Luciana Villas Bôas, a autora desse pequeno mas poderoso livro, tem doutorado em Germanística e Literatura Comparada pela Columbia University, Nova York. É professora do Departamento de Letras Anglo-Germânicas da UFRJ desde 2009 e publicou artigos sobre a primeira literatura e iconografia do Novo Mundo em periódicos nacionais e internacionais além de traduzir obras e organizar coletâneas, sobretudo, na área de História dos Conceitos. Atualmente dedica-se a um projeto intitulado “Um Brasil inédito” que investiga a relação entre a imprensa e a expansão colonial europeia a partir de textos franceses, ingleses, espanhóis e alemães sobre o Brasil no século XVI.
“A República de Chinelos: Bolsonaro e o desmonte da representação” traz uma acurada análise, elaborada pela autora, do efeito deletério do bolsonarismo sobre tudo aquilo que representa a república e o estado democrático de direito com o objetivo de facilitar a extinção desses dois pilares da sociedade democrática, inclusiva e plural.
É interessante como esse livro dialoga diretamente com outro grande livro que analisa os efeitos nefastos do bolsonarismo; o excelente “Linguagem da destruição: A democracia brasileira em crise”. Por Heloiza Murgel Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto. Esse livro parte de uma tristemente famosa frase de Jair Bolsonaro, proferida em março de 2019 - “Nós temos é que descontruir muita coisa” - para demonstrar como o bolsonarismo pretende destruir tudo aquilo que não se encaixe em sua visão estreita e mesquinha do mundo.
Se em “Linguagem da Destruição” os autores partiam da triste frase acima reproduzida, “República dos Chinelos” parte de uma foto tirada no dia 19 de fevereiro de 2019 em que o presidente Bolsonaro, numa reunião oficial com ministros, aparece de chinelos estilo “Raider”, calça de moletom, camisa pirata do Palmeiras e um paletó amarfanhado para completar o “look”.
Alguns (na verdade, infelizmente, muitos) poderiam perguntar: “Qual é o problema?”
Vale a pena reproduzir parte significativa dos argumentos da autora para demonstrar, cabalmente, que tal insólita cena representa uma baita agressão às instituições republicanas:
“A roupa é mera externalidade, pura formalidade do poder. Uma prerrogativa das elites. Uma convenção a serviço da fraseologia do mainstream. Um atributo da classe política, corrupta, sensacionalmente criminalizada, degradada a parasitas que deveriam estar atrás das grades. Finalmente, surge no poder alguém de fora, alguém simples, torcedor de futebol, apreciador do moletom, adepto dos chinelos Raider. Alguém como nós. Não alguém acima de nós. Não alguém que sob a alegação de nos representar fatalmente irá nos usurpar. O problema é que o presidente é um servidor do Estado e o Estado diz respeito a todos os cidadãos da República, inclusive aos que não são torcedores do Palmeiras, aos que não gostam de futebol, têm alergia a moletom de nylon e preferem sandálias Havaianas. As atribuições e as responsabilidades específicas da presidência são definidas pela Constituição Federal. O presidente é uma função regulada política e juridicamente. Os seus atos devem zelar pelos direitos e deveres do estado democrático, ao mesmo tempo individuais e coletivos, fundados no princípio da igualdade perante a lei: “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”. Vale a pena conhecer os termos da nossa Constituição, e revisitá-los, invocá-los, exigir que tenham representação? Seja como for, qualquer defensor do Estado democrático de direito exigirá que as disposições da Constituição deem forma ao exercício da presidência. O presidente não representa sua vontade individual, foi eleito para um mandato, para representar uma determinada organização política e honrar os seus princípios fundamentais. Enquanto representante de uma República Federativa tem a obrigação de transcender o seu corpo físico, a sua pessoa individual, para encarnar, personificar o que está sendo representado: O Estado Democrático de Direito, segundo os termos da nossa constituição. É por esta razão que o indivíduo de chinelos deve recolher-se sob a forma da liturgia, da indumentária, enfim, de todo o aparato que possibilita a investidura do cargo.
‘Há ainda um outro aspecto da fotografia que merece ser comentado. O presidente é eleito para um mandato, temporalmente circunscrito, para a realização de uma incumbência, missão ou delegação. Claro, no dia a dia, ele volta a ser o indivíduo Jair toda vez que ele sai de cena. A fotografia, entretanto, relativiza “temporalmente” essa separação; ela impede que se delimite exatamente a ocasião em que foi tirada, se num momento antes ou depois do expediente do presidente. Se num momento em que se deveria esperar encontrar o presidente no exercício da sua função, ou simplesmente o indivíduo Jair, desincumbido das suas tarefas diárias, dos negócios de Estado, pronto para o merecido repouso e para sair de cena. A indistinção não seria relevante se ela não integrasse um contexto marcado por transgressões sistemáticas das separações que constituem a organização espacial e simbólica da ordem política”.
“A República de Chinelos” (págs. 19, 20, 21).
Trocando em miúdos a autora afirma que ao não distinguir sua persona privada da sua persona presidencial, Jair Bolsonaro, na verdade, sob o disfarce do “homem comum”, está demonstrando todo o seu desprezo pelas instituições republicanas e pelo estado democrático de direito e ao dialogar, com tal insólito look, apenas e tão somente com seus apoiadores mais exacerbados, ele revela explícita e claramente a sua intenção de marginalizar todos aqueles que não coadunam com suas práticas e propostas.
A autora analisa, de forma precisa, tudo o que a foto de março de 2019 representa mas não apenas a foto. São instigantes também as considerações feitas sobre o pronunciamento a seus apoiadores transmitido de uma área de serviço para a Avenida Paulista em 2018 e o destempero da deprimente reunião ministerial de abril de 2020.
Destinadas a identificar Jair Bolsonaro como um “homem comum”, contra o sistema, estas representações, na verdade, destroem a ritualística do poder e deixam a descoberto todo o “o abuso do arbítrio, o monopólio da obscenidade”, nos dizeres, mais uma vez precisos, da autora.
É mais do que oportuno registrar que esse livro foi finalizado e publicado antes dos funestos acontecimentos do último dia 08/01/2023 em que os bolsonaristas, ao depredar símbolos da república federalista e do estado democrático de direito, pretendiam, ao fim e ao cabo, destruir a própria república federativa e o próprio estado democrático de direito.
Para encerrar é oportuno reproduzir parte do posfácio, de autoria do filósofo e professor Newton Bignotto:
“Sem pretender antecipar o que vai acontecer, Luciana Villas Bôas mostra as possibilidades concretas do presidente (Hoje ex presidente). Servindo-se de análises de aspectos múltiplos da realidade atual, o livro nos abre para a compreensão dos riscos que corre a democracia brasileira e para os caminhos que podem levar à sua destruição”.
Livro excelente, surpreendente e fundamental.
Leia e releia!