** 4,5 estrelas **
"… junto ao tanque, crescia uma robusta araucária verde-escuro, onde centenas de pássaros faziam os seus ninhos: ao fim da tarde, vinham em revoadas e mergulhavam na árvore; dela saía então um gorjear contínuo, que a certas horas se tornava quase estridente, de uma estridência que não feria, mas apaziguava."
Primeira página e senti imediata conexão! Tenho o privilégio de acordar com estes sons (não só, mas também). Que escrita refinada ... (Marta, és uma "influencer" 😁😍!)
Agradeço igualmente à Celeste o alerta que colocou na sua resenha, porque, sinceramente, preferi não ler a cena de maus tratos ao cão (págs. 217/218 - Antígona).
Graça Pina de Morais denuncia de forma implacável a hipocrisia do ambiente social e familiar com a compreensão instintiva da grandeza e da miséria da condição humana.
Todas as personagens são tão ricas, tão intensas, díspares e complexas que estou em crer, se tornarão inesquecíveis para mim: o magnânimo Leonardo, o dissimulado Moisés, o enigmático João, o fiel Saul, o empático Dr. Eduardo; a generosa Constança, a magnética Maria Clara, a inocente Maria da Soledade, a inconformada Maria da Anunciação, a submissa Catinha, a alegre Andorinha e a rústica Ana Joaquina. Se bem que, que é um adjectivo para cada um destes indivíduos? Pouquíssimo na verdade.
"O seu amor à terra não era o do camponês esperto, ganancioso, vigilante das culturas na mira do lucro. Era o amor que se tem pelas obras de arte, aquele em que, para além do que se vê, há uma vibração de alma de natureza ignorada, um halo de encantamento." Pág. 10
Uma saga familiar engenhosa, lúgubre, numa escrita assertiva, lúcida, inclemente, cruel até, mas deixa espaço para nos enternecer com a beleza do mundo. A par de uma profusa (arriscaria dizer) imiscuidade entre religião e misticismo.
E a Casa! Pois a Casa respira, tem alma.