Agora que estou morta, posso escrever finalmente a minha autobiografia. É óbvio que não falo a sério.
Com uma cor tão chamativa e um título tão lacónico, “Divórcio” é o livro de cabeceira perfeito depois de uma desavença entre um casal, um motivo de preocupação num almoço de amigas, a causa de olhares de curiosidade e piedade nos transportes públicos. “Divórcio” é, no entanto, um desafio equivalente a um casamento atribulado ao qual pensei realmente pôr fim por diferenças irreconciliáveis. A saber: sonhos e alucinações surrealistas (ou surrealismo alucinado?) numa amálgama que não me permite perceber o que é realidade ou não, uma farsa em que uma morta assiste ao próprio funeral, ao próprio julgamento, em momentos de pura demência. Precisei, pois, de recorrer a uma profissional de confiança, neste caso, a grande Deborah Levy, que me deu alento para prosseguir através das suas palavras:
“Um livro, ao mesmo tempo, espirituoso e sem esperança, elegante na forma e na sobreposição modernista das camadas do tempo e do espaço. Quem me dera tê-lo lido há décadas. Se o tivesse feito, guardá-lo-ia na minha estante entre duas poetas – Sylvia Plath, Anne Sexton – e a filósofa Hannah Arendt.”
Contextualizando. Susan Taubes, tal como a protagonista desta obra, era neta de um proeminente rabino, filha de um psiquiatra freudiano com quem abandonou a Hungria no início da Segunda Guerra Mundial para se instalar na zona de New Jersey, formou-se em filosofia e casou com um homem em tudo parecido com o seu marido ficcional em “Divórcio”. Duas semanas depois da sua publicação, em 1969, atirou-se a um rio e foi a sua grande amiga Susan Sontag quem reconheceu o seu corpo, daí a introdução escrita por David Rieff, filho desta autora. Ninguém sabe o motivo do suicídio de Taubes, mas muitos dizem que para tal pode ter contribuído a recensão negativa no “New York Times”, numa época em que a opinião de críticos literários ditava a sorte das publicações.
-Porque é que não te afogaste, ao menos? A tua vida não era suficientemente desgraçada? (…)
-Não havia água suficiente sob a Pont de Sèvres.
-Outras pessoas parecem ter conseguido.
-Não entendes nada da vida de uma mulher.
-Alguma vez aceitarás que és uma ficção!
No meio dessa recensão desdenhosa e complacente, exibindo o mesmo paternalismo masculino contra o qual Taubes se rebela no seu livro, há uma expressão muito certeira para o definir que é o jogo cama-de-gato. “Divórcio” é, de facto, um jogo com um fio de pontas atadas que a autora vai manipulando para dar outras formas, enrodilhando até parecer que assumiu a sua forma intrincada e final e, depois, desenredando para se tornar linear e banal, numa mescla de géneros: ficção e autoficção, teatro e sonhos.
Depois de 15 anos de um casamento artificial com um homem manipulador e condescendente…
O processo de anulação, começado na noite em que ficou noiva de Ezra, completou-se com a cerimónia pública de casamento; foi como se escavada – grata por saber que não passava de um molde – e enchida muito lentamente com um fluido diluído e homogéneo que iria endurecer aos poucos.
…Sophie decide pôr fim ao nomadismo que tem sido a sua vida, instalar-se em Paris com os seus três filhos, separar-se de Ezra, escrever um livro…
Os livros eram melhores do que os sonhos ou a vida. Um livro terminava não como a vida, abruptamente; não como um sonho, com uma escaramuça canhestra e uma sensação de desilusão: mas com graça e intencionalidade, preparando-nos para o parágrafo final.
…e por fim, viver uma paixão sem compromisso.
Acredita no que te digo, o casamento arruína qualquer relacionamento feliz. São as pequenas irritações da vida quotidiana… Ele vê a tua escova do cabelo em cima da mesa ou tu vê-lo a cortar as unhas e lá se vai a beleza. Fazem muito bem em viver separados. Em partilhar apenas as coisas belas. Eu sei. O Zoltan e eu fomos os amantes mais felizes durante cinco anos e depois, assim que nos casámos… Nem quero falar sobre isso. Ele queria uma mãe substituta, uma enfermeira, um daqueles tipos neuróticos clássicos…
Não é, porém, só o seu divórcio que dá título a este livro, visto que, em criança, Sophie assistiu ao fim do casamento dos pais, em Budapeste, uma relação que nenhum dos progenitores levava muito a sério.
-Não é nada de novo; uma mulher mimada, uma mulher vaidosa, uma mulher egoísta que usa um homem e faz dele um palerma; não há nada de original na tua Kamilla.
-É uma doença – argumentou ele -, eu não disse que ela era original. Há milhares de casos. Toda a humanidade está doente. Ela é um caso clássico.
-Para mim ela é uma galdéria.
-Nós, psicanalistas, chamamos-lhe uma doença.
Não constituindo um libelo contra o matrimónio, “Divórcio” não deixa de ser uma reflexão de frases ponderadas e bem torneadas sobre o que leva alguém que, em princípio não consideraria casar-se, a fazê-lo, seja por pressão, por tradição ou por comodismo (ou tudo junto, neste caso?) perdendo, assim, a sua individualidade e aniquilando a sua identidade.
Aceitara como parte do casamento duas pessoas caminhando juntas em solidão e oposição. Mas que se esgotassem a sua fé e o seu arbítrio e o orgulho, isso Sophie não podia aceitar.