O céu entre mundos é um romance para exercitar a imaginação, formular uma realidade de comunicação por telepatia e naves voando para outros sistemas planetários, mas também para ter notícias de quem veio antes de nós, pessoas cujas existências já eram futuristas no passado, pois pavimentaram estradas para que nós caminhássemos. Pensar por essa perspectiva é escapar da lógica ocidental e encaminhar nossa intelectualidade– espiritualidade, intuição, ori – para África. É na África que está a salvação da protagonista Karima, porque é lá que vive o ancestral com quem ela mantém conexão e diálogo. Conhecemos o planeta Wangari, planeta semelhante à Terra, espaço alternativo para se viver após a ação nociva do ser humano tornar o antigo planeta azul um lugar inabitável. Seus moradores são negros, caracterizados a partir da nossa diversidade, o que é uma imaginação subversiva dentro de uma sociedade que repete “preto é tudo igual”. Mulheres e homens exercem o poder que lhes cabe e o ato de falar da história escrita por nossos antepassados na Terra aparece tanto como exercício memorialístico, quanto como necessidade política. É importante notar que não se trata de criar a imagem da perfeição. Em Wangari, existem conflitos, existe poder, mágoa e medo, porém a busca por solução para esses problemas é empreendida e protagonizada por pessoas negras que mantêm sua conexão com o continente africano. Uma visão futurista que deve inspirar o momento presente.
Sandra Menezes é escritora e jornalista carioca, autora do romance afrofuturista "O céu entre mundos", publicado em 2021 pela Editora Malê, que foi finalista do prêmio Jabuti 2022 e vencedor do prêmio Odisseia de Literatura Fantástica 2022.
Participou das turmas da Flup-Festa Literária das Periferias, em 2019, no Laboratório de Narrativas Negras para audiovisual Flup/Globo; e, em 2020, da Flup/Digital com texto na antologia “Carolinas”, edição Flup/Bazar do Tempo. Entre 2018 e 2023 publicou contos e crônicas em diversas antologias nacionais, entre elas, “Afrofuturismo – O futuro é nosso” (Edit. Kitembo); e na internacional “Vozes Intergalácticas” (Edit.Nebula). Está presente também na coluna “Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea”, do site Itaú Cultural, com o conto “Expansão”, de ficção científica. Como palestrante e convidada para mesas de bate-papo sobre literatura e afrofuturismo, presencialmente ou online, tem feito participações em eventos e feiras literárias como Flip, LER, Flup, Primavera dos livros, Bienal do livro RJ, Festival Mário de Andrade-SP, OAB-SP, Rio2C e Vanderbilt University-Nashville, entre outros. Atuando também em cinema e vídeo, na década de 1990 fez pré-produção do curta-metragem, “Caramujo-Flor”, de Joel Pizzini, sobre o poeta Manoel de Barros; dirigiu o vídeo “Alma em Revista”, sobre o filme épico Alma do Brasil, que integrou mostras de vídeo no Festival do Rio, e em festivais em Barcelona e Siena. Em 2023 assina a co-autoria com Carol Aó, do roteiro do longa-metragem “As Esfinges”, da Arruda Filmes-SP, em fase de desenvolvimento de roteiro e integrando o Ventana Sur, em Buenos Aires, através do Laboratório de Audiovisual "Histórias que Viajam", com apoio do projeto Paradiso e SPCine.
A filosofia africana é inerente ao livro! Ele também possui uma espiritualidade muito forte, o que não me agrada tanto. É uma distopia rápida, com menos de 200 páginas; isso faz com que as coisas tenham uma resolução até meio boba (?) Eu gostei do livro, principalmente das curiosidades históricas do povo negro que são citadas durante a história (não à toa, é o primeiro livro ficcional que vejo que tem referências), talvez eu tivesse gostado mais se fosse adolescente.
Minha nota é 3.5, como não tem essa opção, deixo o 4 aí pra vocês!
Tendo me aproximado cada vez mais do afrofuturismo por ser o que eu pesquiso, O céu entre mundos , livro de Sandra Menezes, estava há um bom tempo na minha lista de obras afrofuturistas brasileiras que eu desejava ler.
A verdade é que tenho dificuldades em comentar esse livro sem entrar nos assuntos de potencial pesquisa, mas tentarei ser breve para não tornar essa review longa e chata: o livro é ótimo, mas infelizmente é curto demais. Ao longo da narrativa, toda a história apresentada tinha uma capacidade enorme de ir muito mais longe - por mais que eu tenha gostado do jeito "direto" dele. É um livro marcado por uma escrita bem fluída e que insere conhecimentos conforme vai trazendo novos personagens e novos "ensinamentos" - acho que algumas reflexões foram até muito diretas (como quando mencionam figuras do passado e ele acaba sendo beeem específico sobre a nossa realidade brasileira, são momentos que a verossimilhança acabou tendo uma queda aqui em mim kkkkk), mas acho que é importante termos essas discussões na literatura.
Gostei demais de como a autora trabalhou a ancestralidade e as tradições africanas durante a obra, foi realmente muito bonito visualizar a Karima vindo para a Terra e se aproximando de relações ancestrais que ela só conseguia "imaginar" e "estudar" enquanto ela estava no outro planeta. Gosto muito de narrativas que trazem essas perspectivas de futuro e de sonhos sendo influenciados pelas sementes do passado, eu diria inclusive que esse é o meu tropo favorito do afrofuturismo.
3,5*, mas aqui vai 3 apenas por conta do tamanho (ele realmente poderia ser muito maior!!!!!!) e de algumas menções que me deixaram um tanto incomodado.
Ao explorar ficções científicas você se depara com estruturas diferenciadas. O céu entre mundos é um tipo de sci-fi que não se expande e fica preso a uma única narrativa, me lembra muito The word for world is forest da Ursula LeGuin, em termos de estrutura. Isso não é uma característica negativa, mas me desaponta não poder ver mais desse universo maravilhoso criado por Sandra Menezes. Tenho procurado ler mais obras de subgêneros cyberpunk, sertãopunk, afrofuturismo, entre outros, e sempre me alegra ver o que escritores brasileiros são capazes de produzir nesse campo pouco dominado por nós.