Há cerca de 100 mil anos, um grupo da espécie Homo sapiens fundou a linhagem que veio a conquistar todo o planeta. Uma estirpe violenta em que os mais fortes frequentemente humilham e oprimem os mais fracos, mas também capaz de muito altruísmo e extremados cuidados parentais. A constatação desse paradoxo é o ponto de partida de Sidarta Ribeiro em seu novo livro. Em Sonho manifesto, o renomado neurocientista denuncia a profundidade da crise ambiental e social ao mesmo tempo em que celebra a oportunidade única que temos hoje de expandir a consciência planetária. O caminho para esse sonho coletivo, diz o autor, é o resgate do melhor de nossa ancestralidade. Pesquisador inquieto, Ribeiro reúne dezenas de histórias de griôs da África ocidental, mestres de Capoeira, babalorixás, xamãs e pajés dos povos originários, além de dados sobre pesquisas científicas recentes e relatos das mais diversas tradições como budismo e taoismo. Afinal, "enquanto houver vida, ainda há tempo para mudar". "É impossível não se encantar com a abordagem de Sidarta Ribeiro, bem como pela profundidade de seu conhecimento e de sua paixão". – Sarah Lyall, The New York Times
SIDARTA RIBEIRO é mestre em biofísica pela UFRJ, doutor em comportamento animal pela Universidade Rockefeller, pós-doutor em neurofisiologia pela Universidade Duke, professor titular de neurociência e fundador do Instituto do Cérebro da UFRN. Formando do Grupo Capoeira Brasil, discípulo dos mestres Caxias e Paulinho Sabiá. Publicou mais de cem artigos científicos em periódicos internacionais. É autor, entre outros livros, de O oráculo da noite e Limiar, ambos publicados pela Companhia das Letras.
Em Sonho Manifesto, Sidarta Ribeiro trabalha novamente com a temática do sonho a partir de um novo viés: trazer à tona a capacidade humana de poder sonhar ativamente com futuros possíveis, partindo de uma perspectiva individual que seja capaz de percorrer o coletivo. A partir dos chamados "exercícios", o autor elabora maneiras de catalisar esses sonhos: seja por meio da valorização dos saberes ancestrais, políticas públicas, passando pela questão da alimentação, por exemplo.
Diferente de "O Oráculo da Noite", não temos aqui uma leitura de caráter técnico, senão uma apresentação de sua perspectiva pessoal, valiosa, que propõe ideias para se criar um futuro possível, a partir da superação das relações neoliberais que regem nossas vidas. Neste sentido, o livro se conecta à linha de pensamento desenvolvida por Ailton Krenak em seu, já clássico, "Ideias Para Adiar o Fim do Mundo".
No entanto, a citação a Krenak nos permite formular a crítica ao início do ensaio de Sidarta. Ao falar sobre os bilionários o autor diz: "Na mente de cada um desses bilionários, que já foram crianças um dia, também habita uma dor imensa que os impede de mudar o curso e agir.", ou "Qualquer sofrimento é bastante individual, e o que sofre cada bilionário do planeta é algo que só ele ou ela sabe.".
Os trechos destacados evidenciam uma grande ingenuidade do autor quanto à existência e formas de agir e pensar acerca deste grupo que destaca como os bilionários que habitam o planeta. Sidarta parece crer na mudança de mentalidade do grupo que controla a riqueza do mundo. No Brasil, segundo relatório da OXFAM "Recompensem o trabalho, não a riqueza", disponível em: Já no início, somos apresentados a seguinte conclusão: "De toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% foi parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. Enquanto isso, a metade mais pobre da população global – 3,7 bilhões de pessoas – não ficou com nada. No Brasil, não é muito diferente. Hoje temos cinco bilionários com patrimônio equivalente ao da metade mais pobre do país, chegando a R$ 549 bilhões em 2017 – 13% maior em relação ao ano anterior."
Não haverá mudança na mentalidade de nenhum milionário ou bilionário do planeta, nem mesmo aqueles que se apoiam na filantropia. A mudança necessária deve ser estrutural, relacionada ao modelo de produção que rege nossas vidas: o Capitalismo.
A leitura, no entanto, não deixa de ser importante. Sim, sonhar ainda é um compromisso de cada indivíduo que pretende, a nível individual ou coletivo, construir um futuro melhor. Mas cabe ao indivíduo se politizar, conhecer as estruturas que o prendem. Empatia com bilionário é papo pra bilionário dormir sorrindo.
Se você está a procura de um manual de instruções para um futuro sustentável, esquece. A energia e esperança do autor gira o utópico. Mas espere, o livro é bom. Sim é mesmo bom e deverias ler. Porque? Porque é escrito por alguém que faz as perguntas certas. E ter perguntas certas é meio caminho para pensar no rumo certo. Sidarta escreve com amor e esse sentimento aproxima o leitor. Quase over. Quase bobo. Mas não ultrapassa a linha, na maioria das vezes. É um livro cheio de referências e todas as fontes estão detalhadamente citadas ao fim do livro. Só este trabalho de pesquisa já vale muito! Leia e depois me conte o que achou.
Li desavisada e achei que o livro abordaria mais a questão e importância do sonho. Na verdade o livro é mais um diagnóstico das diversas crises (humanitária, ecológica, psicológia, existencial, política etc.) e uma prospecção de outros futuros possíveis, que revaloriza o cuidado, o prazer em viver, a ancestralidade, a arte, a educação, a ciência e saberes tradicionais. O livro faz uma denúncia explícita dos horrores de nossa época, mas também retoma e faz um elogio a narrativas, personalidades e temas importantes do nosso país negligenciados pela historiografia.
é um bom livro. mas de fato é (apenas) um sonho manifesto: são exemplos (distantes) de soluções, pensamentos sobre a espiritualidade em diversos povos, como um brainstorm. é bom pela extensa e variada seção de notas para aprofundar os estudos, achei sincero e generoso. só fica aquele gostinho de discurso do filme da Barbie (filme que eu gosto, mas discurso que é bem Hallmark Movie — que eu também gosto —, se a gente for pensar bem), ou de crianças salvando o mundo num filme em que animais falam. é bom por ser leve, mas podia ser melhor se não fosse tão leve; não sei se faz sentido. É ingênuo, mesmo que bom. Como a Dora Aventureira dizendo “Raposo, não pegue!” e ele respondendo “oh”, ao desistir de fazer coisa errada.
tem uma vibe muito idéias para adiar o fim do mundo mas entra de uma forma bem mais profunda nos aspectos caóticos e apocalípticos antes de falar das esperanças, apresenta mais pesquisas nesse sentido. gostei muito do tanto que ele falou da capoeira, sou fã do Sidarta
Mais um livro que chega fazendo todo o sentido. Impressionante como o Sidarta consegue dar palavras e costurá-las de forma tão agradável para explicar os desafios que vivemos.
Um magnífico esforço de chamamento a uma nova mentalidade de progresso e existência humana, completamente distinta dos ritos e expectativas cristalizados no dia a dia lancinante da vida contemporânea. Uma voz que tenta nos acordar para salvarmos a Humanidade e o que resta de biodiversidade na Terra. Há sugestões às vezes calcadas demais em crença individual e momentos de vaivém narrativo que fazem o livro perder concisão, mas Sidarta Ribeiro é um pensador sólido e sereno, com muita bagagem de várias frentes, não só de ciência. Traz aqui uma espécie de visão mais cosmopolita de preceitos que também se encontram na obra de Ailton Krenak e outros luminares do período Antropoceno. Um livro para ser lido por adolescentes e jovens, principalmente, mas também por adultos de qualquer faixa etária, para que possamos conversar sobre o que acontece com o mundo e sobre o que precisa mudar, rápida e profundamente, em nosso comportameno e expectativas para a vida -- para não perecermos inapelavelmente.
Antes de tudo, é preciso dizer que esse foi um livro escrito durante a pandemia. Situar as reflexões do autor nesse momento tão sombrio ajuda a compreender as várias críticas sistêmicas, olhar transdisciplinar e soluções holísticas — escancaradas naquele período e registradas lindamente pelo Sidarta Ribeiro. Os capítulos condensam complexidades e costuram conexões entre temas aparentemente não relacionados, mas que levam o leitor a se distanciar dos problemas e visualizar o panorama de caminhos possíveis. A sensação que eu tive enquanto lia era a de uma câmera que se distancia lentamente do chão a cada capítulo, até que, no fim do livro, toda a Terra é visível em sua imensidão, beleza e contraste. Paradoxalmente, senti falta de um encadeamento e detalhamento maior sobre cada assunto abordado. Mas entendo que é um livro que intencionalmente privilegia o macro em detrimento do micro. E faz isso em poucas páginas, que podem ser devoradas rapidamente e compreendidas por leitores que não possuem muita familiaridade com os assuntos. É, de fato, um sonho manifesto.
Sidarta elucida a necessidade de mudança para que a Terra prospere com a existência de humanos e outros seres. Os paradigmas devem ser reavaliados. A distribuição de tarefas, renda e prazeres deve ser discutida. Mas o que mais me agradou nesta leitura foi a junção dos problemas atuais com histórias míticas hindus, budistas, cristãs, para retratar (talvez de forma necessariamente utópica) que estamos em um caminho sem volta, mas as ferramentas de mudança estão à disposição.
O subtítulo, que não consta na capa aliás, já diz (quase tudo): são 10 reflexões, não exercícios, de otimismo, nascidos na pandemia, quando sonhávamos com um novo normal, bem mais empático e amoroso. É lindo e idealista, destacando uma possibilidade de reverter esse sistema quebrado. Pode deixar um gosto amargo, mas vale tomar para si algumas reflexões e começar sozinho, com pequenos passos e ações, ainda que isolados.
Gostei do livro. O Sidarta é, além de um cientista de renome, uma pessoa muito culta. Só não dei 5 estrelas pois ele mostra alguns dados errados (e.x.: o número de pobres está aumentando) e cai na verdade parcial de só focar a solução dos problemas na mudança de atitude dos outros (bilionários, políticos), sem citar a responsabilidade individual (e.x.: o impacto das nossas escolhas alimentares).
Reflexões muito necessárias neste momento em que estamos vivendo. Se não mudarmos nosso estilo de vida, nosso padrão como sociedade, não teremos futuro. O autor aponta alguns caminhos que temos, porém não temos muito tempo pra mudar.
Um ótimo livro que une pensamentos correntes sobre os problemas mais prementes da humanidade e ideias de como enfrentá-los, ou pelo menos o início do caminho pra enfrentá-los, de um viés bem otimista.
Eu adoro o Sidarta, mas ele parece um Harari psicodelico às vezes. Politicamente é bem liberal e juvenil, ele falando de bilionários e seu papel é muito triste. Fora isso, ele reverbera ótimos insights no decorrer do livro.