De Juan José Millás lera apenas "Laura e Júlio" que me entusiasmara em conhecer outros títulos da sua obra. Pensando em abordar "A Desordem do teu Nome", acabaria por ser "Os Objetos Chamam-nos" o livro que daria sequência a um conhecimento mais aprofundado do autor. Dividido em duas partes, "As Origens" e "A Vida", J. J. Millás constrói pequenas histórias (cada uma tem, por média, uma página e meia) onde o fantástico, a fantasmagoria, o onírico, as diversas formas de religiosidade, as mentiras, se entrelaçam na tentativa de captar algum sentido da realidade que nos enforma e nos informa.
Há momentos hilariantes e confesso que, poucos desses pequenos textos, não me trouxeram um sorriso, muito por força da utilização de uma narrativa sobrenatural, por vezes escatológica, muitas vezes absolutamente surreal, comumente transubstancial, o que apenas comprova a enorme, imensa capacidade criativa deste autor espanhol. Percorrer as ruas de Madrid utilizando um mapa de Buenos Aires e conseguir chegar aos locais pretendidos (se bem que com outras designações, obviamente), criar novas tipologias de monstros, bruxos ou fantasmas àqueles que nos habituáramos, como os chefes de pessoal que assinam ordens de despedimentos de pessoas com filhos "para que a situação familiar seja mais dramática", exemplificam a (des) construção da realidade, muito própria de Millás.
O interessante é que, as elucubrações contidas tanto na primeira parte "As Origens" - onde conseguimos identificar algo biográfico (não consigo desassimilar a ideia de que há sempre subjacente à narrativa uma parte que pode surgir com maior ou menor intensidade que nos remete para a experiência pessoal) - como na segunda "A Vida", a narrativa começa sempre com uma frase absolutamente insólita: "A minha mãe passou por várias fases, como Picasso, só que ela, em vez de pintar, andava de cá para lá" ou "Um dia, a minha mãe saiu nua para o corredor e, agarrando-me enlouquecida pelos ombros, ordenou-me que fosse a correr à drogaria e gritasse que pôr papel nas paredes era mais fácil do que pintar". Em "A Vida" deparamo-nos com "Sonhei que comia uma cuecas com faca e garfo. Estavam pré-cozinhadas, dentro de uma caixa de alumínio, e bastava pô-las dois minutos no microondas" ou "Viajo muito sozinho. Ou melhor, gostaria de viajar sozinho porque a verdade é que assim que entro no carro, começo a discutir com alguém imaginário que se instala no assento do lado". E por aí fora ... o certo, é que nos iremos sempre surpreender com a continuidade das histórias e com os seus desfechos.
A que mais me fez sorrir foi "O preço das almas" e começa assim:
"Ao princípio foi um alívio que me aparecesse o diabo, pois embora não tivesse intenção de lhe vender nada, é sempre bom para a auto-estima sabermos que a nossa alma está no mercado. Íamos num taxi, Satanás e eu, ele disfarçado de taxista, claro (...). Atualmente, segundo me explicou, comprava corpos. Os corpos estavam caríssimos. Senti-me elogiado por ele estar interessado no meu, pois nunca me parecera grande coisa".
E é assim que Juan José Millás nos vai encantando. Transformará fantasia em realidade ou a realidade em fantasia? Na mistura do humor com a ironia, o sarcasmo com o surreal, a realidade com o onírico, Millás concebe uma obra de entretenimento, um pouco mais leve que "Laura e Júlio". E vou continuar a querer ler "A Desordem do teu Nome.