Inácio de Loyola Brandão, nascido na bucólica cidade de Araraquara no ano de 1936 é romancista, contista e jornalista além de membro da Academia Brasileira de Letras desde 2019. Venceu por cinco vezes o prestigiado prêmio Jabuti além do prêmio Machado de Assis em 2016 pelo conjunto da obra. Produziu com muito talento e versatilidade vasta obra literária em que destacam os romances “Zero” (1975) e “Não verás país nenhum” (1981) que já teve 28 edições e continua mais atual do que nunca.
O jornalista Washington Novaes (1934/2020), um dos idealizadores do “Globo Repórter”, colunista e ativista da causa do meio ambiente, escreveu o seguinte prefácio intitulado “Sufocados pela realidade” para a 27ª reedição de “Não verás país nenhum”:
“Há quem diga que artistas são uma espécie de antena da raça.
E são mesmo – por sua capacidade de antever, enxergar muito antes que os simples mortais, graças a sua sensibilidade aguda.
E a um dom que os faz ser ouvidos.
Kofi Anan, secretário-geral da ONU, passou anos repetindo que, hoje, os problemas centrais da humanidade são mudanças climáticas e padrões insustentáveis de produção e consumo, além da capacidade de reposição da biosfera terrestre.
Ficou rouco de tanto falar, poucos o ouviram.
A primeira edição deste livro é de 1981.
Ele vai agora para a 27ª edição.
As pessoas leem.
Sabem que o autor está falando, há um quarto de século, das mesmas coisas que o secretário-geral da ONU viria a tratar anos depois.
Mas em 1981 só meia dúzia de cientistas tratavam das ameaças que se desenhavam.
E neste livro, daquele ano, volta e meia o leitor tem que dizer a si mesmo “É ficção”, para não ser engolido e sufocado pelas realidades de hoje e pelas alegorias que povoam as páginas.
É um livro captado por antenas de alta sensibilidade.
Por isso é tão atual, tão lido – fora o estilo, que são outros quinhentos”.
A leitura atenta de “Não verás país nenhum” reforça sobremaneira as palavras de Washington Novaes pois a dura realidade distópica construída pelo autor espelha de forma alarmante os piores cenários montados por ambientalistas e cientistas como alerta contra as consequências do aquecimento global, do desmatamento descontrolado e do consumo descontrolado.
O enredo de “Não verás país nenhum” é enganosamente simples: num Brasil futurista, onde a floresta amazônica não existe mais, substituída por um deserto gigantesco (a “nona maravilha do mundo”, maior do que o Saara, como alardeia de forma bizarra o misterioso, ditatorial e manipulador “Esquema” que governa o país), superpovoado, sem animais, sem crianças, sem agricultura, assolado por imensas tempestades de areia que inviabilizam regiões inteiras e onde a população, se alimentando basicamente de alimentos artificiais hiperprocessados, com água reciclada e racionada, teve sua expectativa de vida reduzida a pouco mais de quarenta anos, vive o desiludido e infeliz Souza, ex professor que sobrevive trabalhando em um emprego burocrático e repetitivo. Ele é casado com Adelaide, mulher igualmente desiludida e infeliz, e sua relação com ela está por um fio. Completando esta disfuncional família está o misterioso sobrinho de Adelaide que ocupa no tal “Esquema” uma função que lhe dá certo poder.
Souza, diante de uma vida sem atrativos e, ou estímulos e numa realidade brutal elucubra sobre o passado e sobre as questões que, se devidamente enfrentadas e resolvidas, poderiam ter levado o país a uma realidade longe da catástrofe ambiental e social em que ele vivia.
Em um determinado momento da narrativa (pág. 34 desta edição) Sousa reflete sobre como a ciência e os cientistas foram tratados quando os primeiros sinais da catástrofe começaram a aparecer:
“Cientistas. Categoria mínima, marginalizada. Numa fase quase pré-histórica, o povo era alheio aos seus avisos. Mais tarde o Esquema percebeu a situação, manipulou jornais e televisão e fomentou a ironia. Foi quando se difundiu amplamente a expressão galhofeira “paranoia científica”.
Qualquer ato era “paranoia científica”. Um cientista consciente, naquela época equivalia a ser judeu nos dias de nazismo. Pessoa perseguida, maldita, que se camuflava. No entanto a gente continuava a falar, denunciar, a provocar a opinião pública.
A maioria dos cientistas foi cassada. Outros se retiraram aceitando convites estrangeiros. Houve quem se aposentou, mudou de atividade. Muitos institutos foram fechados, enquanto uma nova ordem crescia e dominava”.
Esse trecho soa, infelizmente, muito familiar para quem acompanhou certas discussões realizadas recentemente na época da pandemia da Covid-19 e também depois dela. Inclusive a expressão “paranoia científica” já foi usada por muitos negacionistas nos dias de hoje diante das denúncias sobre o desastre climático e ambiental que está em curso.
De certa forma dá para afirmar que Inácio de Loyola Brandão antecipa várias questões muito bem abordadas e desenvolvidas por David Wallace-Wells, jornalista estadunidense especialista em assuntos climáticos, em seu livro publicado em 2019 “A Terra Inabitável”.
O autor, em entrevista publicada na revista “451” de junho de 2025, parte integrante da matéria intitulada “Cronista da perplexidade” afirmou o seguinte acerca de seu estilo despojado e brutal de narrar:
“Sofri com a censura, com a ditadura e, emputecido, busquei uma forma de me liberar, protestar, ser livre, fazer o que eu queria, da maneira que queria. Como editor na Última Hora, guardei durante anos tudo que os censores proibiram. Levei para minha casa uma montanha de material: fotos, notícias, entrevistas, reportagens, cartas que torturados enviavam às redações. Levei dez anos fazendo e refazendo. Zero foi publicado primeiro na Itália, depois no Brasil. A ditadura proibiu. Usei ruídos, gritos, choros, risos, peidos, bombas explodindo, assassinatos — tudo que me viesse à cabeça, que eu visse, vivesse, que amigos vivessem, tudo que transmitisse o clima de terror, violência, medo, perseguição, dor, censura”.
Faço apenas uma ressalva a “Não verás país nenhum” e para isso reproduzo aqui uma frase de uma canção chamada “Índios”, composta por Renato Russo em 1986. Em um trecho desta canção ele disse “O futuro não é mais como era antigamente”. E é esse sentimento de estar diante de um “futuro anacrônico” que eu tive ao ler certas passagens do clássico de Inácio de Loyola Brandão. Num certo trecho do livro ao abordar um imenso cemitério de veículos abandonados o autor cita “Passats”, “Chevetes” e “Corcéis”, ou seja marcas de veículos que o autor via pelas ruas em 1981. Nesse futuro desenhado pelo autor em 1981 também não existem computadores, celulares e, ou Internet. Portanto leitores mais atentos podem achar esse futuro um tanto quanto “defasado”.
Mas essa ressalva não desmerece em absoluto o valor de “Não verás país nenhum”, um clássico que incomoda, assombra, nos faz pensar sobre que tipo de país teremos no futuro e cuja leitura é fundamental para todos aqueles e aquelas que ainda se preocupam com a democracia, com o meio ambiente e com a qualidade de vida.