Raquel Nobre Guerra pela primeira vez na Colecção de Poesia da Tinta-da-china, dirigida por Pedro Mexia.
«O que significa ‘Divisão da Alegria’? Um gesto franciscano (a que não faltam idílios campestres ou uma gata chamada Ninotchka); uma alusão às canções sem alegria de Ian Curtis; o contingente dos amigos; os pequenos prazeres; aquilo que vem depois do luto (evitando a melancolia); ou a própria tarefa do poeta, ‘príncipe das metades’?» – PEDRO MEXIA
Raquel Nobre Guerra nasceu em Lisboa, em 1979. Licenciada e mestre em Filosofia, publicou "Groto Sato" (Mariposa Azual, 2012), "Sms de Amor e Ódio" (Residências Intendente, 2013); "Saudação a Álvaro de Campos" (Palavras Por Dentro, 2014); "Senhor Roubado" (Douda Correria, 2016), "Divisão da Alegria" (Tinta-da-china, 2022).
PARIS NUM CADERNO (...) A primeira vez que vi o meu pensamento foi ao longo de Paris, numa catedral, numa gárgula
(gárgulas mantêm a distância salva das águas para que as paredes permaneçam imaculadas ao longe uma gárgula pode ser uma Vénus de Milo quando opomos ao feio uma função maravilhosa) (...)
A primeira vez que vi o nome de Raquel Nobre Guerra foi na colectânea “Já Não Dá Para Ser Moderno: Seis Poetas do Agora”, e a verdade é que no meio de autores que não me agradaram muito, esta poetisa foi a que talvez tenha passado mais despercebida. Em “Divisão da Alegria”, porém, RNG espraia-se em todo o seu esplendor e, apesar da complexidade da sua poesia, é alguém cuja obra quero seguir.
atravesso o dia píxel a píxel com o sutra do coração
É curioso que Raquel Nobre Guerra tenha escrito “tenho saudades de quando a poesia era directa” porque são dela os poemas mais convolutos que li ultimamente. São poemas prolixos que exigem concentração e muitas vezes uma releitura para se lhes extrair sentido, mas que, na sua maioria, valem o esforço e a insistência.
UMA FOLHA ARRANCADA DO CADERNO (...) às vezes penso que a literatura me castiga vinte e quatro horas por dia como se alguém depusesse sobre a minha mesa sua roupa interior sua história de boca sem coração, seus cuidados no espectáculo das suas miudezas
às vezes a poesia aborrece-me como roupa a secar ao sol oferecendo imaginação de pernas vizinhas e junções onde batem quotidianas carnes plausíveis sou capaz até de dar exemplo e muita conversa
respiro como se atirasse pedras a um destino ferido (...)
Apreciei a disposição dos poemas em três partes (Canções da manhã-Da Mansarada ao Mundo, Canções da tarde-Biblioteca Nacional e Canções da Noite-O Açúcar da Metempsicose), mas os Oito Poemas para o Pai, no final, talvez pela inspiração, são os mais coesos.
Foi realmente uma alegria multiplicada ler esta obra de Raquel Nobre Guerra. Não percebo muito de poesia, sei dela apenas o que me faz sentir. E foi muito, neste caso. Foram pequenas e grandes alegrias bem dispostas em palavras que servem de terno aconchego, de morno despertar, de janela que se abre sobre o lado bom das pessoas e do mundo.
"corto para a divisão da alegria para os pássaros acordados para o gasto fresco da fruta"
Há, nesta poesia, sabores, cores e cheiros que partilhamos.
"penso que sou para mim esse ar deslizando o fecho do forro do vestido sideral"
Há, nestas páginas, a ilusão de tocar o inalcançável, de apropriação do imaterial, de comunhão com o ininteligível.
"parece que toco com a palavra a beleza e tu quase pertences ao que digo neste instante"
Entre os poemas da minha eleição, destaco "Uma Folha Arrancada do Caderno", onde lemos:
"respiro como se atirasse pedras a um destino ferido"
e mais à frente:
"se imaginar um incêndio participo dele?"
E muito mais haveria para citar e analisar, mas limito-me a desejar que esta alegria possa agora e sempre dividir-se generosamente pelos seus leitores.
A forma como me relacionei com os poemas não foi linear: houve alguns que me desarmaram por completo, enquanto outros ficaram um pouco aquém dessa energia. Mas há uma beleza particular a marcar o ritmo de cada um deles. Além disso, senti que a coesão foi crescendo à medida que fui avançando na leitura. Na lista de favoritos destaco Palavras Soltas, Uma Folha Arrancada do Caderno e Desportos do Espírito. Mas, no seu todo, sinto que foi o último capítulo que ficou com o meu coração por inteiro.
Divisão da Alegria traz conforto e uma janela aberta para vários horizontes. E traz, sobretudo, a certeza de que a alegria pode ser feita de diferentes matérias.