma em tal agonia, implora a misericórdia de Deus, usando como justificativa para sua libertação o fato de que outrora ela havia dado uma cebola a uma mulher necessitada. Deus concorda com sua libertação se o anjo concordar em levar uma cebola e segurá-la sobre as chamas do inferno, de tal maneira que permitisse à viúva agarrá-la e, com isso, conquistar sua liberdade. O anjo aceitou os termos de Deus e fez exatamente como lhe fora instruído; a viúva agarrou a cebola com sucesso e tudo se encaminhava para ser resolvido a contento. A dificuldade que Deus previra surgiu, entretanto, quando todas as outras almas no inferno observaram esse resgate em progresso. Essas almas imediatamente se apressaram em agarrar e se aferrar à velha, na tentativa de pegarem uma carona com a viúva e sua cebola e alcançarem a liberdade para si mesmas. Como as almas pesam muito pouco, a cebola sustentou toda essa carga adicional sem problema, até que a viúva, avarenta até o fim, começou a chutar e a empurrar suas parceiras de infortúnio para longe de sua cebola. Enquanto ela se debatia, empurrava e golpeava, a cebola começou a estalar e, finalmente, se arrebentou sob os golpes da viúva: e a velha caiu de volta no inferno para passar a eternidade com aqueles a quem ela havia negado, em sua avareza, uma parte de sua iminente, mas frustrada, libertação.