Esperava voltar a ver aquele ser que, sem dúvida, era maior do que eu. Até a sua obscuridade parecia luminosa. Deixou-me sem resposta, porque a resposta era essa. Volto a procurá-lo perto dos carvalhos, onde o encontrei pela primeira vez. Chego. Ali está ele sentado na pedra, vestindo, agora, uma longa túnica escura com um capuz. Esconde o rosto. Mas, então, endireita-se e olha-me. Pergunto, hesitante: “Mãe!?” Levanta-se e caminha. Por momentos, deixa-me acompanhá-lo. Dá a volta à pequena casa que está na beira do penhasco. O rio, lá em baixo, enche e faz-se mar, um mar revolto que se aproxima de mim, que ameaça o medo. Aquele ser maior desaparece e deixa-me com o mar nas mãos.
Raquel Loio é Doutorada em Filosofia (Universidade da Beira Interior), tendo desenvolvido uma investigação sobre a capacidade humana para sonhar lucidamente ou para viver lucidamente o sono sem sonhos, articulando a tese da multiplicidade dos tempos vitais da filósofa María Zambrano, com literatura relevante da filosofia da mente e com o pensamento budista. Realiza consultoria filosófica na área da lucidez do sonho e sono. É Investigadora colaboradora no Praxis - Centro de Filosofia, Política e Cultura sediado na Universidade da Beira Interior. É Mestre em Antropologia Médica (Universidade de Coimbra), com uma dissertação acerca da forma como as práticas médicas atribuem significados a determinadas doenças, e Licenciada em Enfermagem (Instituto Politécnico de Viseu), tendo exercido a profissão no período de 2008 a 2015 maioritariamente na área da Toxicodependência.
Autora de oito livros de romance filosófico escritos numa perspetiva atemporal. Através de uma prosa poética, desconstrói ideias para uma aproximação da essência e compreensão profunda de questões existencialistas como o medo, o amor, a meditação, a sabedoria. Seja em intrigantes monólogos interiores ou em inusitados diálogos, a narrativa assume uma qualidade espontânea, intuitiva e onírica.
Desenvolve pinturas de um modo espontâneo e intuitivo, com referências oníricas, sendo que algumas ilustram as capas dos seus livros. A lucidez do sonho e sono tem sido uma componente pessoalmente vivida desde a infância, com uma progressão menos associada à atitude de controlo dos sonhos e mais relacionada com o testemunho. Paradoxalmente, é fortalecida a concretização do desígnio.