”Recorda-te.” Mas porquê? Para não o voltar a fazer? Mas voltarás. Todo o conhecimento que não está intimamente relacionado connosco é vão. Este fetichismo da memória é um simulacro.
Não sabia nada sobre este livro fora o facto de ter sido escrito por Yasmina Reza, de quem já li a peça “The God of Carnage”, que não me deixou qualquer marca. “O Meu Irmão Serge”, porém, provém de outra cepa e poderá não cair bem a toda a gente, já que, se por um lado acompanha os dramas comezinhos e o quotidiano de uma família descendente de judeus húngaros, por outro recorre a um humor muito particular e talvez agreste para algumas sensibilidades, ao troçar do pathos e dos clichés que se associam à cultura hebraica.
- Para que precisamos de Israel? – dizia a mamã. – Olha bem para todos os problemas que já causou.
- Os judeus precisam de Israel.
- Precisamos de ser judeus? Nem sequer somos religiosos.
- Não entende nada.
- Os meninos não se sentem judeus. Sentem-se judeus, meninos?
E nada grita mais judaísmo do que a visita aos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau realizada pelos protagonistas desta obra: Jean, que é o narrador, a sua irmã mais nova, Nana, e o irmão mais velho que ele adora, Serge, o catalisador de todos os conflitos e quizilas, todos eles na meia-idade e com percursos de vida diferentes.
Auschwitz, ou Oswiecim, se quisermos ser simpáticos, é a vila mais florida que vi na minha vida. (…) O presidente da câmara deve ter pensado: decora com flores, companheiro, decora com flores, a tua cidade chama-se Auschwitz, decora, planta, poda, limpa da cor, pinta as paredes! (…) Numa fachada, um João Paulo II pintado a estêncil diz num balão ‘Antysemittyzm jest grzechem przeciwko bogu i ludzkosci’. O judeu é um bom adubo, traduziu o Serge.
Apesar do apelido não o dar a entender, Yasmina Reza é filha de judeus, um iraniano e uma húngara, pelo que não há aqui qualquer anti-semitismo, para quem faça muita questão de o apontar. Há, antes, uma tragicomédia muito bem burilada, com diálogos ágeis e verosímeis que ilustram três gerações demarcadas: os avós e os seus amigos, mortos ou para lá a caminharem, os filhos com seus pequenos sucessos e grandes insucessos, e os netos determinados a trilharem o seu próprio caminho mesmo sem aprovação paternalista dos mais velhos.
Que há de admirável na tua vida? Uma vida dedicada a arranjar problemas. Tens 60 anos, não tens casa, os teus negócios correm mal (...). Não sei onde vais arranjar essa superioridade toda. Uma vez que o senhor Serge Popper faz alguma coisa por alguém, e é preciso aplaudi-lo durante 10 anos? Perdeste completamente o sentido da realidade, meu caro.
“O Meu Irmão Serge” é uma obra catártica sobre relações familiares, em que as conversas divertidas e provocadoras são amenizadas com passagens instrospectivas que levam a ponderar sobre a voragem do tempo.
Quando regressa o verão, regressa o tempo. A natureza ri-se na nossa cara. O espírito de felicidade fere-nos a alma. O verão contém todos os verões, os anteriores e os que nunca chegaremos a ver. (…) Uma longa série de imagens armazenadas num cérebro comum e que desaparecerão com ele. Imagens intransmissíveis e sem outra relação entre si que não a centelha pérfida do verão, essa lâmina que regressa todos os anos, para nos ferir.