What do you think?


Humanos exemplares
De uma das mais originais autoras contemporâneas brasileiras, um romance sobre família e amor, sobre envelhecer e o tempo das ausências e da memória.
Natalia é uma mulher velha, muito velha, que passa os dias reclusa em seu apartamento à espera de telefonemas da filha que mora em outro país. Viúva e última sobrevivente de um grande grupo de amigos, ela carrega os seus queridos humanos como um buquê íntimo de desaparecidos, companhias invisíveis que povoam a casa a partir de suas memórias. Vicente, companheiro de Natalia, era professor de geografia e foi perseguido pela ditadura. Sarah, sua melhor amiga, era uma mulher de temperamento impossível e dona de uma loja de biscoitos. Jorge, um morador de rua, lia cartas prevendo o futuro e recebia doses de Campari em troca.
Natalia vive a solidão passeando entre a janela da sala e a mesa da cozinha, às vezes preparando torradas com geleia que a transportam para cenários vívidos em torno dos quais a vida acontecia. Ela sabe que existe mais novidade no que passou do que no presente — e que, portanto, cultivar aquilo que ficou para trás é uma forma de se mover, ainda que parada.
Com simplicidade e uma linguagem singular, Juliana Leite monta uma coleção de sujeitos comuns que, a partir do amor, das relações familiares e da amizade, de dores e equívocos, compõem um mosaico poderoso e delicado, num romance de rara sensibilidade.
"Abri este livro e não consegui fechá-lo até chegar à última linha com o fôlego curto. Humanos exemplares é uma narrativa hipnótica. Ao fundo, os tempos de chumbo da ditadura. No fundo, o deslizar cotidiano de vidas cujas histórias temem não serem contadas. Um mergulho em gestos repetidos, personagens radicalmente comuns, sentimentos que se desconcertam numa fluidez que só o talento e um domínio total dos instrumentos da escrita permitem." — Heloísa Buarque de Hollanda
"Juliana Leite escreve sobre a velhice e a morte, com a alegria de uma menina descobrindo a vida. Humanos exemplares fala dos dias perigosos e incompreensíveis que atravessamos em conjunto; fala de reclusão, de sombra, e da confusa gestão do amor entre pais e filhos, sem jamais perder a luz, a lucidez e o bom humor." — José Eduardo Agualusa
Natalia é uma mulher velha, muito velha, que passa os dias reclusa em seu apartamento à espera de telefonemas da filha que mora em outro país. Viúva e última sobrevivente de um grande grupo de amigos, ela carrega os seus queridos humanos como um buquê íntimo de desaparecidos, companhias invisíveis que povoam a casa a partir de suas memórias. Vicente, companheiro de Natalia, era professor de geografia e foi perseguido pela ditadura. Sarah, sua melhor amiga, era uma mulher de temperamento impossível e dona de uma loja de biscoitos. Jorge, um morador de rua, lia cartas prevendo o futuro e recebia doses de Campari em troca.
Natalia vive a solidão passeando entre a janela da sala e a mesa da cozinha, às vezes preparando torradas com geleia que a transportam para cenários vívidos em torno dos quais a vida acontecia. Ela sabe que existe mais novidade no que passou do que no presente — e que, portanto, cultivar aquilo que ficou para trás é uma forma de se mover, ainda que parada.
Com simplicidade e uma linguagem singular, Juliana Leite monta uma coleção de sujeitos comuns que, a partir do amor, das relações familiares e da amizade, de dores e equívocos, compõem um mosaico poderoso e delicado, num romance de rara sensibilidade.
"Abri este livro e não consegui fechá-lo até chegar à última linha com o fôlego curto. Humanos exemplares é uma narrativa hipnótica. Ao fundo, os tempos de chumbo da ditadura. No fundo, o deslizar cotidiano de vidas cujas histórias temem não serem contadas. Um mergulho em gestos repetidos, personagens radicalmente comuns, sentimentos que se desconcertam numa fluidez que só o talento e um domínio total dos instrumentos da escrita permitem." — Heloísa Buarque de Hollanda
"Juliana Leite escreve sobre a velhice e a morte, com a alegria de uma menina descobrindo a vida. Humanos exemplares fala dos dias perigosos e incompreensíveis que atravessamos em conjunto; fala de reclusão, de sombra, e da confusa gestão do amor entre pais e filhos, sem jamais perder a luz, a lucidez e o bom humor." — José Eduardo Agualusa
248 pages, Paperback
Published July 13, 2022
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Community Reviews
Displaying 1 - 30 of 93 reviews
August 12, 2022
Se há um livro que narra bem e de maneira divertida e cuidadosa a solidão, a velhice e a morte, ele certamente é esse aqui.
Não há absolutamente nada que eu não tenha gostado; com uma temática aparentemente comum, envolto em memórias e cotidiano de uma idosa que vive enclausurada em um apartamento no Rio de Janeiro, com uma filha que mora em outro lado do oceano, Natália é a pequena parte ainda existente dos tempos perigosos que varreram o país na década de 60 e é ela que, como sobrevivente, conta a nós seu presente recheado de passado.
Com um enredo voltado à vida familiar e profissional, Juliana Leite conta a nós a vida da idosa e ex-professora, Natália, que a cada página rememora e discorre acerca do passado vivenciado, das perdas e dos amigos que com o passar dos anos deixaram de ligar, uns porque foram embora sem avisar, outros porque os esconderijos não foram suficientes para aplacar a terrível repressão e violência advinda da ditadura; em meio a viagens à praia, a descobertas sexuais, ao enfrentamento da doença, a escritora compõe um balanço do que é a vida, daqueles que fecham os olhos e não vigiando, "não se incomodam com a linha reta eterna e dormem como se o avião não corresse o risco de ir parar lá do outro lado de fora da Terra, toda vida no embalo" até àqueles que mesmo acordados deixaram de tomar precauções e a vida os pegou de surpresa, sem aviso.
É, por isso mesmo, uma obra sensível, bonita, gostosa e sobretudo cômica acerca da amizade e do tempo, ao passo que é também triste, quieta e silenciosa, ao meio a tanto rumor e tanto a se dizer. Se eu pudesse, gostaria de nunca tê-la lido, só para descobri-la de novo. No mais, literatura brasileira é boa demais.
Não há absolutamente nada que eu não tenha gostado; com uma temática aparentemente comum, envolto em memórias e cotidiano de uma idosa que vive enclausurada em um apartamento no Rio de Janeiro, com uma filha que mora em outro lado do oceano, Natália é a pequena parte ainda existente dos tempos perigosos que varreram o país na década de 60 e é ela que, como sobrevivente, conta a nós seu presente recheado de passado.
Com um enredo voltado à vida familiar e profissional, Juliana Leite conta a nós a vida da idosa e ex-professora, Natália, que a cada página rememora e discorre acerca do passado vivenciado, das perdas e dos amigos que com o passar dos anos deixaram de ligar, uns porque foram embora sem avisar, outros porque os esconderijos não foram suficientes para aplacar a terrível repressão e violência advinda da ditadura; em meio a viagens à praia, a descobertas sexuais, ao enfrentamento da doença, a escritora compõe um balanço do que é a vida, daqueles que fecham os olhos e não vigiando, "não se incomodam com a linha reta eterna e dormem como se o avião não corresse o risco de ir parar lá do outro lado de fora da Terra, toda vida no embalo" até àqueles que mesmo acordados deixaram de tomar precauções e a vida os pegou de surpresa, sem aviso.
É, por isso mesmo, uma obra sensível, bonita, gostosa e sobretudo cômica acerca da amizade e do tempo, ao passo que é também triste, quieta e silenciosa, ao meio a tanto rumor e tanto a se dizer. Se eu pudesse, gostaria de nunca tê-la lido, só para descobri-la de novo. No mais, literatura brasileira é boa demais.
Review of advance copy received from Publisher
This one should be on the radar of any serious readers of literary fiction, so I am dusting off a nearly abandoned Goodreads account to hype this remarkable and open-hearted book. This is Leite's second novel, but first to be translated into English, and I was asked to write an introduction for it.
The story takes place inside the mind of an 100 year old woman in her apartment in Brazil, and there's a really interesting thing that happens with the point of view that I don't want to spoil. It also unpacks a century of Brazilian history, but it's a deeply personal in its scale. Here's a representative paragraph from my intro--
Though the book tackles heavy themes— death, aging, strained relationships with children, control, disease, politics— the real heart of the book is about the million decisions and moments that truly give meaning to the infinite little lives within a single country or era. It reassured me, through its scope and its tenderness, that the act of giving yourself over to another person through the transfiguring experience of love— platonic, romantic, and familial— is the one and only life raft we ever have.
The story takes place inside the mind of an 100 year old woman in her apartment in Brazil, and there's a really interesting thing that happens with the point of view that I don't want to spoil. It also unpacks a century of Brazilian history, but it's a deeply personal in its scale. Here's a representative paragraph from my intro--
Though the book tackles heavy themes— death, aging, strained relationships with children, control, disease, politics— the real heart of the book is about the million decisions and moments that truly give meaning to the infinite little lives within a single country or era. It reassured me, through its scope and its tenderness, that the act of giving yourself over to another person through the transfiguring experience of love— platonic, romantic, and familial— is the one and only life raft we ever have.
August 13, 2025
Natalia é uma velha de cem anos, professora aposentada e viúva, que perdeu todos os amigos para a morte. A sua única filha vive em um oceano superior, — que é como quem diz, num outro país — e com ela mantém apenas um telefonema diário.
Natalia tem mais passado do que futuro, e é esse passado que vamos conhecendo através das suas memórias.
É um livro triste, doloroso e difícil, sobre o envelhecimento e a nossa finitude — o processo, o caminho, a solidão, a morte: quatro estações de uma mesma travessia. Mas é também um livro sobre a vida, os afectos e as lembranças.
No fim, fica cheio de sublinhados, de frases que se instalam na memória e continuam a martelar-nos a mente muito depois de o termos fechado.
A quantidade de ossos que uma velha possui é um espanto, um assombro, porque afinal alguns humanos como ela sumiram, muitos já sumiram e até agora por algum motivo ela permaneceu, ela se sente assim, como alguém que permaneceu, por enquanto.
*
É na mesa da cozinha, no jornal que ainda não foi aberto, que novas pessoas se apagam nas notícias. Todos os dias os apagamentos se acumulam e se empilham por toda parte formando um número impossível. Só de olhar para a lista de apagados uma velha de apartamento pode imaginar que a sorte morreu, que os vivos talvez sejam fruto do acaso e que, mesmo que ainda respirem, bem, eles também desaparecem pouco a pouco, de todo jeito, e em algum momento acabam se unindo aos demais.
*
Nos últimos anos quem olha de fora só vê a mulher sozinha em todos os cômodos, mas não foi sempre assim. Houve um tempo em que quem olhasse pela janela perceberia ali com a mulher pelo menos duas pessoas: Vicente, o marido, e a filha deles, que naquele tempo poderia ser ruiva ou loira perolada, a depender do resultado da tintura. As luzes do apartamento ficavam acesas e o cheiro de comida atravessava a sala. Faz tempo que eles não fazem mais companhia à velha, mas não é por mal. Em algum momento a filha se tornou uma filha que mora longe e Vicente desapareceu porque, bem, ele morreu e por isso ficou ocupado com outras coisas.
*
Descobriam que afinal não era apenas a passagem dos anos que envelhecia as pessoas, não, as dores envelheciam muito mais.
*
Alguém inexperiente e desavisado poderia imaginar que nesses encontros os companheiros quisessem falar sobre o que tinham vivido nos subsolos, comparando o frio e os ferimentos de cada um, expondo testemunhos. Mas isso jamais aconteceu. Sobrevividos, eles temiam abrir demais a boca e assim acabar cuspindo a serpente guardada no estômago, por isso trincavam os dentes e se asseguravam de manter tudo velado. Se num rompante de descontrole e coragem um deles explodisse lançando frases reveladoras sobre seu subsolo, bem, isso aconteceria sempre de maneira raivosa e tormentosa e acusativa, afinal era um absurdo alguém ter passado por tudo aquilo e a família, os amigos já não saberem de cada detalhe por intuição ou por telepatia, por amor. Era uma falha da espécie, uma falha grande e importante que tudo ainda precisasse por fim ser dito.
*
(…) a solidão é cheia de acontecimentos, se você reparar, ela é recheada de cadernos, lápis, pano de chão, lustra-móveis, Tom Jobim, dicionários, porta-retratos.
*
Daqui a alguns anos a filha será tão velha quanto a mãe e então descobrirá que nesse ponto da existência o passado é o único futuro, o único lugar onde alguns encontros ainda acontecem.
*
É curioso ter idade bastante para falar sobre todas as coisas retrospectivamente, uma velha pensa. Ao fim da linha da vida, de repente alguém recebe o direito de subir em uma cadeira e ficar cinquenta centímetros mais no alto para transmitir aos demais humanos as notícias que vêm do passado. Com esse horizonte de ontens à disposição, o alguém trepado na cadeira já pode dar a cada um dos acontecimentos de uma vida um lugar específico no tempo, usando binóculos e apontando o dedo: Foi mais ou menos aqui que tudo começou, e foi aqui, nesse ponto, que chegou ao fim.
Natalia tem mais passado do que futuro, e é esse passado que vamos conhecendo através das suas memórias.
É um livro triste, doloroso e difícil, sobre o envelhecimento e a nossa finitude — o processo, o caminho, a solidão, a morte: quatro estações de uma mesma travessia. Mas é também um livro sobre a vida, os afectos e as lembranças.
No fim, fica cheio de sublinhados, de frases que se instalam na memória e continuam a martelar-nos a mente muito depois de o termos fechado.
A quantidade de ossos que uma velha possui é um espanto, um assombro, porque afinal alguns humanos como ela sumiram, muitos já sumiram e até agora por algum motivo ela permaneceu, ela se sente assim, como alguém que permaneceu, por enquanto.
*
É na mesa da cozinha, no jornal que ainda não foi aberto, que novas pessoas se apagam nas notícias. Todos os dias os apagamentos se acumulam e se empilham por toda parte formando um número impossível. Só de olhar para a lista de apagados uma velha de apartamento pode imaginar que a sorte morreu, que os vivos talvez sejam fruto do acaso e que, mesmo que ainda respirem, bem, eles também desaparecem pouco a pouco, de todo jeito, e em algum momento acabam se unindo aos demais.
*
Nos últimos anos quem olha de fora só vê a mulher sozinha em todos os cômodos, mas não foi sempre assim. Houve um tempo em que quem olhasse pela janela perceberia ali com a mulher pelo menos duas pessoas: Vicente, o marido, e a filha deles, que naquele tempo poderia ser ruiva ou loira perolada, a depender do resultado da tintura. As luzes do apartamento ficavam acesas e o cheiro de comida atravessava a sala. Faz tempo que eles não fazem mais companhia à velha, mas não é por mal. Em algum momento a filha se tornou uma filha que mora longe e Vicente desapareceu porque, bem, ele morreu e por isso ficou ocupado com outras coisas.
*
Descobriam que afinal não era apenas a passagem dos anos que envelhecia as pessoas, não, as dores envelheciam muito mais.
*
Alguém inexperiente e desavisado poderia imaginar que nesses encontros os companheiros quisessem falar sobre o que tinham vivido nos subsolos, comparando o frio e os ferimentos de cada um, expondo testemunhos. Mas isso jamais aconteceu. Sobrevividos, eles temiam abrir demais a boca e assim acabar cuspindo a serpente guardada no estômago, por isso trincavam os dentes e se asseguravam de manter tudo velado. Se num rompante de descontrole e coragem um deles explodisse lançando frases reveladoras sobre seu subsolo, bem, isso aconteceria sempre de maneira raivosa e tormentosa e acusativa, afinal era um absurdo alguém ter passado por tudo aquilo e a família, os amigos já não saberem de cada detalhe por intuição ou por telepatia, por amor. Era uma falha da espécie, uma falha grande e importante que tudo ainda precisasse por fim ser dito.
*
(…) a solidão é cheia de acontecimentos, se você reparar, ela é recheada de cadernos, lápis, pano de chão, lustra-móveis, Tom Jobim, dicionários, porta-retratos.
*
Daqui a alguns anos a filha será tão velha quanto a mãe e então descobrirá que nesse ponto da existência o passado é o único futuro, o único lugar onde alguns encontros ainda acontecem.
*
É curioso ter idade bastante para falar sobre todas as coisas retrospectivamente, uma velha pensa. Ao fim da linha da vida, de repente alguém recebe o direito de subir em uma cadeira e ficar cinquenta centímetros mais no alto para transmitir aos demais humanos as notícias que vêm do passado. Com esse horizonte de ontens à disposição, o alguém trepado na cadeira já pode dar a cada um dos acontecimentos de uma vida um lugar específico no tempo, usando binóculos e apontando o dedo: Foi mais ou menos aqui que tudo começou, e foi aqui, nesse ponto, que chegou ao fim.
September 6, 2022
O que é a vida? Para uns, um aborrecimento, prefeririam nem ter nascido. Alguns outros chegam a pagar caro para se manterem agarrados a ela. A maioria vive cada dia do jeito que é possível e talvez seja essa a sabedoria da vida e de Natália.
A velha, como a própria Natália se autointitula, é uma senhora já com cerca de 100 anos. A vida nunca lhe foi fácil, mas nem por isso deixa de fazer o possível para vivê-la como possível. No decorrer de Humanos exemplares, a velha vai recordando diversos momentos de sua vida, nunca em ordem cronológica, e não o faz assim em razão da idade, que poderia sugerir início de um processo de demência, mas porque se utiliza de memórias afetivas que vão lançando fios entre uma história e outra, trançando um bordado aparentemente comum, mas de pontos fortes que dão estrutura ao todo.
Morando só em um apartamento em algum bairro do Rio de Janeiro, a velha tem quase absoluta certeza que há um espião no prédio em frente que sempre observa os seus dias e não faz muito para esconder o que lhe acontece ali dentro. Sua rotina é sempre a mesma, acordar, tomar o café da manhã, aguardar a chamada de telefone da sua semi-velha filha que vive no oceano do norte com sua menina (companheira de toda uma vida), almoçar, assistir a novela, dormir.
E durante todo esse tempo, deixa que suas recordações a revivam novamente. Desde quando conheceu Vicente, o seu marido, já falecido, passando pelos anos de chumbo dos anos 1960, do desaparecimentos dos queridos, das suas aulas de redação, do nascimento de sua filha, do amante que teve já quando estava aposentada. São apenas algumas de suas memórias. O que as diferencia do senso comum é que Natália as recorda sem pessimismo, mas com uma certa saudade das pessoas que se foram. Tudo é motivo de aprendizado, cada dia algo novo. Nem os prazeres devem ser deixados de lado. A vida é surpresa. Aguardar que ela se desenrole exatamente como a queremos é criar ilusões, que se desfazem como castelos de areia e deixa um gosto amargo. Na vida.
Juliana Leite aqui tece também uma bela obra que parece nos alertar que a velhice não é o fim, que há vida a ser vivida, que a pessoa idosa não é um ser difícil de se lidar, mas um ser que tem vontades, desejos e necessita ser respeitado, valorizado. Esse é o nosso caminho. Mas também parece ser como um alerta de que a vida atual nos leva a vidas solitárias ao seu final, muitas vezes não por nossa própria vontade, mas pelo próprio abandono da família, que tem "planos" mais hedônicos para se preocurarem e alcançarem. Que aos poucos as pessoas são deixadas de lado, como coladas numa gaveta e ali deixadas, esquecidas.
E não, não pensem que se trata de um livro triste. Natália não o permite, sua vida não é triste, nem chata. É vida! Havia tempos que não dava gargalhadas tão fortes com uma cena já próximo ao final do livro, em que a cuidadora da velha se horroriza com o que possa estar a se passar naquele apartamento. E como é poético e terno o seu fim!
A escrita de Juliana Leite também lembrou-me ligeiramente do melhor que há nas obras dos escritores Joca Reiners Terron e Aline Bei!
A velha, como a própria Natália se autointitula, é uma senhora já com cerca de 100 anos. A vida nunca lhe foi fácil, mas nem por isso deixa de fazer o possível para vivê-la como possível. No decorrer de Humanos exemplares, a velha vai recordando diversos momentos de sua vida, nunca em ordem cronológica, e não o faz assim em razão da idade, que poderia sugerir início de um processo de demência, mas porque se utiliza de memórias afetivas que vão lançando fios entre uma história e outra, trançando um bordado aparentemente comum, mas de pontos fortes que dão estrutura ao todo.
Morando só em um apartamento em algum bairro do Rio de Janeiro, a velha tem quase absoluta certeza que há um espião no prédio em frente que sempre observa os seus dias e não faz muito para esconder o que lhe acontece ali dentro. Sua rotina é sempre a mesma, acordar, tomar o café da manhã, aguardar a chamada de telefone da sua semi-velha filha que vive no oceano do norte com sua menina (companheira de toda uma vida), almoçar, assistir a novela, dormir.
E durante todo esse tempo, deixa que suas recordações a revivam novamente. Desde quando conheceu Vicente, o seu marido, já falecido, passando pelos anos de chumbo dos anos 1960, do desaparecimentos dos queridos, das suas aulas de redação, do nascimento de sua filha, do amante que teve já quando estava aposentada. São apenas algumas de suas memórias. O que as diferencia do senso comum é que Natália as recorda sem pessimismo, mas com uma certa saudade das pessoas que se foram. Tudo é motivo de aprendizado, cada dia algo novo. Nem os prazeres devem ser deixados de lado. A vida é surpresa. Aguardar que ela se desenrole exatamente como a queremos é criar ilusões, que se desfazem como castelos de areia e deixa um gosto amargo. Na vida.
Juliana Leite aqui tece também uma bela obra que parece nos alertar que a velhice não é o fim, que há vida a ser vivida, que a pessoa idosa não é um ser difícil de se lidar, mas um ser que tem vontades, desejos e necessita ser respeitado, valorizado. Esse é o nosso caminho. Mas também parece ser como um alerta de que a vida atual nos leva a vidas solitárias ao seu final, muitas vezes não por nossa própria vontade, mas pelo próprio abandono da família, que tem "planos" mais hedônicos para se preocurarem e alcançarem. Que aos poucos as pessoas são deixadas de lado, como coladas numa gaveta e ali deixadas, esquecidas.
E não, não pensem que se trata de um livro triste. Natália não o permite, sua vida não é triste, nem chata. É vida! Havia tempos que não dava gargalhadas tão fortes com uma cena já próximo ao final do livro, em que a cuidadora da velha se horroriza com o que possa estar a se passar naquele apartamento. E como é poético e terno o seu fim!
A escrita de Juliana Leite também lembrou-me ligeiramente do melhor que há nas obras dos escritores Joca Reiners Terron e Aline Bei!
September 25, 2022
Um livro protagonizado por uma idosa centenária, a Natália. Que rememora sua vida com um humor muito peculiar: o casamento com Vicente, a vida como professora durante a ditadura brasileira, as amizades, o envelhecer.
Achei a escrita super poética, gostosa de ler.
“Ela pretende lembrar à menina de que o problema de viver demais, de habitar o planeta por mais tempo do que o aconselhável, é que você vira testemunha de um mundo que se apaga, bem diante de você ele se apaga pessoa a pessoa, amor a amor, amigo a amigo e gato a gato, por sorte restando a companhia das árvores.”
Achei a escrita super poética, gostosa de ler.
“Ela pretende lembrar à menina de que o problema de viver demais, de habitar o planeta por mais tempo do que o aconselhável, é que você vira testemunha de um mundo que se apaga, bem diante de você ele se apaga pessoa a pessoa, amor a amor, amigo a amigo e gato a gato, por sorte restando a companhia das árvores.”
October 1, 2026
This was a good read.
A minor point: It dragged a bit at times is my only complaint. But the good in this novel far outweighed my minor concern. I hope you consider reading this book by this Brazilian author (she has written two novels but this is her first work translated into English).
Otherwise, although this was a work of fiction, the author really had me believing that this woman existed. She lived in Rio de Janeiro, was 100 years old, and was looking back on her life mostly with her husband, Vincente, and with her daughter who now lived in Europe somewhat far away. At one point in time when they lived in Brazil they lived under the specter of dictators, and this directly impacted on their lives.
Throughout the book the old woman would occasionally refer to “the outside threat” and I was hoping that this would be explained by the end of the book. I don’t think it was spelled out point blank in the book, but by the end of the book I figured it out and Catherine Lacey in her Introduction to the novel confirmed my suspicions. If that had gone unanswered I would have been annoyed…. like there was a piece of the mystery that was not solved….
So much good writing…. there was one part where the woman was recounting when she visited her daughter in Europe and they went to a café and they were served lemonade. And the old lady went into a coughing fit and was gesticulating to the waiter but couldn’t get out that she wanted water. He kept on bringing her more lemonade which was the cause of her coughing. LOL! I am not sure why this passage stuck out to me…..I guess I was amazed at what possessed the author to have her character behave like that and react to lemonade…it was passages like that that really made this character really believable and come alive on the printed page.
Catherine Lacey wrote an interesting and informative Introduction, but…and this is a pet peeve of mine and maybe someone can tell me to get over it: some Introductions to books and some reviews of books give away pretty much the whole plot or theme of the book that is being introduced/reviewed so much so that I wonder why in the word anybody would then want to delve into the book. If I had read Lacey’s Introduction it would have markedly diminished the pleasure I received from reading the book as I was becoming acquainted with the old woman beginning on page 1 of the book and slowly over 307 pages learning then everything about her. If I had read the Introduction I would have known too much about her to make it an enjoyable reading endeavor. Does that make sense to anybody else? I hope so. I would urge you to consider reading this book, but do not read Lacey’s introduction until you have finished reading the novel.
Reviews:
• To read more about her and miscellaneous stuff including snippets of reviews of her work: https://writerjulianaleite.com/
• https://www.buzzmag.co.uk/exemplary-h...
• interview with the author about this book: https://www.catranslation.org/journal...
A minor point: It dragged a bit at times is my only complaint. But the good in this novel far outweighed my minor concern. I hope you consider reading this book by this Brazilian author (she has written two novels but this is her first work translated into English).
Otherwise, although this was a work of fiction, the author really had me believing that this woman existed. She lived in Rio de Janeiro, was 100 years old, and was looking back on her life mostly with her husband, Vincente, and with her daughter who now lived in Europe somewhat far away. At one point in time when they lived in Brazil they lived under the specter of dictators, and this directly impacted on their lives.
Throughout the book the old woman would occasionally refer to “the outside threat” and I was hoping that this would be explained by the end of the book. I don’t think it was spelled out point blank in the book, but by the end of the book I figured it out and Catherine Lacey in her Introduction to the novel confirmed my suspicions. If that had gone unanswered I would have been annoyed…. like there was a piece of the mystery that was not solved….
So much good writing…. there was one part where the woman was recounting when she visited her daughter in Europe and they went to a café and they were served lemonade. And the old lady went into a coughing fit and was gesticulating to the waiter but couldn’t get out that she wanted water. He kept on bringing her more lemonade which was the cause of her coughing. LOL! I am not sure why this passage stuck out to me…..I guess I was amazed at what possessed the author to have her character behave like that and react to lemonade…it was passages like that that really made this character really believable and come alive on the printed page.
Catherine Lacey wrote an interesting and informative Introduction, but…and this is a pet peeve of mine and maybe someone can tell me to get over it: some Introductions to books and some reviews of books give away pretty much the whole plot or theme of the book that is being introduced/reviewed so much so that I wonder why in the word anybody would then want to delve into the book. If I had read Lacey’s Introduction it would have markedly diminished the pleasure I received from reading the book as I was becoming acquainted with the old woman beginning on page 1 of the book and slowly over 307 pages learning then everything about her. If I had read the Introduction I would have known too much about her to make it an enjoyable reading endeavor. Does that make sense to anybody else? I hope so. I would urge you to consider reading this book, but do not read Lacey’s introduction until you have finished reading the novel.
Reviews:
• To read more about her and miscellaneous stuff including snippets of reviews of her work: https://writerjulianaleite.com/
• https://www.buzzmag.co.uk/exemplary-h...
• interview with the author about this book: https://www.catranslation.org/journal...
March 22, 2025
belíssimo! algumas passagens que, particularmente, me deixaram comovida.
"Eu sei o que é o amor: se você estiverem caindo eu vou lá e ajudo".
"Quem sabe se seria esse um huamano exemplar, já livre, já apto a não ver ali, no osso original, somente um homem ou uma mulher, e sim o broto de uma terceira humanidade cujo nome ainda não surgiu".
"Eu sei o que é o amor: se você estiverem caindo eu vou lá e ajudo".
"Quem sabe se seria esse um huamano exemplar, já livre, já apto a não ver ali, no osso original, somente um homem ou uma mulher, e sim o broto de uma terceira humanidade cujo nome ainda não surgiu".
This entire review has been hidden because of spoilers.
July 26, 2026
I'm surprised that this book doesn't have more fans. It's recent translated lit about an old woman that survived Brazil's dictatorship-- what's not to like? Truthfully, the timeline is a bit muddled, which is what keeps the book from becoming 5 stars, but that makes the book even more dreamlike and realistic. It really does feel like an old woman recounting her memories. I didn’t learn a lot from this book, but was surprised at the visceral reaction that the ending gave me. I knew the book would inevitably end in Natalia's death, and I knew that Vicente and Sarah would die too, but all of their deaths felt like a punch in the gut.
Also, there's lesbian rep as the daughter is a lesbian! Stay happy, gays!
8/10, underrated and I highly recommend!
Also, there's lesbian rep as the daughter is a lesbian! Stay happy, gays!
8/10, underrated and I highly recommend!
July 23, 2024
Move em lugares que não costumam ser tocados. Muito lindo e sensível (:
June 10, 2024
O enredo é original e criativo. Sob a perspectiva da “velha” centenária Natalia, o presente se torna cada vez mais irrelevante, devido à solidão causada pelo “desaparecimento” de pessoas queridas e uma “ameaça externa”. Por outro lado, o passado ganha mais importância no decorrer dos dias, porque guarda os encontros, enquanto o tempo atual é marcado por separações. Mas a prosa não tem fluidez.
A leitura entedia devido ao estilo narrativo da autora: excesso de metáforas, eufemismos, metonímias e pieguice. Clichês, repetições e floreios desnecessários. Tenho a impressão de que ela se esforçou tanto para escrever de modo incomum e original que pesou a mão no uso de figuras de linguagem, sem objetividade. Além disso, há um abuso na utilização de adjetivos para descrever personagens, o que, para mim, indica permanência na zona de conforto, falta de ousadia e de criatividade. A ausência de discurso direto deixou a leitura mais maçante.
Há passagens bem-humoradas cheias de ironia, típicas das melhores crônicas brasileiras, um olhar para aquilo que ninguém parece enxergar, além do cronista. Mas, raras, elas só salpicam uma leveza sobre o texto.
A leitura entedia devido ao estilo narrativo da autora: excesso de metáforas, eufemismos, metonímias e pieguice. Clichês, repetições e floreios desnecessários. Tenho a impressão de que ela se esforçou tanto para escrever de modo incomum e original que pesou a mão no uso de figuras de linguagem, sem objetividade. Além disso, há um abuso na utilização de adjetivos para descrever personagens, o que, para mim, indica permanência na zona de conforto, falta de ousadia e de criatividade. A ausência de discurso direto deixou a leitura mais maçante.
Há passagens bem-humoradas cheias de ironia, típicas das melhores crônicas brasileiras, um olhar para aquilo que ninguém parece enxergar, além do cronista. Mas, raras, elas só salpicam uma leveza sobre o texto.
April 25, 2024
A leitura não fluiu muito bem para mim, o estilo narrativo é repetitivo (repetição de palavras para ênfase), robótico e lento. Por um lado, cria a monotonia de uma personagem idosa em seu fim de vida. Mas mesmo nas memórias do passado, com mais ação, o ritmo seguia muito lento. Algumas passagens um pouco piegas e meio clichês sobre ditadura.
O que gostei foi a parte final, bonito como Juliana Leite constroi o emaranhado de vidas (e mortes) entre mãe-filha-irmã.
O que gostei foi a parte final, bonito como Juliana Leite constroi o emaranhado de vidas (e mortes) entre mãe-filha-irmã.
November 5, 2025
Received as a free ARC. This novel pulls out the somber emotions of aging without losing sight of the joy that comes with a life fully lived. Flowing between both past and present and third and first person, sometimes within the span of one sentence, it brings about the feeling of listening to old family stories. More than that, it feels like the moment it truly hits that these stories are real memories, and you realize that the past isn’t as distant as you had once thought.
June 24, 2026
Best book I have read this year. Wanted to savor it longer, but I could not put it down whenever I got going. Such brilliant writing, such pain in the words. A beautiful translation too, an artform itself. Catherine Lacey describes the book as "the mystery of life coming into focus" and that is such an apt description that it is still rattling around in my brain.
January 1, 2026
Um livro profundo, que requer pausas e atenção, em certa medida abstrato e filosófico, ainda que tão quotidiano.
A voz singular de uma velha, de 100 anos, e as suas perspectivas do passado e do futuro.
Excelente final.
A voz singular de uma velha, de 100 anos, e as suas perspectivas do passado e do futuro.
Excelente final.
May 27, 2026
Really beautiful portrait of a life! The book follows a 100-year old woman who lived through Brazil’s 21-year dictatorship as she reflects on her life. It’s told through memories and is definitely a slower pace but tbh I think the slowness gave me a mini dopamine cleanse so there’s that
May 29, 2025
Em "Humanos Exemplares", Juliana Leite constrói um romance introspectivo, ambientado em uma atmosfera de solidão devastadora: a idosa Natalia vive sozinha em seu apartamento no Rio de Janeiro, acompanhando passivamente a passagem das horas enquanto aguarda diariamente a ligação de sua filha, que mora no exterior. E só...
De forma até curiosa, a parte onde a narrativa revisita o passado de Natalia junto a seu marido, perseguido pela ditadura militar, tiveram pra mim menos força do que a descrição de seu presente: ficou claro que é justamente a rotina solitária da personagem que sustenta o interesse do leitor! A autora transforma a monotonia em matéria literária, e essa escolha não apenas funciona, como se revela essencial para a proposta do livro.
A narrativa nos leva a pensar sobre a finitude da vida de modo silencioso, sem grandes discursos ou epifanias. A morte, o tempo, o envelhecimento e o fim das relações humanas estão ali, diluídos nos gestos mínimos de Natalia — e é justamente essa abordagem sutil que torna o livro interessante. A ausência de um enredo movimentado não representa falta de profundidade; ao contrário, é nessa economia de ação que Juliana Leite encontra espaço para elaborar uma literatura de camadas emocionais mais densas.
Dada essa particularidade — a monotonia da vida da protagonista como elemento intencional e bem explorado —, o livro acerta também na forma: suas quase 250 páginas são bem dimensionadas, sem excessos nem lacunas. "Humanos Exemplares" é um romance que convida à observação do que passa despercebido e nos confronta com a passagem do tempo e o esvaziamento do sentido nas relações contemporâneas.
Avaliação Final: 6,5/10
Leitura Concluída: 21º livro de 2025
Próxima Leitura: "Catedrais" (Claudia Piñeiro)
De forma até curiosa, a parte onde a narrativa revisita o passado de Natalia junto a seu marido, perseguido pela ditadura militar, tiveram pra mim menos força do que a descrição de seu presente: ficou claro que é justamente a rotina solitária da personagem que sustenta o interesse do leitor! A autora transforma a monotonia em matéria literária, e essa escolha não apenas funciona, como se revela essencial para a proposta do livro.
A narrativa nos leva a pensar sobre a finitude da vida de modo silencioso, sem grandes discursos ou epifanias. A morte, o tempo, o envelhecimento e o fim das relações humanas estão ali, diluídos nos gestos mínimos de Natalia — e é justamente essa abordagem sutil que torna o livro interessante. A ausência de um enredo movimentado não representa falta de profundidade; ao contrário, é nessa economia de ação que Juliana Leite encontra espaço para elaborar uma literatura de camadas emocionais mais densas.
Dada essa particularidade — a monotonia da vida da protagonista como elemento intencional e bem explorado —, o livro acerta também na forma: suas quase 250 páginas são bem dimensionadas, sem excessos nem lacunas. "Humanos Exemplares" é um romance que convida à observação do que passa despercebido e nos confronta com a passagem do tempo e o esvaziamento do sentido nas relações contemporâneas.
Avaliação Final: 6,5/10
Leitura Concluída: 21º livro de 2025
Próxima Leitura: "Catedrais" (Claudia Piñeiro)
September 16, 2026
I’ve been saying this a lot lately so maybe take it with a grain of salt, but this is a new favorite. The constantly changing from 1st person to third person really reflected Natalia’s state of mind. I absolutely love her and everything about this book. I’ve avoided books about COVID because, well obviously. BUT this one is worth it. Taking my time reading this made it so much more worthwhile.
April 4, 2025
Um livro arrebatador e, ao mesmo tempo, difícil de ler, marcado por uma escrita lírica e muito bonita.
(Primeira avaliação, postada em 4 de abril de 2025)
O Goodreads é tão ruim que não encontrei uma forma de escrever uma nova avaliação, mas apenas de editar a que já tinha postado.
Mas, enfim...
Reli o livro, depois de pouco mais de um ano, após ter passado por uma perda muito significativa, a da minha mãe.
Posso dizer com tranquilidade que ele entra na minha lista de livros favoritos da vida. O domínio que a Juliana Leite demonstra sobre a linguagem e sobre a história que quer contar é muito impressionante. Todas as palavras parecem ter sido escolhidas a dedo para fazer o leitor sentir a emoção das cenas e proporcionar uma imersão completa. Um trabalho impecável, que certamente voltarei a visitar.
"A filha faz planos de longo prazo envolvendo a mãe e a mãe deixa que as coisas fiquem desse jeito, deixa que a filha desligue o telefone com o sentimento garantido de que haverá uma mãe no futuro. É natural que ela aja dessa forma, afinal ainda lhe é possível olhar para o futuro de frente, como um animal amigo. Daqui a alguns anos a filha será tão velha quanto a mãe e então descobrirá que nesse ponto da existência o passado é o único futuro, o único lugar onde alguns encontros ainda acontecem."
(Primeira avaliação, postada em 4 de abril de 2025)
O Goodreads é tão ruim que não encontrei uma forma de escrever uma nova avaliação, mas apenas de editar a que já tinha postado.
Mas, enfim...
Reli o livro, depois de pouco mais de um ano, após ter passado por uma perda muito significativa, a da minha mãe.
Posso dizer com tranquilidade que ele entra na minha lista de livros favoritos da vida. O domínio que a Juliana Leite demonstra sobre a linguagem e sobre a história que quer contar é muito impressionante. Todas as palavras parecem ter sido escolhidas a dedo para fazer o leitor sentir a emoção das cenas e proporcionar uma imersão completa. Um trabalho impecável, que certamente voltarei a visitar.
"A filha faz planos de longo prazo envolvendo a mãe e a mãe deixa que as coisas fiquem desse jeito, deixa que a filha desligue o telefone com o sentimento garantido de que haverá uma mãe no futuro. É natural que ela aja dessa forma, afinal ainda lhe é possível olhar para o futuro de frente, como um animal amigo. Daqui a alguns anos a filha será tão velha quanto a mãe e então descobrirá que nesse ponto da existência o passado é o único futuro, o único lugar onde alguns encontros ainda acontecem."
October 5, 2023
Tive muita dificuldade em manter uma cadência de leitura com esse livro. Muitas vezes, cheguei a descrever o ritmo dele como se fosse o som de uma impressora matricial. De fato, ele tem algo de burocrático que mantém o leitor a uma certa distância. À medida que o ia desbravando, vendo aqui e ali imagens, metáforas, alegorias que, de tão encantadoras, destoavam dessa rítmica narrativa, fui me afeiçoando ao universo que ele apresentava, mesmo que seguisse complicado enxergar aos personagens como algo palpável, catártico, reconhecível. Foi quando tive um insight que penso talvez ter sido o objetivo da autora: ela quer que os vejamos humanos, não como moldes humanos onde projetamos aquilo que nos falta ou sobra, que desejamos ou refutamos. Não poderia jamais ver minha mãe ou a falta dela em Natália, porque Natália é uma velha e precisa ser vista como velha, senão nada mais faria sentido nessa rotineira insistência de sobreviver a si mesmo uma e outra vez, década após década, que a narrativa nos apresenta. No fim, achei o livro bom, talvez lido num momento pessoal não adequado para recebê-lo.
July 3, 2025
Mais um livro “from” Brasil, lido logo a seguir a “Ainda estou aqui”. Uma boa surpresa! Muito agradável, muito bem escrito!
Trata da solidão, das perdas, da velhice e de como o tempo deixa marcas! Memórias da família e história do país (não sendo explícito depreende-se a abordagem aos tempos difíceis da ditadura militar de 1964, curiosamente, tema central do livro “Ainda estou aqui”). Escrita embrulhada com algum humor, o que torna a leitura, apesar de tudo, muito leve e, com trocadilhos de palavras pouco usando o nome das personagens! A “velha”, a “filha”, a “mãe”, a “menina” os “queridos”!
Tocou-me essencialmente por ser muito sensível e muito bonito! Até a capa!
“A velha cuidava de não ficar quieta demais e por fim percebia que, estranhamente, a solidão é cheia de acontecimentos”.
“Ela se abraçava como uma humana qualquer poderia se abraçar ao corpo do seu país, com braços de abraçar país, compreendendo que dentro desse amor tão grande estavam contidas tanto a esperança quanto a ruptura, quando a luta quanto a rendição, sendo todas essas coisas um único fluxo de ambiguidade e ternura”.
Trata da solidão, das perdas, da velhice e de como o tempo deixa marcas! Memórias da família e história do país (não sendo explícito depreende-se a abordagem aos tempos difíceis da ditadura militar de 1964, curiosamente, tema central do livro “Ainda estou aqui”). Escrita embrulhada com algum humor, o que torna a leitura, apesar de tudo, muito leve e, com trocadilhos de palavras pouco usando o nome das personagens! A “velha”, a “filha”, a “mãe”, a “menina” os “queridos”!
Tocou-me essencialmente por ser muito sensível e muito bonito! Até a capa!
“A velha cuidava de não ficar quieta demais e por fim percebia que, estranhamente, a solidão é cheia de acontecimentos”.
“Ela se abraçava como uma humana qualquer poderia se abraçar ao corpo do seu país, com braços de abraçar país, compreendendo que dentro desse amor tão grande estavam contidas tanto a esperança quanto a ruptura, quando a luta quanto a rendição, sendo todas essas coisas um único fluxo de ambiguidade e ternura”.
July 26, 2025
longe de ser um livro de memórias, é um livro sobre o presente - e como é difícil encontrar livros sobre o presente, ainda mais narrados por figuras que estão entre o passado e o futuro, ou melhor, entre a vida que viveram e a morte que parece arrombar a porta dos seus. personagens bem construídos, momentos interessantes, mas o que mais me acalentou como leitora foi a forma como as relações se desenvolvem, os sentimentos, as dores e os amores. é possível imaginar tudo o que é narrado - é possível entrar no velho apartamento, sentir os cheiros, sentir a vida pulsando, apesar da morte se fazer tão presente.
“De início achávamos que o tempo não morreria jamais, que ele nos recompensaria logo adiante, elástico e caudaloso, porque afinal a briga havia sido nobre e necessária, inevitável e legítima. Éramos jovens e como jovens costumávamos pensar que estavam garantidas as parcerias com o tempo. Mas por fim o próprio tempo desconhecia o que todas essas coisas significavam, a necessidade, a nobreza, a legitimidade, a juventude, essas palavras não lhe diziam respeito.”
“De início achávamos que o tempo não morreria jamais, que ele nos recompensaria logo adiante, elástico e caudaloso, porque afinal a briga havia sido nobre e necessária, inevitável e legítima. Éramos jovens e como jovens costumávamos pensar que estavam garantidas as parcerias com o tempo. Mas por fim o próprio tempo desconhecia o que todas essas coisas significavam, a necessidade, a nobreza, a legitimidade, a juventude, essas palavras não lhe diziam respeito.”
Read
August 28, 2022uma forma simplificada de vida, composta por um par de sentimentos, apenas, e um par de calças, disposta inclusive a abrir mão da humanidade enquanto nome, se preciso fosse, ainda mais quando a condição fosse andar cheio de metais nos bolsos.
January 11, 2023
Talvez um dos livros mais lindos que eu vá ler nessa vida. Fala sobre a velhice, a morte, o tempo, a maternidade, a solidão, o amor, a amizade, a ditadura no Brasil e a pandemia. Tudo de uma forma muito poética. O capítulo final me arrepiou inteira e me levou aos prantos.
May 31, 2026
This book is extremely well written. I’m not much familiar with Brazil’s history, but this book covered multiple decades of Brazil along with multiple decades of the protagonist. The writing was like poetry, like a warm hug - something you feel like growing old with.
May 31, 2026
Brazil. Probably a little longer than it should have been (ironic, given the storyline) but I really enjoyed this- gorgeous, touching, and weird.
July 28, 2026
i would read this again and again to read the last chapter only - incredibly thought provoking for me
September 1, 2025
me lembrou pq q eu gosto de literatura e um dia escolhi cursar uma graduação sobre.
July 26, 2026
Fabulous perfect
June 5, 2026
This is a gorgeous book about a 100 year old woman living alone in Rio de Janeiro during the pandemic, recalling her life and the people she has outlived. Gorgeous prose (grateful for the beautiful translation), life-affirming, lovely internal worlds and relationships. It is not a plot-heavy novel (and it's somewhat of a slow read), but we get to see scenes from the old woman's life married to a fellow teacher, their community of teachers, students, and loved ones finding ways to exist under military dictatorship, and the relationship she maintains as an old woman with her daughter who lives abroad. There is much to do with aging and death, but it is not a downer by any means, it feels like an honor to get to have access to all of this woman's life!
So many lines I highlighted, but I will leave this one here:
"One day the daughter will be as old as her mother and then she'll discover that at this point in her existence, the past is the only future, the only place where some get-togethers still happen."
So many lines I highlighted, but I will leave this one here:
"One day the daughter will be as old as her mother and then she'll discover that at this point in her existence, the past is the only future, the only place where some get-togethers still happen."
May 3, 2026
I adore this book. Perry’s translation of Leite’s prose is beautiful. It’s hard to capture simple moments without being corny, but Exemplary Humans really pulls us off. I can’t recall another book that made me smile so much. The characters and the prose are so charming that I was fully immersed in this 100-year-old woman’s uneventful life (and more eventful past). There are also some really interesting stylistic choices—such as the shifting perspective of the narrator—which add to the charm. It feels like an optimistic book, but not naively so. The characters live through the military dictatorship in Brazil, but it’s never hopeless. Maybe that’s because our narrator has already lived through it and knows it will end. Leite captures the way things change and what you thought could never be normal suddenly is. It’s nothing groundbreaking, but it’s a beautiful story that makes me feel alive. What more could anyone ask for?
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