Uma gigantesca sesmaria, doada por um nobre português a um cirurgião-barbeiro francês, é alvo de disputa e maldição. Quando um feitor ambicioso desonra o corpo e a história de uma sacerdotisa escravizada, é a terra quem sofre e, com ela, Dona Justa, a rezadeira que é herdeira por direito. Seus poderes lhe diziam que aquela terra estava ligada ao seu destino – dela e de seus descendentes. O sofrimento marcado na terra e cortado pela água não se esvai, só supura como ferida inflamada.
Sete gerações ali viveram, cada uma deixando sua marca. A chuva persistente que não penetra a terra árida e sofrida, os recém-nascidos enterrados, a infestação de cobras, o canto fantasmagórico que vem do rio... Como é possível quebrar um feitiço escrito na própria alma de um lugar?
Um romance misterioso e sombrio, que viaja entre séculos, gerações e crenças, A cabeça cortada de Dona Justa é um exemplo magistral do realismo fantástico brasileiro.
Uma antiga sesmaria amaldiçoada. Uma rezadeira que é dona dela por direito. Uma história de sangue, vingança, assombração e força familiar.
Comecei essa leitura sem saber muito sobre o livro. Foi uma excelente escolha. A história abre com uma senhora recebendo de herança uma fazenda gigantesca. O local, dizem, é amaldiçoado: chove muito, mas tudo é seco; há cobras, pessoas enterradas e espíritos por toda parte. Então, somos apresentados a outras duas histórias arrepiantes, que mais tarde farão sentido, para, enfim, conhecermos a história desse lugar.
"É assim que são conjuradas as maldições. Elas nascem quando espíritos como eu, que conhecem o poder que possuem, se recusam a seguir o caminho traçado."
A escrita de Rosa Amanda Strausz é fascinante. Fiquei obcecado com essa história e, por vezes, senti medo. Há de tudo: cadáveres que se negam a partir para outro plano, uma infestação de cobras peçonhentas, vozes que vêm do rio, rituais de cura e noivos enviados do inferno. Todos esses elementos são unidos pela história do Brasil, ainda no período imperial, e entrelaçados ao histórico de escravização de povos vindos do continente africano ao país.
Não há um momento em que o livro perca a força, mas algumas escolhas narrativas só fizeram sentido para mim ao final da leitura. As personagens, majoritariamente femininas, são impressionantes em vários sentidos — do fantástico ao mais comum. Dona Justa, especialmente, é uma das mais instigantes, por expôr a hipocrisia e as contradições daqueles que a procuravam para serem curados.
Se tornou uma das melhores leituras do ano. Recomendo!
Bem legal o jeito como a Rosa Amanda mistura fantasia e 'recriação' histórica. O livro gira em torno de uma fazenda amaldiçoada e acompanha personagens diversos e de várias gerações para que possamos entender a origem da maldição e como desfazê-la. Muitos dos capítulos se organizam quase como contos, mas mais pro final as coisas vão se amarrando para dar um bom encerramento à história. Dona Justa, obviamente, está lá no centro de tudo.
“Não há escapatória: pagamos pela violência de nossos ancestrais.” (Duna, Frank Herbert)
Em A Cabeça Cortada De Dona Justa, a carioca Rosa Amanda Strausz reúne o horror e o realismo mágico para apresentar uma alegoria sobre a formação de nosso país, fundado e construído sob a dominação pela violência. Tendo como fulcro o papel da memória, o livro pode ser encarado como um resgate de nossa própria história marcada por fantasmas, mandingas, bruxarias e maldições.
Um bom exemplo é a protagonista, a cabeça cortada de Dona Justa, que relata sua sina da fronteira entre a vida e a morte. Sua proprietária é uma benzedeira mestiça, oriunda do nosso limbo sócio-racial, que não encontrará paz até ser feita justiça, isto é, a sesmaria herdada – transformada numa rentável fazenda de café – retorne para as mãos de seus descendentes, já que a propriedade foi usurpada pelo seu feitor, o violento Policarpo Dias, mediante chantagem. Na verdade, o dono da terra não a possui por direito mas pelo emprego da violência.
Indo do início século XVIII ao final do século XX, a narrativa não só acompanha Dona Justa como sete gerações de seus descendentes e a decadência da fazenda, uma vez que o sangue derramado para torná-la lucrativa, acaba lançando uma maldição: o local chove sem parar e possui serpentes por todos os cantos.
Se parece um pesadelo, qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência e espere para conhecer uma galeria de personagens com suas histórias capaz de despertar o medo até em gente grande, como Benzadeus, “a menina-diaba”, ou melhor, a criança mais linda que alguém já viu na vida, nem em pintura existiu beleza parecida”.
Já, o calcanhar de Aquiles do livro é o desfecho que reúne esclarecimentos desnecessários e uma história paralela que pouco acrescenta ao fulcro romance. Também há discrepâncias entre o enredo e a árvore genealógica de Justiniana Silvério, apresentada logo nas primeiras páginas, e apesar destes deslizes, há escolhas que me agradaram – quero crer que guardem até uma certa ironia – tal qual o destino dado a fazenda.
essa leitura conseguiu me deixar intrigada do início ao fim, fiquei vidrada em querer saber a história da Fazenda dos Afogados e por que raios a personagem inicial teria lhe herdado. Os capítulos vão apresentando vários personagens de contextos diferentes, o que me deixava meio confusa, mas que no final foram bem amarrados e a relação entre aquelas pessoas ficou explicada. Achei os últimos capítulos meio corridos, se o livro tivesse mais umas 50 pags estaria resolvido. Mas o último capítulo de todos foi bem legal, gostei como o livro terminou! Recomendo 💫
"além disso, ela acreditava que um fato, por pior que fosse, nunca é pior do que o medo que temos dele."
mano do céu, eu estou fascinado com esse livro! fui fisgado pela escrita da rosa amanda strausz - que por sinal é belíssima e muito bem polida - e não consegui fazer absolutamente nada da minha vida, durante as últimas 24 horas, a não ser ler esse bendito livro. eu adorei demais!
só tive problemas com a perda da polidez da narrativa na metade do livro e com algumas páginas do final que, para ser sincero, foram completamente desnecessárias.
ademais, "a cabeça cortada de dona justa" não foi perfeito para mim, mas vai entrar na lista de melhores leituras do ano com toda certeza.
É realismo mágico de qualidade, mostrando gerações de uma família, religiões, simpatias, histórias que já escutei reformuladas no lore dessa narrativa de uma forma super bem feita e tudo isso se soma pra apresentar tensão, horror, revolta e curiosidade. A história brasileira é bem contextualizada no livro (com partes q remontam a 1800) e a autora consegue trazer os horrores da escravidão de uma forma bem contundente e por isso eu acho que vale ter cuidado já que pode ser gatilho.
"É assim que são conjuradas as maldições. Elas nascem quando espíritos como eu, que conhecem o poder que possuem, se recusam a seguir o caminho traçado. A coisa certa a fazer seria ir com minha bisa e deixar Branca e Honorato entregues a seus destinos. Mas não consegui. A ideia de abandonar minha filha, tão linda, tão amada, nos braços de Policarpo, me impediu de seguir adiante. Eu tinha que cuidar dela. Por isso, deixei que minha mãe, minha avó e minha bisa partissem sem mim. Fiquei aqui, grudada nessa terra, sem a proteção das minhas guias, tomando conta de tudo, como um bicho furioso, até que a fazenda pudesse ser entregue a seus verdadeiros donos. A partir daquele momento, a maldição seria eu."
Dona Justa conta a história de como perdeu as terras que eram suas por direito de herança e lançou uma maldição que só pode ser quebrada por suas descendentes. Dona Justa é benzedeira e cura as pessoas com suas rezas e plantas, a história é cheia de assombrações, uma de suas descendentes é literalmente mandada para o inferno, mas faltou alguma coisa pra mim. Acho que teria sido melhor começar com a parte II, contando a história dela mesma, antes de passar pras descendentes. É cheio de personagens interessantes, mas é tanta coisa acontecendo, ficou confuso. Queria ter gostado mais.
mesmo curto a autora conseguiu com perfeição criar algo recheado de significados, tradições rurais, simbologias, ancestralidade, miscigenação, fé e religiões. a escrita é maravilhosa, a ambientação me fez imersa e o clima de terror e realismo magico são tão bem construídos que em vários momentos fiquei realmente tensa. é tudo de bom em uma coisa só: nada daquele cliche de rio de janeiro/sao paulo, um mistério que prende o leitor de verdade e personagens femininas marcantes e fortíssimas ao ponto de transcenderem o tempo! é LINDO!
espero muito que vire um torto arado da vida: todo mundo lendo e falando sobre. é algo realmente merecido! amei amei amei
Adorei, um livro curto que fala de tanta coisa como colonialismo e ancestralidade. Amei acompanhar a Dona Justa e sua família ao longo do anos. Queria que tivesse mais páginas.
E pensar que meu primeiro contato com a Rosa Amanda Strausz foi em "Sete ossos é uma maldição" quando eu tinha 13 anos e poder ler outro livro dela anos depois foi uma grande surpresa
"Um homem ruim consegue tornar a vida de umas poucas pessoas infernal. Uma mulher má atinge, no máximo, os membros de sua família. Mas quando a ação da pessoa vai além de quem está mais próximo dela a maldade se torna diabólica, espalha seus efeitos pelo mundo, se multiplica, vai se tornando pior sozinha" amei tanto esse livro
Desde o começo esse livro é intrigante, você rapidamente se prende ali até entender exatamente o que está acontecendo e qual o objetivo da história. Toda a trama familiar, por exemplo, que leva um tempo para se desenrolar, é muito interessante, mas deixa alguns pontos em aberto (pelo menos a minha pessoa boiou).
Por exemplo: - Bento é filho da cobra ou do Claudionor filho? Cria diz que o pai de Bento é uma cobra e um morto-vivo (parte do morto-vivo, ok!), mas o Claudionor filho não é uma cobra. - A história de origem das cobras e a explicação de como elas se infestam na fazenda faz sentido (alô, Iyalodê), massss toda a história da cobra roubando o leite da criança,,, como explicar isso? Fora a serpente Dangbé, nenhuma outra tem comportamento diferente do normal justificado para explicar o "roubo" do leite. Obs: Dangbé rege a preservação da vida então ela não teria sido a serpente que tirou o leite de crianças e causou a morte delas. - Por que Bento e Benzadeus ficam junnnntos no final? Eles são #family! - Benzadeus não sai do inferno com 72 anos? Então, como que ela fica com o Bento? Se ele tem (aprox) 20 anos? - Qual a do Pedro Missioneiro de sumir? A não ser que a autora não quisesse nenhum homem ativamente útil para a história (fora Bento), por que? Ou ele só foi criado para não ter que explicar Dona Justa ter filhos sozinha magicamente, por isso, ele vuuuup some ;) ?
Agora, coisinhas que eu gostei! - A explicação da relação que uma pessoa tem com a sua família e o peso que vem a partir disso (independentemente de conhecer a pessoa ou não). Isso me remeteu, de certa maneira, à constelação familiar. - Gostei do mantra de Benzadeus (ser o próprio nome) e como isso a traz segurança e a permite se conectar com todas as mulheres que vieram antes dela. - Adorei a participação de Iyalodê e como a autora cria espaço para falar sobre a religião dos povos africanos escravizados na fazenda e traz consciência para o tratamento desumano que eles recebiam (sim, às vezes o livro é bem gráfico, mas tudo bem), que é justificado e visto como necessário até por Armand!!! - AMO a maneira como a autora trata de assuntos subjetivos, como a energia de um lugar baseado no que aconteceu ali e como os impactos daquilo ainda se mantém até aquilo não ser lidado com diretamente, a presença de espíritos ainda grudados na vida sensível...
Obs: Palmas para Dona Justa e todas as mulheres dessa família! 150 anos decapitada não é para qualquer um ;O
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