Leonardo volta ao Nordeste, a Dilúvio das Almas, sua cidade natal, depois de muitos anos vivendo de todas as formas em São Paulo. Mas o retorno ao sertão semiárido está longe de ser idílico: a violência e a ignorância que o fizeram migrar continuam ali. Escrito num tom por vezes filosófico e desencantado, que contrasta com o extremo realismo das cenas e a secura dos diálogos, este é um romance potente sobre como pode ser difícil reinventar o próprio passado.
3.5* Dilúvio das Almas, de Tito Leite, me surpreendeu pela força poética escondida dentro de uma narrativa dura, seca e profundamente humana. É um livro que parece pequeno, mas carrega um peso emocional enorme — daqueles que você lê devagar, sublinhando frases, deixando que a linguagem assente no peito antes de seguir adiante. Gostei muito dessa mistura de brutalidade e lirismo, como se cada página equilibrasse a aspereza do sertão com uma sensibilidade quase silenciosa.
A escrita de Tito Leite tem algo de encantamento triste: ele descreve a violência, a ignorância e o abandono sem jamais perder o olhar humano. Em vários momentos, me peguei relendo trechos pela beleza das imagens e pela precisão das metáforas. Uma das frases que mais me marcou — e que resume bem o espírito do livro — é:
“Os estrondos da ignorância são a parte que incomoda mais.”
Essa linha, simples e devastadora, captura o que há de mais doloroso na história: não é apenas a violência física que destrói, mas a ignorância que ecoa de geração em geração, moldando destinos.
Ainda assim, apesar de ter gostado muito, senti que alguns trechos poderiam ter sido mais desenvolvidos. Há momentos em que a narrativa parece se apressar, como se o autor tivesse mais a dizer, mas segurasse a mão. Isso não diminui o impacto, mas me deixou com a sensação de que o livro poderia ter ido ainda mais fundo.
No balanço, dou 3,5 estrelas. É uma leitura forte, poética e cheia de frases marcantes, que fica ressoando depois que termina. Um livro que incomoda, emociona e, acima de tudo, mostra o talento de Tito Leite para transformar dor em literatura.
Um livro bonito que só vendo. Sendo eu mesma uma imigrante, gosto muito das histórias de imigrantes e mesmo de exilados que, por acaso ou escolha, voltam a seus lugares de origem e se deparam com os motivos por que partiram, com a estranheza dos costumes, com a falta de vínculo com quem ficou para trás, ainda que tenham sido pessoas queridas.
Da forma como me ocorre, no entanto, vi alguns elementos que não precisavam fazer parte da narrativa:
1) os pensamentos filosóficos tomaram, ao meu ver, um espaço que não precisavam ocupar. A história de Leonardo, seca e descrita, já é potente e borbulha questões levantadas por todos os grandes existencialistas (Sartre, Nietzsche, Camus - todos citados por nome ou por suas ideias). Explicitar a filosofia dos pensamentos do personagem principal me ocorreu como excesso. 2) alguns temas me pareceram fora de lugar, como as reflexões de Leonardo sobre os (des)direitos das mulheres e a violência contra homossexuais. Ambos são temas que adoro estudar e ver expressos na literatura de ficção mas Leonardo não precisava desses posicionamentos para ainda assim reforçar os temas que são muito centrais na sua narrativa, como consciência de classe e microfísica do poder.
Ainda assim acompanhar a submersão do personagem em suas próprias origens me fez boa companhia. Por companhia, pelo tema e pelo enredo, dou as minhas 3 estrelas.
Livro de estreia de Tito Leite na prosa. É uma novela, escrita em primeira pessoa, sobre o retorno de um homem errante à pequena cidade imaginária de Dilúvio das Almas, no interior do Nordeste. O Sertão do autor é precário, violento e desigual, e a vingança é a moeda corrente. O mais interessante deste livro é perceber a transformação de Leonardo, o narrador. De certo modo, a protagonista do livro é a própria cidade, que engole e corrompe tudo e todos. Gostei muito.