Francisco Fernando Monteoliva Doratioto, o autor desse livro – “Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai” – nascido em 1956, é graduado em História e Ciências Sociais pela USP e também mestre e doutor em História das Relações Internacionais pela UNB onde atualmente é professor de História da América. Ele tem trabalhos de destaque nas várias áreas onde atua mas, indubitavelmente, sua obra de maior repercussão é justamente este “Maldita Guerra”, publicado originalmente em 2002 e reeditado várias vezes até os dias de hoje. Neste livro o autor procura desconstruir o que ele classifica como mitos e narrativas eivadas de ideologia, tanto à esquerda como à direita em relação ao conflito, o maior da história da América do Sul; a Guerra do Paraguai (1864/1870) que opôs a “Tríplice Aliança” (Brasil, Argentina e Uruguai) ao Paraguai.
Vale a pena reproduzir trechos de um texto que o próprio autor publicou num número da “Revista de História da Biblioteca Nacional” em que ele trata do tema de forma sintetizada:
“A partir da década de 1970, ganhou espaço a interpretação de que o imperialismo inglês foi a causa da Guerra do Paraguai, deflagrada em dezembro de 1864. Segundo essa vertente, o trono britânico teria utilizado o Império do Brasil e a Argentina para destruir um suposto modelo de desenvolvimento paraguaio, industrializante, autônomo, que não se submetia aos mandos e desmandos da potência de então. Estudos desenvolvidos a partir da década de 1980, porém, revelam um panorama bastante distinto. As origens do conflito, mostram eles, se encontram no processo de construção e consolidação dos Estados Nacionais no rio da Prata e não nas pressões externas dos ingleses. Os avanços historiográficos mostram também como o quadro político que se desenhara às vésperas da Guerra do Paraguai aproximou ideologicamente, pela primeira vez na História, o Brasil e a Argentina.
A interpretação imperialista apresentava a sociedade paraguaia do pré-guerra como avançada, liderada por Francisco Solano López, governante autoritário mas preocupado com o bem-estar do seu povo. Nada mais distante da realidade. O Paraguai tinha uma economia agrícola, atrasada; nela havia escravidão africana, embora diminuta, e López era movido apenas pela lógica de todos os ditadores, a de se manter no poder. Outro mito que caiu por terra foi a suposta rivalidade do Paraguai com os ingleses. Vai contra a lógica histórica responsabilizar o imperialismo inglês pelo desencadear da guerra. Na realidade, o governo paraguaio mantinha boas relações com a Inglaterra, de onde contratou técnicos, desde o final dos anos 1850, com a finalidade de modernizar suas instalações militares. Era, sim, o Império do Brasil que tinha atritos com a Inglaterra, com a qual rompeu relações diplomáticas em maio de 1863. Elas somente foram restabelecidas, após recuo do governo britânico, em setembro de 1865, meses após o início do conflito”.
“Maldita Guerra” foi escrito pelo autor com uma linguagem clara e bem objetiva. Fruto de quinze anos de intensas pesquisas em arquivos e bibliotecas do Brasil, do Rio da Prata e da Europa, a obra apresenta os argumentos do autor de forma criteriosa e extremamente convincente. O autor se esmera em mostrar, analisar, descrever e explicar as causas do início do conflito que, segundo o seu raciocínio, baseado em extensa pesquisa documental, está mais ligado a questões inerentes ao processo histórico regional do que às tão propaladas, principalmente pelas correntes ideológicas de esquerda, influências e interesses do imperialismo inglês.
Além disso o autor relata o duro e dramático cotidiano das tropas da “Tríplice Aliança” – Brasil, Argentina e Uruguai – descreve a dinâmica da guerra e reavalia de forma bem crítica a atuação de chefes militares como o argentino Mitre e os brasileiros Tamandaré e Caxias além do francês Conde D´Eu, marido da princesa Isabel que assumiu o comando das forças brasileiras na guerra atendendo a um pedido de seu sogro, o imperador D. Pedro II do Brasil após a retirada por cansaço e desgaste de Caxias. Merece destaque também a forma bem negativa com que ele se refere a Francisco Solano López, ditador paraguaio que assumiu o poder em 1862 e que teria colocado o seu país numa guerra que ele não poderia vencer e que ao fim e ao cabo destruiu o Paraguai ao custo de dezenas de milhares de vítimas.
As principais batalhas do conflito são contextualizadas de forma extremamente didática e clara em cerca de 20 mapas. Já os personagens centrais ligados ao conflito e eventos chave são representados num bem montado conjunto de fotografias e ilustrações. Atenção para outro aspecto interessante: o contexto internacional do conflito marcado pela simpatia da opinião pública em vários países europeus pelo lado paraguaio, a curiosa neutralidade das potências europeias e a surpreendente posição favorável ao Paraguai por parte dos Estados Unidos e países sul-americanos como o Peru e a Bolívia.
Ótima pedida principalmente para aqueles e aquelas interessados (as) em grandes eventos ligados à História do Brasil.